O Rádio na Minha Vida – Crônica 3

Nesta série de crônicas, caro leitor ou ouvinte, já mencionei a importância primordial da imaginação nas transmissões radiofônicas. Como seriam, pessoalmente, aqueles cujas vozes nos chegavam pelo rádio? Aquela heroína da novela e o galã que a cortejava seriam tão lindos assim como os imaginavam os ouvintes?

 

Os vilões seriam, em carne e osso, todos feios, apavorantes e assustadores como nos faziam crer suas vozes? Os que interpretavam os velhinhos e as velhinhas seriam, de fato, pessoas idosas? Em suma: os personagens que povoavam nossa imaginação corresponderiam, realmente, às imagens que iam sendo calcadas em nossas mentes de ouvintes por intermédio das vozes que nos chegavam aos ouvidos?

Sobre isso, vou lhes falar sobre minha própria experiência.

Uma das séries mais famosas do rádio brasileiro foi “Jerônimo, o herói do sertão”. Nela, o mocinho que dava nome ao seriado, acompanhado de seu fiel parceiro, o Moleque Saci – um negrinho espertíssimo, tanto corajoso como tagarela e cheio de ditos espirituosos – percorriam o sertão do Brasil defendendo os fracos e oprimidos contra poderosos e malvados fazendeiros, simbolizados, por exemplo, pelo maior vilão de todos, o Caveira.

A série, criada por Moysés Weltman, era evidentemente baseada nos filmes de faroeste norte-americanos, com tramas adaptadas à realidade brasileira. E juntava a valentia do herói a seu amor por Aninha, a mocinha inocente, casta e pura, como se dizia e bem convinha à época.

Certa feita, eu ainda bem menino, fui à Rádio Nacional do Rio. Iria ensaiar com o famoso pianista cego, Amyrton Vallim, tendo por objetivo participação em uma das apresentações de cantores-mirins, promovidas pelo ator, radioator e animador Paulo Gracindo, no Dia das Mães, em seu famosíssimo programa de auditório levado ao ar, aos domingos, naquela emissora.

Ansioso, atravessei corredores nos estúdios da PRE-8. Ao passar por uma sala, vi dois senhores, de pé ao lado de uma mesinha alta, empenhados num prosaico jogo de damas. Um deles era, jovem e um pouco gordo, todo vestido de branco; o outro, um senhor idoso, magrinho.

Ao passar perto desses tão entretidos jogadores, ouvi uma voz que reconheci imediatamente: era a voz do… “Jerônimo, o herói do sertão”. Como sempre tive bom ouvido para vozes, também reconheci a voz do outro: era o “Moleque Saci”, embora sem a voz em falsete que usava para encarnar seu personagem.

Lá estavam, pertinho de mim, Milton Rangel, o “Jerônimo”, e Cauê Filho, seu inseparável companheiro das aventuras que me chegavam pela magia do rádio.

Quero lembrar, prezado leitor ou ouvinte desta crônica, que, naquela época, eram muito pouco divulgadas as fotografias dos artistas, com a valiosa exceção da Revista do Rádio, à qual eu raramente tinha acesso.

Jerônimo Herói do Sertão

Confesso que fiquei, a um só tempo, encantado e decepcionado. Aqueles dois alegres jogadores de dama em nada se pareciam, claro, com a dupla de heróis que só existia em minha imaginação.

 

Mas, ainda assim, encantei-me com a sorte de ver de perto aqueles excelentes profissionais. E lhes garanto, ouvintes ou leitores, que, a despeito de já conhecer a imagem física dos intérpretes, isso em nada modificou as imagens fantasiosas que eu já trazia comigo por tantos anos.

Com o advento da televisão, muitos se desencantaram com seus ídolos do rádio, quando as vozes que vinham da telinha não pareciam corresponder a essas mesmas vozes, que estavam habituados a escutar pelo rádio.

Aliás, cabe lembrar que o surgimento do cinema falado levou milhares de fãs, e a própria indústria do cinema, a rejeitarem muitos ídolos, quando lindas atrizes e belos atores abriam a boca e soltavam suas vozes esganiçadas. Exatamente o contrário do que aconteceu entre o rádio e a TV.

Na próxima crônica, caros ouvintes ou leitores, continuarei tratando do rádio e da sua magia, em relação à minha vida.

 

 

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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