O primeiro debate a gente não esquece…

Franco Montoro manda Reynaldo de Barros calar a boca e ele fica quieto… esse foi o momento marcante do encontro dos dois candidatos ao governo de São Paulo, na segunda-feira, 22 de março de 1982.

O programa Ferreira Netto, na época apresentado nos fins de noite na TVS emissora cabeça da nova Rede (mais tarde denominada de SBT, Sistema Brasileiro de Televisão), intensificava pioneiramente a participação de políticos em um ano que marcava eleições diretas para governador do Estado. E saiu na frente promovendo o primeiro debate da TV brasileira após o golpe militar de 64.

Reynaldo de Barros, participando do programa no início do mês de fevereiro, aceitou debater com seu oponente Franco Montoro, que já havia concordado em enfrentar o candidato apoiado pelo então governador Paulo Maluf. 
 
A partir de um compromisso assinado pelos dois candidatos e da aprovação por parte de Silvio Santos, a produção do programa Ferreira Netto começou a trabalhar na realização do evento.

Silvio Santos aprovou a ideia e viajou para os EUA; enquanto isso aumentava na mídia a divulgação do debate. A par dessa promoção voluntária, Ferreira e eu, produtor-executivo do programa, convidamos os principais jornais e revistas do país para que designassem representantes, os quais, ao lado do mediador do programa fariam perguntas aos candidatos Montoro e Reynaldo.

Não nos esquecemos do rádio e acertamos a participação da Jovem Pan, que faria a retransmissão do evento. Os preparativos transcorriam normalmente, inclusive com o departamento comercial da TVS comercializando as cotas de patrocínio. Todos nós da produção do programa vivíamos a expectativa de uma grande noite democrática.

Na sexta-feira anterior à segunda-feira marcada para a realização do debate surgiu uma surpresa desagradável: Silvio Santos retorna de sua viagem aos EUA e, dizem que influenciado por Paulo Maluf, liga para Ferreira Netto ordenando que o debate não mais fosse ao vivo e não teria a participação de jornalistas e da rádio Jovem Pan. Ferreira me comunicou isso com lágrimas nos olhos. Um balde de água fria em nosso quentíssimo entusiasmo.

"Reynaldo cala a boca..."

Montoro surpreende: No sábado, na tentativa de reverter aquela inusitada situação de última hora, conseguimos o apoio do ex-governador de São Paulo, Laudo Natel, que, em telefonema incisivo a Silvio Santos, informou-lhe o contentamento de João Figueiredo ao saber que a emissora dele realizaria o primeiro debate entre os dois candidatos paulistas ao governo do Estado. Foi o presidente Figueiredo que concedeu os canais de televisão da nova Rede de Silvio Santos.Meia hora depois desse telefonema, Ferreira recebe novas orientações de Silvio: o debate foi confirmado ao vivo com a presença de jornalistas convidados, mas sem a participação da Jovem Pan, a qual “deitou falação” sobre o cancelamento da retransmissão e o fato aumentou ainda mais a divulgação da realização do debate.Montoro surpreende: Foi realmente uma grande noite democrática que apontou Franco Montoro como vencedor e embalou sua campanha rumo à vitória nas eleições. O deselegante “cala a boca” dele em Reynaldo de Barros lhe rendeu destaque positivo nas edições dos jornais e revistas que cobriram o acontecimento.

Falou e disse Silvio Santos

Falou e disse Silvio Santos

E (o apreensivo) Silvio Santos, que havia ameaçado cortar a transmissão do debate se houvesse alguma baixaria, acompanhou todo o programa na sala de direção de TV e ao seu final foi até o estúdio onde Ferreira Netto entrevistava jornalistas e convidados especiais, repercutindo a performance alcançada, a fim de cumprimentar os dois debatedores. E foi entrevistado por Ferreira Netto.”Se eu soubesse que debate político era tão bom e dava tanta audiência, já teria feito muitos programas assim”.O tempo mostrou que, apesar de ter conseguido sucesso de audiência, faturamento e prestígio com os políticos, nunca mais o SBT abriu espaço em sua programação para um debate político.

Também nenhum outro debate feito na televisão (e foram muitos nesses quase 27 anos passados) apresentou um formato tão democrático no seu desenvolvimento como o do pioneiro executado pelo programa Ferreira Netto. Como já foi dito, ali estiveram presentes jornalistas representantes das principais empresas de comunicação do Brasil, que questionaram os candidatos sem nenhuma interferência nossa.

A manchete da coluna de hoje afirma: O primeiro debate a gente não esquece. Confesso que realmente não me esqueço desse inédito debate, em razão do extraordinário trabalho feito e pela honra de ter sido o produtor-executivo de Ferreira Netto nessa histórica realização da TV brasileira, fator relevante em tempos que marcaram os primeiros passos do retorno de nossa democracia.
 
Ah, a saudade do debate histórico me faz perguntar: Por que a TV brasileira (o rádio também) não abre espaço para debates sobre temas importantes que influem no dia-a-dia do brasileiro?

Fala de Lula quase derruba Ferreira Netto na TVS

Fala de Lula quase derruba Ferreira Netto na TVS

Mais duas historietas sobre o programa Ferreira Netto na TVS: a primeira antes e a segunda depois do debate acima descrito. Os meios de comunicação do país viviam dias de euforia com a anunciada abertura democrática que aos poucos se tornava realidade no fim do governo de João Figueiredo, e o programa de Ferreira era o único especializado em entrevistas políticas.
 
O metalúrgico que despontava na política, Luiz Ignácio da Silva, ainda não havia agregado Lula ao seu nome de registro e o PT engatinhava sem dar ideia de que seria um grande partido político.

O líder sindical Lula, muito atuante entre os trabalhadores, tinha posição de resistência aos governos militares da era iniciada em 1964. Ele constava na lista de nomes convidados com frequência para participar do programa Ferreira Netto.

Numa de suas idas ao programa, Luiz Ignácio, ao se referir aos citados governos, falou que o Estado de exceção imposto aos brasileiros pelos militares estava chegando ao fim e que a população voltaria a sorrir. No dia seguinte, João Figueiredo baixa algumas medidas autoritárias. Um redator da agência de notícias JB, ligada ao jornal homônimo, que assistiu ao programa na noite anterior, distribui uma nota com ilação da entrevista de Lula à edição das medidas de Figueiredo. Uma notícia inverídica, fantasiosa, que percorreu as redações dos meios de comunicação do país.

A entrevista, que havia passado batida, ganha assim repercussão nacional e muitos repórteres dos principais veículos tentam ter acesso ao seu áudio, coisa que, num primeiro momento, Silvio Santos negou. Houve grande correria na então sede do SBT, na Vila Guilherme, em São Paulo. Ferreira e eu argumentamos com Silvio que a entrevista poderia ser cedida aos jornalistas porque já havia sido exibida na Rede e que seu conteúdo não acrescentava nada que Lula não tivesse dito em entrevistas anteriores.

O dono do SBT cedeu, a imprensa toda pôde ver e ouvir a entrevista do metalúrgico (que já estava famoso); nada de especial foi constatado e dias após vazou a informação sobre a verdade da nota divulgada pela agência JB.

A equipe de Ferreira Netto viveu dias agitados porque Silvio Santos, muito distante dos assuntos políticos e temeroso de perder seus canais de TV, ameaçou acabar com o programa. Felizmente, para ele e para nós, isso não ocorreu.

A segunda historieta é sobre a entrevista de Paulo Maluf.

Quando um feriado caía na segunda-feira, a gravação desse dia era feita na sexta ou no sábado. Ferreira havia sugerido uma pauta para o programa de sete de setembro, que naquele ano cairia numa segunda-feira. Como não foi possível realizá-la, sugeri uma entrevista exclusiva com o então governador Maluf.

Ele aceita e a gravação foi marcada para sábado, as 10h00. Uma hora antes cheguei aos estúdios da Vila Guilherme, e deparei com um grande aparato de seguranças e de pessoas que aparentemente aguardavam a chegada do governador. Silvio deveria comparecer – a pedido dele mesmo – ele participaria do primeiro bloco do programa fazendo uma pergunta a Maluf.

Começamos a gravar o programa, o estúdio apinhado de gente assistindo, Ferreira e eu imaginávamos ser por causa da presença de Paulo Maluf. Silvio faz uma pergunta corriqueira ao governador, que responde alegremente. Depois Ferreira anuncia o primeiro intervalo comercial. Silvio se despede de Maluf e, para espanto nosso, o estúdio fica quase vazio, apenas com o entrevistado, o entrevistador, eu e mais os técnicos indispensáveis ao trabalho de gravação da entrevista.

Aquele montão de pessoas (alguns funcionários e outros curiosos) estava na Vila Guilherme não para ver o governador Paulo Maluf, e sim para reverenciar o mito Silvio Santos.

Até hoje, nos estúdios do SBT ou por aonde vai, o animador-empresário (ou vice-versa) causa muita curiosidade, com inevitável formação de grupos de admiradores à sua volta.

In Memoriam

Tive a grata satisfação de conviver profissionalmente, nos anos de 1975/1976, com o talentoso e bondoso Cândido Norberto. O programa Sala de Redação – referencial de sua carreira – deu a partida para que, progressivamente, a Rádio Gaúcha adotasse uma programação cem por cento jornalística, a qual, ainda hoje, é seu grande sustentáculo. Com sua morte ocorrida no domingo (1º/02/09), aos 83 anos de idade, o Rio Grande do Sul perdeu um grande jornalista do rádio que, segundo o jornal Zero Hora, “Passou os últimos dias da vida ouvindo rádio. Acordava ouvindo rádio. Pegava no sono com o rádio ligado ao lado da cama, dia e noite, inseparável do aparelho e de todos os seus significados. Poucos fizeram tanto pela magia do rádio quanto ele”. Lá no céu, onde já deve estar Cândido Norberto – com certeza – está convocando seus companheiros de radiojornalismo, já falecidos, para a primeira edição da Sala de Redação Celestial.

Cândido Norberto – 1925-2009

Cândido Norberto nasceu em Bagé. Profissional de rádio, TV e jornal, também fez carreira na política, tendo sido eleito deputado estadual por 16 anos consecutivos (de 1951 a 1967); em 1963, foi também presidente da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Faltando seis meses para completar seu quarto mandato, foi cassado pelo governo militar: “Cassado por ser um elemento altamente perigoso. O governo militar tinha medo de mim. Isso em 1966.”

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