O Preço do Ingresso

Saí do consultório agradecendo a Deus por conseguir um encaixe na agenda a quinze dias do recesso de fim de ano. Emergência é emergência, disse a dentista quando agradeci. O endereço fica no cruzamento da Bocaiúva com a Alves de Brito. O sinaleiro abriu no momento exato em que pisei na faixa de pedestres. Recuei, pois os carros arrancaram de imediato. Foi a sorte, pois se não fosse aquilo eu teria perdido uma preciosa experiência. Na calçada em frente, vi um menino pequeno prestes a atravessar a rua, sozinho. Parou no meio da faixa de pedestres, ai, ai, ai, e se postou em frente aos carros no sinaleiro, de costas para mim, vai ser atropelado, eu pensei, procurando alguém que pudesse alertá-lo do perigo.

Os carros passavam em velocidade, impossibilitando qualquer ação de minha parte.
Pela estatura deveria ter uns seis anos. Mexeu nos bolsos como se procurasse alguma coisa e então algo mágico aconteceu. Laranjas começaram a subir e descer em pleno ar obedecendo ao movimento ritmado de suas mãos. Fechei os olhos entre aliviada e comovida. Um pequeno malabarista! De tão pequeno, era encoberto pelos carros; daí que, visto de longe, tinha-se a ilusão de que as laranjas circulavam no ar por conta própria. O show durou um breve instante.
Súbito o menino interrompeu a apresentação, curvou o corpo em agradecimento, que graça!, e caminhou entre os carros com a mãozinha estendida. Ninguém se dignou a abrir a janela do carro. Mas ele não havia tempo para melindres, então deu as costas àquele público brutalizado e indiferente. Tinha pressa, o sinal da Bocaiúva acabara de fechar.  Atravessei a rua enquanto ele se postava em frente aos carros e me instalei na calçada para ver, agora de melhor ângulo, sua performance. Fiquei arrepiada. Diante de mim, havia um verdadeiro virtuose dos malabares.
Juntei as moedas – R$1,50 -, mas as guardei em seguida. O show valia mais. Muito mais. Peguei R$10,00 da carteira. Dobrei a cédula e a escondi, bem escondida, na palma da mão à espera do fim do espetáculo. Não demorou muito para que ele interrompesse a apresentação, curvasse o corpo em agradecimento e caminhasse entre os carros com a mãozinha estendida. Uma mulher, na segunda fila, abriu o vidro e estendeu-lhe uma moeda e um sorriso. Foi a única.
Imediatamente ele se dirigiu ao sinaleiro da Alves de Brito para mais um show, o sinal abriria em segundos. Só então vi que era mais velho, teria provavelmente uns dez, doze anos – mas era tão pequeno! -, pardo, olhos pretos, cabelo descolorido, meio alaranjado, escondido sob um boné bege escuro, a aba virada para trás, cara de marrento, tipo atarracado, fortinho. Malabarista! Quem diria? E eu achando que ele não sabia se virar…
Andava rápido pela calçada, contrariado, enérgico; oferecera tanto para receber tão pouco (talvez a arrecadação fosse maior se as pessoas pudessem enxergá-lo de dentro dos carros). Estacou ao dar comigo, sorrindo para ele. Tu és muito booom, cara! Eu disse. Ele arregalou os olhos, surpreso. Sério! Nunca vi ninguém tão bom! Nem gente grande! Ele arregalou os olhos, mais ainda. Ó, pelo show! Falei, estendendo-lhe o dinheiro. Muito booom! Enfatizei, os olhos mareados.
Ele pegou o dinheiro dobrado como estava e o guardou no bolsão da bermuda. – É o primeiro dia que eu ganho… Ele disse, com os olhos sorrindo, brilhando. Creio que quis dizer que era a primeira vez que ganhava “tanto” dinheiro. O teu show vale muito mais! Respondi. O menino inflou o peito, cresceu na minha frente. Só não esquece de estudar hem? – Pode deixar! Ele disse.
Se eu tivesse juízo teria recomendado: quando crescer faz um concurso pro Banco do Brasil, meu filho, que arte não dá camisa pra ninguém! Mas, quem sou eu para dar esse tipo de conselho?
Desejei Feliz Natal e saí pela rua, enxugando as lágrimas. Ao chegar na esquina, olhei para trás. No sinaleiro, em meio aos carros, as laranjas zuniavam no ar como se tivessem vida própria.
Arte e emoção no sinaleiro. Ingresso a R$10,00. Barato pra caramba!

(Em 11/12/2010)

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