O Rádio da dona Querida

(*) Jair Francisco Hamms

O vendedor de maravilhas. Detalhe da capa

O filho do seu Filomeno foi para a guerra. Então, toda noite, o seu Filomeno ia escutar rádio na casa de dona Querida. Colava o orelha no rádio. Mas não adiantava nada. Só tinha zumbido, assobio, descarga. Às vezes, o homenzinho lá dentro do rádio dizia que as tropas aliadas avançavam em direção da cidade de não sei o que. E que os nazistas queriam bombardear Londres. Que o governo francês prometia assinar não sei que pacto. Coitado do seu Filomeno. Ele pensava que o filho ia falar no rádio. Que o rádio ia falar o nome dele. Dele, Filomeninho, filho do seu Filomeno. Um dia, chegou notícia a respeito do Filomeninho. O seu Filomeno ficou todo feliz. Pediu pro seu Armando ler. Seu Armando não quis ler. Pediu pro Dr. Veiga. Era uma carta do Exército. O seu Filomeno tapou o rosto com as mãos grandes. E chorou, chorou.  Logo depois o seu Filomeno morreu, também.

A dona Lalinha também ia escutar rádio na casa de dona Querida, que só ela tinha rádio. O marido de dona Lalinha, sargento Alfredo, estava na guerra. O Carlinho, filho de dona Lalinha, dizia pra gente: meu pai está na guerra; o seu não está. Dava uma inveja danada. O pai do Carlinho era herói. O nosso, não. Dizia que, quando seu pai voltasse, haveria festa. Festa na cidade, festa no bairro, festa na Bocaiúva, a nossa rua. Não houve festa nenhuma. O Carlinho colocou um paninho preto na manga da camisa. E o vestido de dona Lalinha era todo preto, também.

O filho do seu Gustavo também estava na guerra. Um dia, o seu Gustavo ficou todo feliz. O José Roberto chegaria na segunda-feira. O seu Gustavo foi contar pra dona Lalinha. E foi contar pro seu Filomeno.

–       Zé Beto chega segunda, dona Lalinha.

–       Zé Beto chega segunda, seu Filomeno.

Dona Lalinha e seu Filomeno fingiram que ficaram contentes. Ficaram com uma pontinha de mágoa, isto sim. Sargento Alfredo não voltava. Filomeninho não voltava. Só o Zé Beto voltava.

Zé Beto voltou na segunda. Chegou numa cadeira de roda, um soldado alto empurrando. Zé Beto voltou sem pernas. E sem braços. Era o tronco, só. Seu Gustavo foi quem chorou mais.

Outro que voltou foi o sobrinho da dona Maria Gusmão. Todo mundo sabia que ele ia chegar, que o rádio da dona Querida deu direitinho. Disse o nome inteiro. Cabo Antônio Gusmão da Conceição, natural de Florianópolis, Santa Catarina. Não havia dúvida. Era o Tonico. Tonico voltou sem um arranhão. Mas vivia muito nervoso. Não dormia. Não tinha apetite. Sempre triste.

Um dia era Natal, o Tonico tirou o revolvinho de espoleta do filho do Dr. Veiga e atirava em todo o mundo. Todo mundo ria, que parecia que ele estava brincando. Mas o Tonico estava chorando. Depois foi para o hospital. A dona Maria Gusmão dizia que ele andava muito doente da ideia.

Jair Francisco Hamms. O vendedor de maravilhas. Florianópolis: Editora Edeme, 1973. Acervo Instituto Caros Ouvintes.

Morreu o escritor e publicitário Jair Francisco Hamms

Com pesar, informamos o falecimento do escritor e publicitário Jair Francisco Hamms na madrugada desta quarta-feira (11) no Hospital de Caridade, em Florianópolis. Ele estava internado havia 26 dias, por conta de problemas cardíacos. Jair tinha 77 anos e ocupava a cadeira 25 da Academia Catarinense de Letras. O sepultamento será às 17:30h no Cemitério Jardim da Paz. Jair Hamms era escritor, jornalista, publicitário e advogado e durante muitos anos foi professor de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Na UFSC também exerceu diversas funções administrativas, entre elas a de Chefe de Gabinete do Reitor e de Diretor de Intercâmbio e Extensão Cultural.

Apaixonado pelas palavras e profundo conhecedor dos regionalismos catarinenses, Jair Hamms foi colaborador assíduo de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira quando da elaboração do Grande Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. O seu fascínio pelas palavras inspirou algumas das mais bem-humoradas páginas do conto e da crônica catarineses, como, por exemplo, Guerra aos Sinônimos, Outrossim e o seu conto mais famoso no momento, A Sobrinha da Senhora Dodsworth, inspiração do premiado curta-metragem Alumbramentos. Jair atuou como criativo e diretor nas agências Public (extinta) e Prime. (Com informações do DC | Foto de Susi Padilha/Agência RBS)

 

Categorias: Tags: , , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

1 responder

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *