O repórter

“Faz parte das pautas dos programas de rádio as notícias que causam tristeza; ainda assim são necessárias à emissora e à muitos ouvintes”. Palavras do radialista, Álvaro Antunes Carriel.

Os amigos reunidos na barbearia do Otávio estão ouvindo o programa de Álvaro e concordam com suas palavras; o locutor continua sua reflexão: “Se um jornal impresso, um programa de TV ou de rádio falar sobre boas músicas, por exemplo, haverá quem goste, mas serão poucos; agora, imaginem os amigos ouvintes uma notícia que declara que um marido matou a esposa e a cortou em pedaços; os leitores ou ouvintes vão demonstrar bem mais interesse do que na primeira notícia”.

Agora os clientes do Otávio se olham e dizem um ou outro: “Pior que é verdade”.

Um dos que concorda é Bruno, que trabalha no IML. Bruno não é apenas ouvinte assíduo de rádio, mas fã do repórter e radialista, Evandro Ramirez que trabalha na mesma emissora que Álvaro Antunes Carriel.

Evandro Ramirez sempre quis trabalhar em rádio, só não sabia nem tampouco imaginava que seu papel na imprensa em seus primeiros anos seria na área policial e acidentes.

Bruno ficou impressionado ao saber que o radialista, Evandro Ramirez frequentava a mesma barbearia que ele, a do Otávio. Assim como Álvaro Antunes Carriel, Evandro Ramirez passava pelo salão do Otávio a cada duas semanas. Mas para sua infelicidade nunca houve uma coincidência ou sorte de ele e Evandro se encontrarem na barbearia. Bruno admitia com tranquilidade ser fã de Evandro Ramirez e o quanto queria conhecê-lo.

O contato mais próximo entre Bruno e Evandro era apenas por telefone; isso se dava quando Bruno precisava passar informações sobre alguma tragédia. Vez por outra algumas emissoras faziam contato com o IML para obter informações. Quando Ramirez telefonava e Bruno estava de plantão sentia-se contente em falar com o admirado repórter, muito embora nessas ocasiões as notícias não eram nada boas. Bruno e Ramirez já haviam desenvolvido certa amizade naqueles contatos por telefone. Ramirez chegou a convidar Bruno para fazer uma visita à rádio. Bruno disse que, sim, que qualquer dia desses iria conhecer Ramirez e a rádio. Ramirez só não tinha ideia de o quanto Bruno ficava empolgado com o convite. Para Bruno, conhecer Ramirez, apertar sua mão, uma conversa olho no olho, seria um presente.

Otávio disse para o Bruno que Ramirez ao saber de sua admiração por seu trabalho teria grande prazer em recebê-lo na emissora. “Quem sabe além do aperto de mãos pela primeira vez pudessem tomar um café e trocar ideias sobre seus trabalhos”, disse o repórter ao barbeiro.

O barbeiro dizia para ele não perder tempo, mas Bruno era tão fã quanto tímido. Achava que incomodaria seu radialista preferido indo até seu trabalho. E assim o encontro entre o repórter e o fã foi se adiando por meses e por mais de dois anos.

Numa noite de sábado em que Bruno estava de plantão chegou um corpo ao IML. Era mais uma vítima de acidentes de trânsito. Um dos colegas, motorista do IML, disse a Bruno que a vítima havia bebido e pegado o volante pela última vez. O funcionário do IML e fã de Evandro pegou o telefone para ligar para a rádio. Mas teve a repentina lembrança; ainda não havia pegado os dados do falecido. Ao puxar a gaveta onde estava o corpo, Bruno olhou para o desconhecido rosto do cadáver. Em seguida, deixou que seus olhos seguissem do pescoço para baixo da vítima do acidente fatal. Quando seus olhos chegaram à camisa do defunto viu um crachá.  No crachá estava escrito: Rádio Capital de Florianópolis – Repórter: Evandro Ramirez.

Bruno olhou novamente para o desconhecido rosto; retornou o olhar para o conhecido nome; lembrou da voz tão familiar. Um encontro não combinado por eles.

Ele pega uma cadeira e senta-se ao lado do repórter. Acreditava que antes de ligar para a rádio Capital deveria fazer as perguntas que sempre quis fazer a Evandro Ramirez. Só que nesse encontro Bruno falou por ambos.

Bruno lembrou das palavras do colega de trabalho de Ramirez, Álvaro Antunes Carriel, que  uns dois anos antes ouvira no rádio enquanto estavam reunidos na barbearia do Otávio: “Faz parte das pautas dos programas de rádio notícias que causam tristeza, mas são necessárias à emissora e aos ouvintes”.

E lá foi Bruno cumprir sua missão e a de Ramirez; passar a necessária notícia ao repórter de plantão da rádio Capital, de que o corpo que acabara de chegar ao IML era o de Evandro Ramirez, repórter da rádio Capital.

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