O que é ser pobre?

“Pobrezinho do bebê, está chorando de fome”. “Pobre mulher, sente-se rejeitada”. “Pobre rapaz, já foi traído pelo menos três vezes”. “Pobre é azarado mesmo; trabalha duro a semana toda com um sol de rachar e final de semana chove”. “Pobre quando fica rico torna-se bobo”.

Afinal de contas o que significa ser pobre? Que há desvantagens não há dúvidas, mas, haveria alguma vantagem?

Outro dia um amigo e eu falamos sobre a possibilidade de existir uma vacina para quem é pobre. A tal vacina nos garantiria que teríamos alergias a carnes e frutos do mar caros. Nos faria ter rejeição a simples ideia de grandes viagens e bons carros. Falamos sobre o quanto alguém “pobre” luta para comprar uma casa para viver e pagar por ela a vida inteira e que depois de morrer alguém terá o trabalho de comprar um “pequeno lote” de cerca 2m x 0,80cm. Aliás, difícil de encontrar e caro. A conversa se estendeu e recorri a um velho amigo.

O velho e inseparável amigo dicionário define pobre como: Pessoa que tem carência do necessário à sobrevivência. Aqui cabem dois comentários, o primeiro é sobre o dicionário, creio que ele seja rico e segundo, quase ninguém tem dúvida sobre o que significa ser pobre.

Há um programa de televisão que tem ou tinha por tema: Quem quer ser um milionário? Ora bolas, quem fica rico ou milionário com um milhão de reais? Uma coisa é dizer que o sujeito pode investir bem seu – um milhão e tornar-se rico, outra é se achar rico com um milhão de reais. Ao mesmo tempo há pessoas em situações tão precárias que um milhão os faria sentir-se ricos; desgraçado sistema político/econômico: Gasta-se bilhões de dólares em equipamentos para procurar vida ou condições de vida pelo universo enquanto milhões morrem onde há tudo o que precisamos por falta daquilo que temos em abundância. Seria ganância, imprudência ou falta de amor?

Quando o assunto é ser pobre logo nos vêm à mente a pobreza material, a carência de coisas básicas, seja ao extremo ou às dificuldades do dia a dia; comprar a casa própria, carro, educação, saúde ou mesmo manter as contas em dia.

Vejo tantas pessoas formando filas em agências lotéricas para tentar ganhar na mega-sena, muitas dessas pessoas são idosos; me pergunto: Que sonhos têm essas pessoas? Há os que dizem que se ganhar irão ajudar outras pessoas, será? Outros falam em investir mais, ganhar mais, multiplicar. Ou seja, se tornariam ricas, mas trabalhariam mais, bem mais. Então o trabalho em si não parece ser o problema, mas sim o quanto nossa – mão de obra é por muitas vezes pouco valorizada. Quando achamos que algo é caro nos questionamos se é caro mesmo ou nós é que ganhamos pouco.

Há um grande número de pobres em ascensão. Do ônibus vai para um Fusca, daí para um Uno Mile, depois para algum carro mais confortável, talvez com direção hidráulica e condicionador de ar. Mas a ascensão não para por aí; há carros bem mais sofisticados. Há também a saída da casa dos pais ou do aluguel rumo ao primeiro apartamento ou casa. Mas a ascensão não para. Ou queremos mais tarde nos mudar para um lugar melhor ou reformar o local onde moramos. E o que dizer de viagens, de conhecer novos lugares?

É possível que alguém diga que os ricos, financeiramente ricos, também têm a sua ascensão. Não dúvidas quanto a isso, é tendência natural do ser humano sempre querer o melhor. Há no entanto o desequilíbrio, a ambição exagerada, o nunca estar contente com o que se tem: “Quem ama a prata nunca se fartará da prata, e quem ama a riqueza nunca ficará satisfeito com a sua renda…”. Eclesiastes 5:10. Bíblia.

Aí creio caber uma avaliação: Os que nunca estão contentes com o seu salário ou com sua aparência estão de fato precisando ter mais dinheiro ou ficar externamente bonitos ou – internamente saciados. Internamente saciado seria alguém que tem resiliência, alguém que na sua essência encontrou a riqueza mais exuberante; a riqueza que não pode ser roubada por nenhum tipo de ladrão; nem o de arma e nem o de “caneta na mão”; a riqueza moral, intelectual, emocional e espiritual; quem tem essas têm “fortuna”.

O ser pobre como muitos de que lá nos anos 70 ou 80 tinham refrigerante em casa só nos fins de semana e não havia – o litrão, eram dois litros no máximo. Mortadela, presunto e queijo era uma vez por mês e não em todas as casas. Cinema era cinema e pronto, não havia salas especiais e antes que alguém julgue que esse comentário é coisa do passado, é verdade, é coisa do passado, mas de um passado não tão distante. E como essas coisas eram valorizadas e “saboreadas”. Hoje quando tudo é tão difícil e ao mesmo tempo quase tudo parece tão fácil – puro paradoxo; queremos sempre o melhor. Coisas que antes pareciam luxo: telefone em casa, condicionador de ar, bom carro e etc. O progresso traz coisas boas também e precisamos usufruí-las.

Ricos e pobres têm mais em comum do que imaginam por incrível que pareça; as incertezas da vida e do futuro, a velhice, as doenças, as traições (não só as conjugais), e a morte. Aqui lembro as palavras que creio ser do cantor e compositor Cazuza quando já estava muito debilitado: “Morrer é um desperdício”. Concordo.

Então há poucos dias quando um amigo de quem não revelo o nome nem sob tortura ganhou um condicionador de ar e na primeira noite com o conforto do agradável clima levantou-se 5 vezes para ir ao banheiro e viu que o conforto do qual não se está acostumado tem o seu preço, pergunto: o que significa ser pobre? Seria a carência como disse o rico amigo dicionário? Seria uma questão de adaptação? Ou a complexa questão de “nos virar” com o que temos e somos acostumados? Nunca esqueço de uma simpática senhora que minha esposa atendeu em nosso salão há alguns anos. A senhora assistia conosco uma reportagem sobre uma mansão onde havia mais de 20 banheiros, então disse a pobre senhora em sua pobre inocência: “Ui, eu é que não queria uma casa dessas, já pensou quanto trabalho eu teria para limpar essa casa todos os dias?” Com calma e paciência perguntei àquela senhora: “A senhora acha mesmo que a dona de uma casa dessas tem a responsabilidade de fazer a sua faxina?”. Ela entendeu e concordou; quem tem uma casa dessas não repõe nem o papel higiênico.

Há os pobres de espírito e bom senso, do tipo que deixa o carrinho do supermercado no meio do estacionamento ou o leva para casa e não devolve; existe também o pobre de educação que não diz – bom dia e nem muito obrigado aos trabalhadores do comércio. Claro, os pobres de intelecto, aqueles que não suportam ouvir uma opinião diferente da sua.

Dizer que o dinheiro ajuda muito e sua falta atrapalha bastante é lógico, mas escapando um pouco das rígidas definições dos dicionários para – ricos e pobres podemos entender que provavelmente todo o financeiramente rico tem suas – pobrezas – e todo pobre tem suas riquezas. O negócio talvez seja saber em qual riqueza investir e que tipo de pobreza rejeitar.

 

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