O rádio e o carnaval

E o carnaval, passou. Como sempre, sem qualquer novidade nas coberturas da mídia. Tudo igual, como nos anos anteriores.

Acompanhei particularmente o carnaval da Bahia e observei o que foi possível na mídia nacional.

As transmissões de carnaval são insuportavelmente repetitivas. A mesma pauta todos os anos, quase sempre as mesmas personagens, os mesmos entrevistados, as mesmas declarações repletas de vazio. Até os velhos chavões se repetem e a mesma disputa entre Olinda e Salvador para ver quem começa primeiro e quem termina por último.

As emissoras de rádio baianas acompanharam essa mesmice da mídia nacional. Tanto no rádio quanto na televisão, o velho chove-no-molhado, declarações idiotas para perguntas igualmente idiotas, cujas respostas podemos antecipar tal a obviedade. Outras emissoras ficaram absolutamente alienadas, ausentes do carnaval e ausentes da realidade, perdidas na sua falta de criatividade.

O carnaval tem grande importância econômica, principalmente no nordeste, porque envolve muita gente: músicos, artistas, compositores, operadores, técnicos, operários diversos, o turismo, a hotelaria, serviços e “quebra o galho” de milhares de desempregados que trabalham informalmente nesse período. Os meios de comunicação também aproveitam para um faturamento extra. Mas isso não significa uma melhor cobertura.

Diante dessa monótona mesmice carnavalesca, algumas tímidas reações isoladas, de prefeituras e associações de várias cidades históricas mineiras, colocaram em questão o carnaval e seu formato atual, que já começa a segregar uma parte significativa da população. Essas cidades resolveram voltar às antigas marchinhas, ao carnaval da família, do confete e serpentina, o carnaval das crianças, das fantasias, das bandinhas no coreto, dos que gostam da alegria sem a agressividade da folia atual. Não sei se esse retorno ao passado é uma solução. Não creio. Mas permite uma reflexão sobre esse carnaval incontrolável e devastador que ai está e fazer a mídia refletir sobre seu papel nesses seis dias de loucuras.

Como festa, o carnaval vem perdendo suas características. O que antes era do povo hoje pertence à elite privilegiada que paga fortunas por camarotes em todo percurso da festa, eliminando quase que por completo a “pipoca” do povão. As transmissões perdem sua finalidade que é, teoricamente, informar e se transformam num autêntico programa de futilidades, uma REVISTA CARAS eletrônica. É um negócio que envolve milhões de reais e é sob esse ponto de vista que precisamos avaliar o papel da mídia em geral e do rádio em particular.

Durante o período de momo, os “sem terra” fizeram várias invasões de fazendas, no Pontal do Paranapanema, em São Paulo e em Pernambuco, que chamaram “Carnaval Vermelho”; houve enfrentamento no nordeste, quatro pessoas morreram numa batalha entre proprietários de terras e invasores; o Ministro do Supremo, Gilmar Mendes acusou o governo de usar dinheiro público para financiar bandidos; a EMBRAER demitiu quatro mil empregados; o desemprego está chegando perigosamente aos 8% em todo o país; Barak Obama fez seu primeiro discurso no Congresso para tentar reverter a crise mundial; os serviços de saúde não funcionaram durante o carnaval, e o ministro admite corrupção na área de saúde; deputados e senadores não voltaram ao trabalho na quarta feira de cinzas. O mundo continuou gerando fatos, a história seguiu seu rumo, enquanto o país permaneceu estagnado, entorpecido pelo ópio do carnaval, com a cumplicidade dos meios de comunicação.

Mesmo considerando relevante a dimensão do carnaval, em Pernambuco, na Bahia, no Rio, São Paulo ou Belém, e que as emissoras de TV aproveitem esse período para mostrar toda essa grandiosidade, pelo visual, pela mobilização e importância social, em que pese as sucessivas repetições a cada ano, ainda assim temos de considerar outros milhões de pessoas que se viram privadas de informação precisa e de análises responsáveis tal a carga de assuntos carnavalescos entupindo as grades de programação.

É o papel do rádio neste contexto que precisa ser questionado. Que tipo de informação adicional o rádio pode dar em transmissões carnavalescas? Será que ficar na avenida fazendo flashes e transmissão de escolas de samba ou trios elétricos é mesmo importante para quem não está na folia? Entrevistar a rainha do carnaval que não tem o que dizer tem alguma importância? Gritar ao microfone que Ivete Sangalo levantou a praça e escondeu as pernas é tão importante assim para quem está em casa? Puxar saco de deputados, prefeitos e secretários em entrevistas inócuas não é, no mínimo, uma vergonha? Sempre, depois do carnaval fico com a sensação de que o rádio perdeu uma grande oportunidade de prestar realmente um grande serviço de utilidade pública aos ouvintes e colabora com sua parcela para a alienação intelectual do brasileiro. Pelo menos aqui na Bahia foi assim.

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