O profano & o sagrado em Paris

O romeno Mircea Eliade, definido por Leo Gilson Ribeiro como O grande interprete das religiões sentenciou: “o sagrado possui um modo de estar no mundo, uma atitude existencial do ser humano na história”.

fog-571786_1280Para uns nada mais precisa ser dito, para outros, tal sentença nada acrescenta. No campo da razão, especialmente neste terceiro milênio, pouco se apresenta mais pantanoso do que submergir em busca da distinção entre o que é sagrado e o que é profano.

Contraditoriamente para muitos, Mircea Eliade revelou, em seus estudos, “que jamais existiram no mundo meros adoradores de objetos, sendo tudo representação de um mistério que se mantém muitas vezes a um passo, mas sempre além da compreensão pela consciência”. E acrescenta: “o ser humano vive rodeado de fenômenos que transcendem qualquer explicação cientifica, psicológica ou doutrinação ideológica: as manifestações do Sagrado em meio à vida humana.” Realço: em meio à vida humana.

A partir do homo sapiens, quais coisas foram usadas para representar o mistério de Mircea e que se mantem de modo tão profundo numa época de tantos avanços tecnológicos? O céu, claro. Também o sol, a lua, o círculo, a água (dos quatro elementos o mais poderoso a extasiar), o arco-íris, a terra (a agricultura como ideia de fertilidade é imbatível), um ramo, o pão, o vinho, uma árvore, os animais, uma pedra (quantos de nós ainda carregam uma como amuleto?).

Postos no mundo hostil, solitários, inseguros e violentos quanto hoje, os seres humanos sentiam na pele a pequenez. Seus temores, suas duvidas, suas angustias, suas perplexidades, seus assombros foram conformados em objetos-pontes para esse mistério que pode acalmar o indivíduo, aplacar as mentes, amenizar a vida coletiva dando-lhes a sensação de pertencer a algo maior. Sem os fazer tolerantes, infelizmente

Lenta e gradativamente tudo isso foi sendo ritualizado em gestos, cantos, danças, orações, matanças, sacrifícios – inclusive humanos –, transformados em divindades e postos em locais “sagrados” como templos, palácios, cavernas, montes, lagos, rios, ilhas. Como diz Eliade, “o tempo não existe, as épocas são partes da mesma ilusão: só importam os rituais através dos quais a condição humana transcende a si mesma para entrar em contato com os deuses, com a Deusa, ou com Deus.” Lembra Ribeiro “que Eliade embora não tenha negado a importância do progresso material, nega, como Einstein, que a física ou a biologia possam satisfazer as necessidades espirituais do ser humano”.

Como a irrecusável busca pelo transcendente tenha produzido tanto ódio, tantas mortes entre as diferentes concepções no campo “do profano e do sagrado” não arrisco opinar. No processo histórico onde a necessidade de fazer escolha é perene, fomos, também, rotulando e rotulados, segregando os puros dos impuros, os infiéis dos fiéis, os bons dos maus ao bel prazer.

Edificando tabus e mais tabus nossos deuses foram se tornando cruéis, vingativos, ávidos por sangue, exigindo até aquilo que nos teriam dado como bem supremo: a vida. E hoje vivemos uma espécie de Torre de Babel (exemplo atual é o ato de terror em Paris) tal o nível de insanidade que nos cerca. Enquanto ficarmos presos a uma visão de mundo de esquerda ou de direita – que para mim nada esclarecem, apenas exacerbam o clima ruim, pois perderam essência – pouco avançaremos.

Divididos em facções ideológicas mofadas este mundo está numa fase de levar as coisas ao pé da letra ou relativizar, quando algo interessa, ao sabor do vento, não importando as consequências e realidade. O contexto está tão complexo que a tese de Eliade pode ficar às avessas: “as manifestações do Sagrado em meio à morte humana.”

Membro da Academia Passo-fundense de Letras

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