O RÁDIO QUE SE LÊ (2)

A história das emissoras de rádio não é contatada apenas em teses acadêmicas e/ ou em relatos biográficos. Neles, torna-se obrigatório descrever a realidade e, no caso da dita produção universitária, se adaptar aos tais parâmetros científicos e regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas. São procedimentos um tanto quanto chatos e que, por vezes, se a gente não se cuidar, tiram todo o sabor da narrativa. Já a ficção tem o limite deste e de outros mundos. Por Luiz Artur Ferraretto

E pode-se aprender, também, talvez não sobre os fatos em si, mas sobre o ambiente, o espírito de uma época. Se a isso se aplicam idealizações de ordem moral ou se faz um julgamento do ponto de vista de um observador atual, dá-se a catástrofe e a ficção soa fingida e insípida. Não é o caso de Jairo e seus Diabos, de Antônio Carlos Resende, lançado em 2001 pela Artes e Ofícios, de Porto Alegre.
Nas páginas do livro, o autor, um dos principais locutores esportivos do Rio Grande do Sul até os anos 70, narra uma trajetória comum a vários profissionais de rádio da sua geração: Da juventude no interior aos microfones das pêerres de Porto Alegre, ali estão , a infância em meio aos quadrinhos e estórias de O Globo Juvenil e do Gibi, as brigas de guri que avançam vida afora, a adolescência do beijo roubado à namoradinha e das primeiras trepadas com as prostitutas interioranas, a lascívia de algumas colegas de trabalho e a noite da capital, tudo em meio à era do espetáculo radiofônico dos auditórios, dos humorísticos e das novelas. E com Resende há que usar mesmo alguns palavrões, afinal assim fazem seus personagens e, falsa moral à parte, fazemos também todos nós.

É que o escritor transita pelos amores e desamores com doses de erotismo explícito.
No Jairo, o do título, convivem a castrante opressão dos padres maristas do colégio dos tempos de guri e o desejo. Nele e nas demais pessoas que ganham vida, palavra a palavra, sentença a sentença, página a página, aparecem traços biográficos não apenas de Resende, mas daqueles que conheceu. Arrisco alguns palpites. Por exemplo, na dicção do personagem principal, a influência de César Ladeira, o locutor símbolo da Revolução Constitucionalista de 1932 que, na Record paulista e na Mayrink Veiga carioca, mudou o conceito de programação radiofônica nos anos 30. A lembrança forte de um comício do Partido Comunista é outra. Comum a muita gente na época, aparece a experiência prévia em um serviço de alto-falantes, a voz-do-poste, o rádio com fio na pracinha central das cidades sem estações. Ah, e lá estão, passando aqui e ali, um Walter Ferreira, ator e diretor de destaque, ou um Salvador Campanella, grande maestro da poderosa orquestra da Rádio Farroupilha. Sem falar nas confeitarias e cafés de uma Porto Alegre de tempos em que não havia necessidade de escolta policial para andar à noite no centro da cidade.
Jairo e seus diabos, de Antônio Carlos Resende, conduz ao rádio dos anos 40, aos estúdios da Farroupilha, ao ambiente social de outros tempos. É o décimo livro do autor. E a respeito vale uma observação do próprio Jairo, digo Resende, feita à época do lançamento para o pessoal do Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul:
– Esse livro eu recomendo para os estudantes de rádio, para sentirem o que era o início do rádio. Eu acho que é ágil, rápido, como uma transmissão de uma partida bem-feita de futebol.
É verdade! Tanto que, no estilo do texto, confirma-se uma afirmação do autor em outra entrevista, esta para a série de fascículos Autores Gaúchos, do Instituto Estadual do Livro:
– Há vários estilos de narrador. Há o locutor que é elegante, gongórico, que usa termos difíceis, como eu usei em certa ocasião da minha vida para imitar um locutor fantástico do Rio de Janeiro, Oduvaldo Cozzi.
Depois, consegui mudar para o estilo mais rápido e mais simples que a gente procura nos livros. O que se quer é a maior simplicidade: quanto menos adjetivos usares, mais compreendido serás. Esta pode ter sido a influência que recebi do rádio.
Mais uma lição desta relação do rádio com a literatura, do real com a ficção, a comprovar distâncias menores do que aquelas supostas por alguns.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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