O rádio na minha vida – crônica 4

Os auditórios, ah, os auditórios…  O rádio se apresentava a seus ouvintes como aquele milagre sonoro em que a realidade e a ficção nos chegavam aos ouvidos, vindas de um lugar distante onde eram produzidos, local onde, sabíamos, havia estúdios, equipamentos, salas e pessoas que trabalhavam para nos enviar um mundo de sons, seja de ficção seja sobre a realidade.

Duas imagens, das veiculadas pelas revistas e jornais, eram marcantes sobre o rádio, para a maioria da população. Uma era a do estúdio de locução, dividido em dois ambientes.

Num deles ficava o chamado “operador de som”, o técnico que manipulava a aparelhagem; no outro, o locutor, aquele que, diante de um microfone, projetava sua voz “pelo éter”, como se dizia nos primórdios das transmissões. Sobre esse tipo de estúdio falarei em outra crônica.

O outro espaço não era vedado aos comuns dos mortais. Ao contrário, era o lugar em que se estabelecia a ligação pessoal entre os ouvintes e seus ídolos. Eis o famoso “auditório de rádio”.

Programa auditório rádio

Lembro-me da primeira vez em que entrei num desses auditórios. No final de um corredor com algumas portas laterais havia uma porta maior, em duas bandas. Essa porta imponente e totalmente à prova de som, com placas de vidro até a metade da altura, era a passagem para esse ambiente mágico onde o público se encontrava com seus ídolos em transmissões ao vivo, os chamados programas de auditório.

O auditório era uma grande sala semelhante a uma sala de cinema ou teatro, tendo ao fundo o palco. Além das portas de acesso ao palco, de um lado e de outro, nos auditórios maiores existiam os chamados “aquários”, que eram grandes aberturas envidraçadas que se podia ver da plateia. Eram, na verdade, estúdios de som, como o que já descrevi. Deles, os técnicos e os diretores dos programas comandavam a aparelhagem e o que acontecia no palco, à sua frente e abaixo deles. Em muitos auditórios, esse estúdio ficava na extremidade oposta ao palco.

Os auditórios em que aconteciam os programas mais famosos, de maior audiência, e transmitidos ao vivo eram grandes. E seus palcos eram grandes o bastante para que coubessem cantoras e cantores, locutores, auxiliares e os músicos. Imaginem que tinham que caber num palco também orquestras inteiras, como, por exemplo, a do maestro Chiquinho, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Como o auditório era, de fato, um grande estúdio, existiam cartazes de “silêncio”, além de grandes placas com luzes vermelhas, que se acendiam com as palavras mágicas e eletrizantes “NO AR”.  Tentem imaginar uma sala grande com muitas e muitas fileiras de poltronas. Tudo era barulho, burburinho, vozerio e expectativa. Então, numa transmissão interna, pedia-se insistentemente silêncio.

Quando a placa “no ar” se acendia, irrompiam os aplausos e gritos, logo após a orquestra atacar o prefixo do programa. Logo logo, ainda sob esse frenético barulho do auditório, entrava no palco o apresentador, abrindo o programa e saudando os ouvintes e o auditório.

Lembro-me bem de ter assistido três famosos comandantes de programas de auditório na Rádio Nacional dando início a seus programas campeões de audiência: César de Alencar, Manoel Barcelos e Paulo Gracindo.

Microfones são aparelhos que geralmente atraem os olhares e a atenção de quase todo mundo. Inclusive de quem não resiste à oportunidade de falar, que adoram um microfone. No palco desses programas de rádio havia muitos deles, captando vozes e músicas.
Nos palcos maiores, geralmente havia pelos menos dois grandes microfones – esses aparentemente misteriosos equipamentos que transformam os sons em sinais elétricos e eletrônicos de áudio.
Num dos microfones falava o apresentador; no outro, o locutor dos comerciais. Estes locutores, muitos deles, acabaram ficando quase tão famosos quanto os comandantes de programas.

Era também nesses microfones que se apresentavam os artistas, fixos ou convidados, nos programas de auditório. Praticamente sempre microfones fixos em seus pedestais, em decorrência de necessidades técnicas, mais obedecidas ainda por se tratar de transmissões ao vivo. Cabe observar, caro ouvinte ou leitor desta crônica, que, nessa época, o avanço tecnológico ainda não havia chegado nem perto das impressionantes condições de captação de áudio disponíveis hoje em dia.

Não é por acaso que muitos dos artistas de rádio na transição para a televisão viram-se em grande dificuldade. Afinal, quem estava acostumado a usar um microfone fixo, mexendo-se pouco, preocupado apenas com a emissão e projeção de sua voz, teve que adaptar-se às exigências do novo veículo. Aliás, ainda hoje se pode notar a diferença entre a entonação da voz e até a postura do corpo de gente do rádio quando se apresenta na TV.

Bem, parodiando o mencionado César de Alencar, que dizia isso ao final de seus programas, vou “pingando um ponto final” nesta crônica.

Obrigado. E até a próxima crônica sobre o rádio na minha vida.

 

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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