O RÁDIO QUE SE LÊ

Como ocorre todos os anos desde 1955, as barracas, barraquinhas e estandes voltaram, no final de semana, com seus livros à Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, e, por lá, ficam até meados do mês que vem. Por Luiz Artur Ferraretto

Talvez o mais importante evento do calendário cultural do Rio Grande do Sul, a Feira do Livro, também como sempre tem ocorrido, é assunto nas emissoras de rádio, algumas chegando a transferir parte da sua programação para a área delimitada de um lado pela rua da Praia, como todos nós, gaúchos, chamamos a Andradas das denominações oficiais.


Erico Verissimo  na PRH-2.

Do outro lado, está o rio Guaíba, que a ciência, nos últimos tempos, descobriu ser lago. Fora isto e sob pena de esquecer alguém, vale trazer à memória a lembrança, evocada pela feira, de grandes escritores a ela ligados. E ao rádio também.


Teatro Farroupilha.

Escritor em início de carreira, com dois romances – Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol – começando a despertar o interesse do público, Erico Verissimo, por exemplo, divide seu tempo, no ano de 1937, entre a Revista do Globo e a Rádio Sociedade Farroupilha. Na então PRH-2, incorpora, diariamente, o Amigo Velho, improvisando estórias para a Hora Infantil da emissora. Muitas delas vão aparecer em livros como As Aventuras do Avião Vermelho, Os Três Porquinhos Pobres ou Rosa Maria no Castelo Encantado, editados na Coleção Nanquinote. No programa, funciona, ainda, o Clube dos Três Porquinhos, que confere diplomas aos ouvintes-mirins a ele associados. O improviso, aliás, fruto do corre-corre em que Erico vive na época, transforma o escritor em uma das vítimas do Estado Novo, a ditadura imposta por Getúlio Vargas ao país no mês de novembro daquele ano. Sem tempo para nada, as estorinhas do Amigo Velho surgiam na caminhada, quase sempre às pressas, do prédio da Livraria do Globo até o da Farroupilha, separado por três ou quatro quadras. Resultado: não há roteiro escrito a ser submetido aos zelosos censores do governo e, como também não há tempo para redigi-los, Erico acaba deixando a Farroupilha.


Revista Ondas Sonoras (anos 40).

Anos depois, quando a ditadura já é a dos militares da quartelada de 1964, problemas deste tipo terá também o filho do autor de O Tempo e o Vento. Com uma crônica na Rádio Continental AM, 1.120 kHz, Luis Fernando Veríssimo vive no início dos anos 70 situação tão paradoxal como a do seu pai. Um texto sobre a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, irrita os donos do poder e é censurado:
– Talvez tenham deduzido que evolução lembrava macaco, macaco lembrava gorila, e gorila lembrava militar, e eu estava usando Darwin para algum fim subliminar – recordaria em entrevista à revista Aplauso.


Sérgio Jockymann (1958).

Já, tempos antes, nas noites de domingo da virada da década de 30 para a de 40 ao microfone da PRH-2, a voz de Josué Guimarães dá vida a personagens do Teatro Farroupilha, o principal programa do gênero, conduzido na época por Pery Borges e Estelita Bell, a chamada “dupla de ouro do rádio gaúcho”, como registra a imprensa de então. Fruto da amizade com o escritor, Estelita vai guardar, com carinho, durante anos, uma coleção completa da revista Ondas Sonoras, que traz, com freqüência, reportagens sobre ela e o marido. É o escritor de Camilo Mortagua quem cria e administra a publicação, “uma revista que trata de rádio, cinema e teatro”. Aliás, serão dele, Josué, as ilustrações de Seis Anos de Rádio, obra lançada por Pery Borges, em 1942, e relatando os primeiros passos da dramaturgia radiofônica no Rio Grande do Sul, um livro de sucesso embalado pela popularidade obtida nas sucessivas encenações do Teatro Farroupilha.


Antonio Carlos Resende (1948).

Mario Quintana, o mais importante poeta da literatura gaúcha, embora sem experiências ao microfone, também tem seu nome associado um pouco à história do veículo. Há alguns anos, na Rádio Guaíba, a voz límpida e de pronúncia perfeita do locutor Milton Ferretti Jung ressalta a relevância dos versos sensíveis do poeta, ele próprio funcionário do Correio do Povo, carro-chefe entre as publicações da casa. Quintanares, de nome emprestado do poema, faz, na época, uma ruptura quase lírica na programação da emissora.
Cabe lembrar, ainda, dos que, profissionais consagrados do rádio, enveredam pela literatura. Um exemplo é Sérgio Jockymann, texto que brilha em várias emissoras da capital nos tempos do espetáculo radiofônico e chega aos anos 80 e 90 fazendo comentários e apresentando programas jornalísticos. A carreira em contos, novelas e peças de teatro vai seguir em paralelo à sua atividade radiofônica. Já Antonio Carlos Resende começa na Farroupilha aos 18 anos em 1947, mas só escreve seu primeiro livro – Magra, mas não muito, as Pernas Sólidas, Morena – três décadas depois. No rádio, consagra-se como locutor esportivo. Na literatura, publica com regularidade, transitando, com toques de erotismo, pelas venturas e desventuras do amor.
Da relação entre a Feira do Livro e o rádio, há que registrar também dois patronos ilustres do evento: os jornalistas Ruy Carlos Ostermann (2002), principal comentarista de futebol do Sul do país, com várias obras voltadas ao esporte; e Walter Galvani (2003), apresentador de programas radiofônicos e autor de diversos livros, entre eles Nau Capitânia, uma biografia de Pedro Alvarez Cabral, que lhe rendeu o Prêmio Casa de las Américas, outorgado pelo governo de Cuba.
Em todos estes exemplos, há que convir: o rádio e a literatura, como exercícios mentais, têm mesmo algo em comum além de radialistas-escritores ou de escritores-radialistas. Possuem a capacidade de criar imagens, mexendo com o consciente e o inconsciente, seja na palavra precisa, exigência de ambas as formas de expressão, seja pelo conjunto de elementos sonoros empregados, particularidade radiofônica a ressaltar, por exemplo, enredos reais – os dos noticiários – ou ficcionais – os das velhas novelas –, tudo sempre em uma espécie de literatura/escritura sonora.


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