O repórter torcedor

Irreverente. João Ari Dutra atuou no rádio nos tempos dos programas de auditório e das grandes jornadas esportivas

Paulo Clóvis Schmidtz

Os tempos andam exaltados no futebol, com as torcidas de Figueirense e Avaí vivendo momentos diametralmente opostos no campeonato brasileiro. Isso se reflete na imprensa, nos programas de rádio, nos comentários da tevê, nas ruas e nos botecos, com posturas e depoimentos apaixonados. Nada disso, no entanto, se compara aos anos em que João Ari Dutra fazia, simultaneamente, os papéis de repórter de campo da Guarujá e de torcedor alvinegro. “A bola é nossa!”, gritava, ao microfone, num lance de lateral, para a ira do narrador Lauro Soncini, de declarada simpatia pelo Leão.

Ele pedia escanteios, impedimentos e admoestações ao adversário, recebendo em troca a vaia da massa rival. “Ainda hoje, mais de 20 anos depois, os avaianos querem o meu couro”, admite o radialista.

O lado irreverente de Dutra não aparecia apenas nos gramados. Ele improvisava nos programas de auditório, nos comerciais, na apresentação de artistas, nos concursos de miss que abrilhantava. Durante um show de Elis Regina, no Teatro Álvaro de Carvalho, ele foi empurrado para o palco por outro monstro sagrado do rádio local, Osvaldo Souza Miranda, com a missão de fazer um “reclame” da loja A Samaritana. Nervoso, recém-adaptado à profissão, se atrapalhou com os refletores e a plateia e trocou a lógica da frase. Em vez de anunciar um guarda-chuva de dez varetas e um sapatinho de cristal modelo Elizabeth Taylor, leu guarda-chuva modelo Elizabeth Taylor e um sapatinho de dez varetas…

O radialista – cujo nome derivou do gosto da mãe pelas festas juninas e da admiração do pai, músico da PM, por Ari Barroso – passou pelas rádios Anita Garibaldi, Jornal A Verdade e Guarujá, em alguns casos mais de uma vez, e pela TV Cultura, criada em 1969, onde trabalhou com Roberto Alves, Celso Pamplona, Cyro Barreto, Oscar Berendt e César Struwe. Herdou o apelido de Caju do narrador Murilo José, quando este se afastou dos microfones, e cita amigos de ofício como Fenelon Damiani, Walter Souza, Acy Cabral Teive, José Nazareno Coelho, Alfredo Alberto, Antunes Severo, Rômulo Coelho, Zininho e Ney Boto Guimarães. Chegou a ir para São Paulo, onde fez um curso de dicção, mas a saudade da Ilha foi tanta que ele voltou para nunca mais sair da cidade.

Roberto Carlos, Wanderléia, Pelé

A maior parte da carreira de João Ari se deu na Guarujá, mas foi como funcionário da Assembleia Legislativa, onde ficou 35 anos, que ele conseguiu estabilidade financeira. Quando foi obrigado a optar, já que desempenhava as duas funções, abandonou o rádio, mas nunca perdeu de vista os companheiros e as transformações do veículo. Entre outras passagens inusitadas, lembra do dente que Oscar Berendt perdeu quando fazia locução ao vivo e do roubo de um relógio durante apagão de energia em pleno noticiário da Guarujá. Quando a luz voltou, o apresentador se apressou em pedir desculpas e anunciar a hora, mas ficou sem ação quando viu a parede vazia. “É claro que o programa não teve como continuar”, conta.

Entre os feitos que destaca em sua carreira estão a “descoberta” de Cesar Souza e o lançamento da cantora Débora Blando. Ele também ajudou a fundar a rádio da Assembleia e a TV AL, apresentou cantores como Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Wanderléia, Noite Ilustrada e Agnaldo Timóteo e fez programas de sucesso como “Aqui e agora”, no centro da cidade. Também comandou um programa de música sertaneja, e concorria com a Diário da Manhã no “Desfile da juventude”, no final da tarde, com sucessos da Jovem Guarda. No esporte, fez uma entrevista com Pelé no estádio Adolpho Konder, num jogo entre Avaí e Santos, e acompanhou as jornadas do Figueirense como primeiro representante catarinense no Campeonato Nacional, em 1973.

Saudades de Floripa

Hoje, diz João Ari Dutra, o rádio é outro, incorporou novas tecnologias e a maleta de 10 quilos que levava para o estádio, junto com 45 metros de fio, foi substituída por engenhocas minúsculas e de fácil operação.

Mas saudades mesmo ele sente é da antiga Florianópolis onde se corria de rolimã e se jogava pião, toco e bolinha de gude. E onde havia sessões de cinema à tarde, bares para todos os gostos e estradas de chão para o Sambaqui, Lagoa, Campeche e Ribeirão da Ilha. “Tenho vontade de chorar”, confessa ele, criticando a falta de gestão e o desleixo que permitiu que a cidade se descaracterizasse tanto.

ND | Perfil | [email protected]

Categorias: Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *