O Ritual do Atraso

O horário determinado para o início de algum evento, seja artístico, social, esportivo, político ou de qualquer natureza, serve apenas como uma vaga referência para se chegar no mínimo meia hora depois.
Por Léo Saballa

Dependendo da importância do acontecimento o período de tolerância chega a se estender por várias horas, num incrível clima de normalidade. Um “atrasildo” famoso era o ex-governador Pedro Ivo Campos que não mantinha nenhuma relação de disciplina com o relógio. Certa vez, quando fui entrevistá-lo para uma reportagem especial de final de ano no jornal A Notícia, levei um chá de banco de quatro horas e meia. Como nunca deixei de cumprir uma pauta, saí do Palácio Santa Catarina depois das 23 horas.

O curioso é que ninguém reclama do atraso, que parece um ritual onde organizadores e convidados compactuam hipocritamente de uma cumplicidade silenciosa como a dizer: “eu marco o início sempre para meia-hora antes, porque sei que você vai chegar atrasado”. Os pontuais por sua vez, além da irritante espera, são obrigados a ver e ouvir o arrastar de móveis, marteladas, afinação de instrumentos musicais, colocação de quadros e tantas outras parafernálias de última hora, promovidas por organizadores atrasados, porque estes sabem que os convidados também vão chegar atrasados. Cria-se um círculo vicioso que penaliza quem chega no horário estipulado.

Ser pontual no Brasil significa esperar. Quem ousa reclamar é considerado chato. Atraso parece que virou símbolo de status. É associado a quem tem muita ocupação, muitos compromissos, a agenda cheia e pouca disponibilidade de tempo para cumpri-la integralmente. Outra constatação é que o atrasado também é um grande preguiçoso. Se ele tiver de caminhar pelo menos 50 metros, vai deixar o carro em cima do passeio, em fila dupla ou na contramão, de preferência trancando o carro de quem chegou cedo.

Dizer que o problema é cultural e que o brasileiro é assim mesmo, é uma forma míope de querer justificar esse jeitinho que condenamos e que tanto mal causou ao país ao longo da nossa história. Começar qualquer evento na hora programada é antes de tudo uma maneira de respeitar quem o prestigia. O atrasado merece perder o melhor do espetáculo. Passou da hora de acabar com esta tolerância. Quebrar esta corrente é uma tarefa de todos. Exige disciplina e acima de tudo muito respeito.


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Por Léo Saballa

Radialista, publicitário e produtor cultural. Residente em Joinville/SC, atuou em diversas emissoras de rádio em Santa Catarina. Como jornalista, foi editor de Política e de Geral no jornal A Notícia de Joinville, onde é cronista no caderno AN Cidade. Léo tem prestado assessoria de imprensa para entidades filantrópicas.
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