O RÁDIO NA MINHA VIDA – CRÔNICA 02

Na crônica anterior, caro ouvinte ou leitor desta crônica, falei em “sonoplastas”. Caso você não saiba, explico: sonoplasta era o profissional encarregado de criar, nos programas de rádio, os ruídos, ou seja, os sons que tinham a ver com a história irradiada, afora as vozes dos radioatores e os fundos musicais.

 

 

Já mencionei também que rádio e imaginação estão indissoluvelmente ligados, para mim. Pois bem, aí entram os sonoplastas. Na novela ou série radiofônica, um carro derrapa na esquina; um personagem cavalga seu alazão, lentamente, ou galopa, intrépido, para salvar a mocinha; soam as doze badaladas da meia-noite no relógio de pêndulo na parede da sala de uma casa mal-assombrada; ou range o imenso portão de ferro de uma fábrica abandonada, onde se encontra a heroína sequestrada pelo vilão; ou, ainda, desaba uma tempestade, com muita água caindo do céu e o som de trovões.

Isso mesmo, tudo isso que nos surpreende, assusta, apavora, e que nos situa em pleno cenário da história ouvida no rádio, é trabalho para o sonoplasta. Os ruídos que produz, somados à nossa imaginação, bastam para nos envolver com a história e vivenciar momentos inesquecíveis. Em termos de hoje, esses são os tais “efeitos especiais”, que nos habituamos a ver na televisão ou no cinema, só que restritos aos sons. E apelando apenas à nossa imaginação.

Perguntará você, que por acaso não sabe, prezado leitor ou ouvinte, como o genial artista encarregado da sonoplastia criava esses sons. Eis aqui três exemplos.

A chuva, com todos os seus ruídos – dos pingos, caindo das calhas ou tamborilando nas janelas, ao barulho ensurdecedor dos trovões – era feita com recipientes de água colocados no estúdio. Um microfone de extrema qualidade captava o barulho das gotas habilmente jogadas na água, com uma garrafa, por um habilidoso sonoplasta. Para obter trovoadas e trovões perfeitos, esses magos dos sons usavam uma folha de zinco sacudida, de um jeito habilíssimo e especial, na boca de bons microfones.

O po-co-tó, po-co-tó ou o tropel dos cavalos no galope eram conseguidos simplesmente com o impacto cadenciado da batida de cascas de coco sobre uma mesa de madeira. E saibam que o relincho desses fogosos animais era, muitas vezes, produzido simplesmente pela… boca de sonoplastas!

E os portões rangendo nada mais eram que portõezinhos de ferro que de fato havia instalados nos estúdios com essa finalidade.

Ainda menino, estive uma vez num desses estúdios, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Imagine o encanto desse menino ao lá ver o portãozinho, os tonéis com água, a folha de zinco. Ah, eu dizia a mim mesmo, pasmo, então é assim que se criam esses ruídos tão familiares! Foi quase um choque essa constatação, para mim, fã ardoroso e incondicional de todas as histórias que saíam do nosso rádio para dentro de nossos ouvidos, mentes e corações.

Rádio Nacional novela

Os fundos musicais eram adicionados aos programas pelos “operadores de som”, neste caso também denominados sonoplastas. Foi ouvindo séries radiofônicas que tive minha iniciação tanto no universo da música erudita quanto no dos filmes. Esses sonoplastas garimpavam trechos de clássicos e os encaixavam à perfeição em momentos-chave das histórias, sublinhado as narrativas com sons apropriados ao suspense, terror, paixão, tragédia, sofrimento, alegria. E o mesmo acontecia com a apropriação de músicas de filmes.

Hollywood e o rádio, aliás, sempre fizeram uma ótima parceria. Ficou famoso o episódio em que o grande diretor, Orson Welles, na transmissão radiofônica da série “Guerra dos Mundos”, mergulhou no pânico grande parte da população dos Estados Unidos, tomando por verdade o que era apenas ficção.

Eu, que fui, e continuo sendo, um grande fã de cinema, reconhecia pelo rádio muitos dos fundos musicais que ouvia nos filmes.

Sei que você deve estar pensando, ouvinte ou leitor, que acontece o mesmo nas novelas de TV, com fundos musicais que pontuam cenas e personagens. Mas parece que hoje em dia isso se transformou muito menos numa arte de sonoplastia do que no motivo para lançar intérpretes e produtos de gravadoras.

Obrigado, caro leitor ou ouvinte. Na próxima crônica continuarei a tratar do rádio na minha vida.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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