O sorriso do seu Olavo

A turma estava envolvida num bate-papo acalorado sobre política na barbearia do Otávio, até que chega seu Olavo, cliente antigo e com pouco mais de 70 anos de idade.

O barbeiro e os clientes amigos, Felisberto, Cláudio, dr. Araújo, seu Victor e Juvenal ouvem seu Olavo dizer bom dia e desejam o mesmo a ele e voltam a discussão sem fim.

Juvenal disse que aquela conversa não levaria a lugar nenhum; e ainda comentou:

– Parece até a Beira-Mar Continental; liga nada a lugar nenhum – Em seguida, olha para seu Olavo e pergunta como ele tem passado. Seu Olavo responde que está bem e sorri.

Juvenal diz para todos na barbearia:

– O seu Olavo está com cara de quem viu o passarinho verde, está com o sorriso tão diferente.

Felisberto completa:

– Eu não sou de observar homem, mas que tá diferente, tá

Seu Victor não resiste e diz:

– O Felisberto, tu podes até não observar ou prestar atenção a muitos homens, mas outro dia tu bem que reconheceu um famoso ator só pelos lábios dele. É ou não é pessoal?

O barbeiro responde:

– Sim! O Val Kilmer.

A turma dá gargalhadas e diz que até o barbeiro é bom observador. O seu Victor, com seus quase 84 anos diz ao seu Olavo?

– Pois o amigo Olavo vai me desculpar, mas que o teu sorriso está diferente, está. O que aconteceu?

Seu Olavo diz:

– Pois a verdade é que estou mesmo com um novo sorriso e vou contar pra vocês. No último sábado fomos a praia de Palmas. Eu, minha mulher, dois filhos, um genro e uma nora e quatro netos. O clima estava convidativo e fui dar um mergulho. Nadei e mergulhei várias vezes. Aí resolvi testar meus pulmões; afinal de contas, estou com 73 anos e me sinto um guri. Me preparei e mergulhei, mas o problema é que não havia avisado minha família que faria um tipo de teste; quero dizer, quanto tempo aguentaria submerso. Mergulhei e fiquei e fiquei… Só quando voltei, quero dizer, quando coloquei a cabeça pra fora da água é que vi minha família toda assustada. Minha mulher, meu filho, minha filha, meu genro, minha nora e meus quatro netos com cara de desespero. Devo ter ficado uns três minutos embaixo da água. Só então fui saber que eles estavam desesperados, que achavam que eu tinha morrido afogado. Então saí da água e sorri pra eles. Para minha surpresa eles ficaram ainda mais assustados; e eu sem entender o porquê de tanta surpresa. Passei as mãos nos meus poucos cabelos e continuei sorrindo. Foi então que minha mulher me disse:

– Olavo, o que aconteceu? Onde estão os teus dentes, quero dizer, a tua dentadura?

– Levei a mão à boca e não senti meus dentes, quero dizer, a minha dentadura. Aí começou o problema. Foi um tal de um mergulha aqui, outro ali, e por todos os lugares, mas não achamos minha dentadura. Por fim, um salva vidas ou guarda vidas, sei lá, vinha passando e perguntou se estava tudo bem. O rapaz foi muito gentil, me acalmou e disse que isso é muito comum; pessoas perderem a prótese ou dentadura durante mergulhos. Ele até nos levou ao local onde recolhem as que encontram a beira do mar; havia uma bacia cheia delas. Eu perguntei se poderia provar algumas, se haveria problema em fazer um teste; ele disse que não haveria nenhum problema, mas que a minha provavelmente não estaria ali, pois acabara de perde-lá. Insisti e ele concordou. Minha família não gostou da ideia. Chegaram ao ponto de dizer que aquilo era nojento. Provei uma, duas, três, e não é que na quarta tentativa uma serviu direitinho. Perguntei ao salva vidas se poderia levar a que havia servido. O herói dos mares virou o rosto e perguntou se eu estava falando sério. Quando disse que sim ele concordou; minha família protestou, mas resolvi ficar com ela. Que tal, não ficou boa? Acho que ficou melhor do que a que perdi.

Os amigos sentiram enjoo, nojo e até acharam aquilo loucura, mas seu Olavo estava tão contente e tão sorridente que os amigos se olharam e disseram um a um que havia ficado bom.

Quando o seu Olavo finalmente se sentou na cadeira do barbeiro para cortar seus cabelos seu sorriso ia de orelha a orelha. O barbeiro ficou pensando que uma outra pessoa já teve aquele sorriso. Chegou a pensar que talvez quem perdeu aquela dentadura poderia estar sentindo muito a sua falta, mas aproveitar aquele sorriso e daquela maneira, só mesmo o seu Olavo.

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