O rádio não foi feito para isso

Semana da Radiodifusão | 88 de Rádio no Brasil

Recentemente estive em contato com um grupo de radialistas aqui do nordeste para discutir o futuro do rádio. Se depender do que ouvi, não creio que haja qualquer futuro auspicioso. Dentre as inúmeras constatações, vou aqui enumerar algumas, de uma relação de quase 50 que fiz na ocasião. 

1 – As verbas publicitárias para o rádio mínguam a cada ano. Basicamente conseguem algum alento no mercado publicitário local, nos contatos diretos com pequenos clientes assediados por contatos desesperados ou pelos próprios comunicadores.

2 – Esses comerciais custam muito pouco. No interior a inserção de 30 segundos, que geralmente tem quase o dobro desse tempo, custa entre um e quatro reais, dependendo da audiência da rádio. Nas capitais não é muito diferente,o que prostitui o mercado e desvaloriza o veículo.

3 – As emissoras em FM que prevalecem em todas as cidades concentram seus comerciais em breaks que chegam a durar 10 minutos. Um comercial atrás do outro, geralmente muito mal feitos e que ninguém presta atenção. Para piorar, os comunicadores costumam oferecer aos ouvintes, uma hora de música sem intervalo comercial, como se o comercial fosse um problema e não uma solução.

4 – As rádios populares, que atingem uma audiência maior, mas também menos qualificada, comercializam sem qualquer pudor a execução de músicas de qualquer artista, geralmente temas de péssima qualidade, colaborando para a vulgarização do conteúdo disponível hoje na maioria das estações.

5 – A promiscuidade com o meio artístico se estende aos interesses empresariais, quando as emissoras se unem aos empresários desses artistas para realizar shows promocionais, que ajudam no orçamento dos funcionários, recheiam os bolsos dos donos da rádio e dos empresários, mas não acrescentam nada à qualidade. São caça-níqueis oportunistas que atendem uma necessidade de momento, sem qualquer repercussão ou consistência ao meio.

6 – A audiência das emissoras de rádio registrada pelas pesquisas é baixas, desproporcionais ao número de residências com rádio. A qualificação é a pior possível e a cobertura de seus ouvintes é muito demorada e o meio se torna uma incógnita para quem tenta entendê-lo.

7 – A falta de criatividade, a baixa qualidade artística, a necessidade de obter faturamento a qualquer custo para sobreviver afastaram os melhores locutores e apresentadores, obrigando os que ficam a se submeterem à mediocridade que o meio lhes impõe.

8 – A soma de todos esses problemas transformou o rádio num ambiente onde predominam a picaretagem, a falta de escrúpulos, o conluio político ou religioso, a bajulação e a promiscuidade.

9 – A concentração de rádios nas mãos de políticos, religiosos ou empresários irresponsáveis, é outro fator dramático. Eles não se importam com a qualidade, com o profissionalismo, com a sobrevivência digna de seus funcionários. São mercenários que contribuem decisivamente para a morte do rádio. Não há qualquer compromisso com a qualidade. Enquanto esse quadro não mudar, o rádio continuará sobrevivendo mal, através da chantagem política, da picaretagem publicitária, da venda de opinião, da imposição do que de pior se cria na indústria cultural, contribuindo para a desconstrução intelectual das novas gerações .

10 – A ausência de coordenador artístico, de equipes de produção, de grupos de pesquisa, de um setor promocional e publicitário de alto nível, são outros fatores que empobrecem o rádio e o estão levando à falência.

11 – A nova geração de radialistas não conhece outra realidade e aceita essas imposições como regra geral. Não tem referências do rádio do passado, não tem idéia do rádio do futuro e não consegue fazer um rádio melhor no presente. A internet, com todas as suas possibilidades parece que começa a trilhar o mesmo caminho, enfrentando os mesmos problemas, sofismando sobre possibilidades inexistentes.

12 – Os especialistas, publicitários, marqueteiros, empresários dos diversos setores e anunciantes, não acreditam no meio rádio, não entendem de que maneira podem aproveitar sua pulverização, não têm elementos sólidos para avaliar os resultados, geralmente não conseguem o mesmo retorno que a televisão ou mídia impressa oferecem e, mesmo com um custo ridículo, no rádio, para atingir um grande público é preciso um investimento inviável, exatamente por essa incapacidade de se entender as peculiaridades desse tão importante meio de comunicação.

13 – Existem as exceções que apenas confirmam a regra. Essas exceções acabam também prejudicadas, já que, a cada dia, o interesse em ouvir rádio diminui, pois é insuportável percorrer o dial diante de tanta mediocridade.

14 – Nos Estados Unidos, os meios de comunicação, inclusive o rádio, têm equipes sólidas e suficientemente grandes para atender suas necessidades. Nesse quadro, quase a metade é formada por profissionais mais experientes, acima dos 40 anos, que conseguem imprimir com os mais novos um ritmo adequado e inteligente. Aqui não. Os mais velhos foram desprezados, não se submetem mais ao que ai está e não são respeitados.

A conclusão é pessimista. Parafraseando Hélio Ribeiro, reafirmo que o rádio foi feito para alegrar, informar, dar entretenimento, educar e ajudar, tudo ao mesmo tempo e não essa porcaria que está ai. O rádio é a melhor oportunidade perdida de melhorar o mundo. Lamentavelmente chegamos a este ponto.

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Por J Pimentel

Criou-se ouvindo rádio até que em 1964 ingressou como locutor nas rádios Difusora e Cultura dos Diários e Emissoras Associados. Foi coordenador das rádios Piratininga, América, 9 de Julho e Transamérica de São Paulo. Em Salvador/BA coordenou a Rádio Cidade de Salvador. Especialista em marketing político no rádio e produtor executivo.
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1 responder
  1. Abel Araujo says:

    Concordo plenamente com seu pensamento,infelizmente o nosso querido RADIO está morto e
    enterrado numa cova bem funda.Como mudar uma coisa cheia de vicios e gente despreparada.É uma missão impossivel,quem sabe um dia…

    Forte abraço do amigo Abel

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