O Rádio na Minha Vida – crônica 5

A programação radiofônica foi, e é ainda hoje, um mundo. A capilaridade do rádio é formidável. As ondas das transmissões penetram em qualquer cantinho, não somente da Terra, como de outros corpos celestes visitados pelas sondas espaciais. Haja vista as extraordinárias transmissões que cruzam o espaço sideral, tendo como portadoras as ondas hertzianas, os sons radiofônicos.

Mas não precisamos ir tão longe para valorizar o rádio. Basta lembrar, por exemplo, que são essas mesmas ondas, em última análise radiofônicas, que nos conectam… pelo celular. Sem o rádio, as maravilhas de todas as comunicações à distância não seriam possíveis. Só para dar um pequeno exemplo: ainda hoje, em regiões arrasadas por terremotos e outras catástrofes, existem grupos de radioamadores que, possibilitando a comunicação firme – mais firme que as das imagens – ajudam a salvar vidas. E o mesmo acontece com as comunicações entre embarcações, pelo mar afora, e aviões, na imensidão dos céus.

Há um outro exemplo para demonstrar essa penetração do rádio e sua condição de veículo insubstituível. Nosso Brasil tem, como se diz, “dimensões continentais”, nas quais o som do rádio chega aos lugares mais longínquos e de difícil acesso. Com o auxílio luxuoso da tecnologia, com os satélites que circundam o planeta, as transmissões e recepções ficaram muito mais fáceis e precisas.

Mas nem sempre foi assim. Há relativamente pouco tempo, para além do telégrafo, somente as transmissões radiofônicas cobriam esse Brasilzão. E, com isso, o rádio ajudou a moldar muito da cultura brasileira.

Tomemos como exemplo a cultura musical sertaneja. O Brasil sempre foi pródigo em talentos musicais, inclusive a música dos sertões. Impregnados de histórias vividas, nossos interioranos as transformavam em melodias adoráveis e letras reveladoras do cotidiano dos brasileiros simples, denominados “caipiras”. Mas essa grande quantidade de manifestações musicais isoladas precisavam ser interligadas, para possibilitar que a troca musical entre cidades pequenas, espalhadas pelas zonas rurais, se consolidasse num gênero específico. E isto o rádio possibilitou, mesmo nos tempos em que os aparelhos eram grandões, caros e em pequena quantidade: os “radiovizinhos” e até as transmissões reproduzidas nas praças públicas, os chamados “serviços de alto-falante”, acabaram por popularizar o rádio desde muito cedo, mesmo quando a população ainda não podia comprar aparelhos próprios.

O rádio divulgou essas manifestações artísticas do interior, projetando-as pelo país afora. Via de mão dupla, o rádio influenciou e foi influenciado por essa produção espalhada pelas lonjuras, aproximando artistas, compositores e letristas, possibilitando a constituição da denominada música sertaneja.

Hoje, com o boom dessas manifestações musicais, repaginadas como “sertanejo universitário” e outras denominações, a projeção dessa música de interior, essa “alma musical sertaneja”, sobrevive e se transforma, alcançando não somente o Brasil inteiro, inclusive e especialmente os grandes centros, mas também o mundo.

Se hoje a TV alcança praticamente todos os rincões do país, levando as imagens dos grandes shows de duplas famosas, não se pode esquecer que tudo começou com o rádio, e cresceu exponencialmente quando o avanço da tecnologia trouxe os radinhos de pilha e, mais recentemente, os aparelhos tocadores de música, inclusive os próprios celulares.

Sem o rádio, não teria existido o que se denomina “integração nacional”. As radionovelas, por exemplo, influenciaram o modo de se vestir, se comportar e até mesmo de falar, pelo Brasil afora. Exatamente o que fazem, hoje, as telenovelas e outros programas da televisão.

O futebol é outro que não seria o que é, em termos nacionais, sem o concurso das transmissões esportivas, que continuam aí, firmes e fortes, mesmo sem oferecerem as imagens, como a TV. Aliás, companheiros inseparáveis de torcedores, no interior dos estádios, são os vários aparelhos que permitem ouvir as transmissões pelo rádio.

Ouso afirmar que, sem o rádio, essa “mão dupla” favorecedora das trocas culturais, o Brasil não conheceria o Brasil.
Obrigado a todos. Até a próxima crônica da série “O rádio na minha vida”.

 

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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