O rádio noutros tempos – 1

Paschoal Pery Gorrese – PY3DV

Convidado a colaborar na revista da CRAG, não tive dúvida em concordar, apoiando assim esta magnífica iniciativa, ainda que com um modesto trabalho. Resolvi escrever a história de um menino sem recursos, que por volta de 1926 resolveu ser radioamador. As peripécias por que passou, comuns naturalmente a diversos garotos do nosso país, e daquela época, devem ser lembrados para estímulo de algum contemporâneo menos animado.

Dizem que o garoto ora visado era “abelhudo” desde pequeno. Desmanchava os brinquedos, para ver como funcionavam, e aos 10 anos de idade fazia instalações elétricas. Foi nesta época que teve a possibilidade de ouvir, em visita, numa galena, e pela primeira vez, a transmissão de um concerto da Banda Municipal de Porto Alegre, feita pela Rádio Sociedade Gaúcha, que há pouco se fundara. Nosso menino ficou assombrado e ao chegar em casa quis construir um “negócio” daqueles, a começar pelos fones, pois possuía duas latinhas vazias de graxa de sapato que se pareciam muito com o supra-dito. Feita a armação-suporte, uma bobina com fios velhos, usou um pedaço de carvão em lugar do cristal de galenita, pois não possuía este último e o carvão também era preto… A esperança era tanta, que aquela coisa deveria funcionar. Mas a Física, inexorável e destituída de sentimentos, desconsertou o construtor. Mas não o venceu.

Quis entretanto o destino que nosso historiado recebesse dentro de poucos meses um dos mais significativos presentes de sua vida: um receptor a galena, legítimo, acompanhado de um par de fones. Acontece que um amigo da família que possuía este conjunto, cansado de lutar sem quase nada ouvir, resolveu doá-lo àquele garoto que tanto desejava obter um.

Considerando-se que são as impurezas do cristal que retificam, conclue-se hoje que o cristal do conjunto doado deveria ser “puríssimo”, já que nele somente havia dois pontos sensíveis, conhecidíssimos do novo proprietário, que inventara então agulhas especiais com dispositivos fixadores, etc.

Como bom radioamador, nosso garoto deveria evoluir e se “atirar” num receptor de uma válvula, mesmo que tivesse de economizar sua mesada (dois mil réis por domingo), renunciando o filme em série. E assim aconteceu.

A cidade era servida, naquele tempo, por corrente contínua e os receptores trabalhavam quase todos a bateria, das quais se necessitavam três – A, B e C – o que estava fora do alcance de uma mesada tão modesta. Construíram-se então as baterias, partindo-se de placas de acumuladores de automóvel, serradas cuidadosamente com serrinhas de trabalhos manuais, emolduradas de chumbo, oriundo de encanamentos velhos.

Quando, enfim, o construtor havia reunido com bastante sacrifício quase todo o material necessário para o seu primeiro regenerativo, houve sensível alteração em seus planos, pois a cidade passara a ser fornecida por corrente alternada, que não carregava baterias e que “inexplicavelmente” não tinha pólo fixo.

Levou algum tempo para que o menino entendesse o que era corrente alternada, e mais ainda, para que conseguisse fabricar um retificador com chumbo e alumínio em solução salina, e, naturalmente, “marchou”, não sem protesto, uma panela velha de cozinha. Não se conseguiu o óxido retificador em diversas tentativas, não tendo podido portanto o construtor levar a termo sua obra.

As válvulas daquele tempo eram triodos que tinham mais iluminação do que amplificação, e de demasiado consumo em filamento, o que esgotava as baterias de pequeno porte. As mais comuns eram as UX-201A e a UX-200A, que executavam todas as funções. O “chique” era possuir um Super-Hartley que usava uma 201-A na etapa de rádio-frequência, outra como detetora, outra como amplificadora de áudio e finalmente outra como válvula de saída. A 201-A também era usada nos transmissores iniciais. Aos poucos foram aparecendo outras válvulas com funções especializadas.

Enquanto nosso garoto lutava para vencer impecílhos materiais que o impossibilitavam de construções como a última descrita, algo providencial no comércio de rádio lhe abriu novos horizontes. A Phillips apresentara uma válvula “bi-grila” (tetrodo) econômica, que dispensava bateria B, isto é, funcionava somente com os 4,5 volts de filamento, alimentando-se o anodo com o mais A, e regenerando em circuito Schnell, desde que a bobina de placa fosse muito grande, isto é, bem maior do que a sintonia.

Entretanto o condensador de sintonia, colocado na antena, trazia impertinente desconforto, pois ao entrar o aparelho em oscilação, a simples aproximação da mão do operador para sintonizar, por efeito capacitativo, mudava a freqüência com uma “apitação” danada. Tentaram corrigir este inconveniente com painéis metálicos, prolongamentos do eixo do variável, e com o utilíssimo papel de estanho ou alumínio, que se colava por detrás dos painéis de ebonite. Foi então que nosso pequeno construtor teve uma “genial idéia”, alterando o desenho primitivo.

A idéia precisava ser posta em prática, mas faltava a válvula que custava uma fortuna na época: 40 mil réis!

A casa Rádio, de Armando Ribeiro, na rua do Rosário, era o centro dos radioamadores e lá o hoje velho Eloy já irradiava simpatia e o então jovem Peixoto já prometia o grande técnico que se tornou. Neste ambiente, o menino biografado ouvia, tímido e afastado, as conversas dos grandes. E foi aí que ousou sair de sua habitual timidez e propor a reforma citada no circuito de “bi-grila”, aprovado, em princípio, por todos os presentes, para grande alegria do “inventor”.

Era preciso agora construir, nem que fosse para outrem. Aí estava a solução.

Nosso garoto frequentava então o segundo ano ginasial , e lá no colégio havia meninos ricos. Não seria difícil convencer um deles a possuir um receptor de rádio, o que era “papa-fina” pois possibilitava ouvir o Rádio Clube do Rio de Janeiro, as transmissões do teatro Ópera de Montevidéo e as rádios Prieto, Schroeder e La Voz Del Aire, de Buenos Aires.

Conseguido o colega afortunado, compraram-se as peças essenciais, como sejam a válvula, um condensador variável, dois condensadores fixos, uma resistência de grade e o indefectível reostato que controlava a sensibilidade por maior ou menor corrente no filamento. As bobinas foram enroladas em cartolina (teia de aranha) e maquinou-se uma engenhoca para possibilitar movimento com a bobina de reação.

A expectativa era enorme, e a responsabilidade tremenda, pois nunca o garoto trabalhara com material novo e de propriedade alheia.

Iria a “coisa” funcionar? Como nas boas novelas radiofônicas, saberemos na próxima edição.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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