O sucesso continua e os desdobramentos também

Outro grande show nos anos 1980 foi o “Antena 1 Rock Concert”, no Estádio Orlando Scarpelli, quando participamos ao lado dos maiores roqueiros do Brasil, numa noite que foi um arraso.

Silvio, Marcio, Miro, João Carlos, Jorge e Aldo no estúdio, em Curitiba

Silvio, Marcio, Miro, João Carlos, Jorge e Aldo no estúdio, em Curitiba

Logo após o Capuchon se apresentar, entrou o Made In Brazil, acompanhado por um temporal de raios e trovões, o que me fez lembrar do festival do Paraná.

Mas eles nem deram bola pra tempestade, e continuaram seu show no palco armado no meio do campo. Outros se recusaram a fazer seu show até passar a chuva.

O mais gostoso era que as bandas, enquanto aguardavam sua vez, se misturavam com o público, todos deitados na grama verde do estádio, batendo animados papos e trocando informações importantes.

Na continuidade dos ensaios do Capuchon 80, o Aldo começou a compor cada vez mais e melhor e passou a substituir as demais canções pelas suas, o que desanimou Carlão e Ney, que deixaram o grupo.

Já não havia espaço para músicas leves ou poéticas, como as do Carlão, que voltou para sua carreira de escritor. Quanto ao Ney, continuou a cumprir seu serviço militar e desenvolver seu sax e sua flauta, se tornando um dos maiores da cidade em sua função.

Agora, quando eu saia da Caixa Econômica e subia o morro do Aldo para os ensaios, já encontrava as músicas arranjadas, muitas vezes numa tonalidade difícil para mim, e que não eram alteradas para meu tom, pois João e Silvio chegavam ao local duas ou três horas antes e Aldo aproveitava para sugerir suas idéias.

Mas o Aldo também tinhas idéias maravilhosas de marketing e promoções: bolou um vale-brindes chamado “Aderente ao Carinho”, que nada mais era do que a venda antecipada de compactos simples (ainda era tempo de vinil) com suas composições “Brilho” e “Desculpe-me, Baby”, uma de cada lado. Quem comprava o vale brindes depois o trocaria por um compacto simples.

Depois de pesquisas, descobrimos uma gravadora boa e barata em Curitiba, onde o Olho D’Água gravou seu compacto duplo “Catarina”, produzido por Jorge Athayde, baixista deste e do Grupo de Risco. Convidamos o Jorge para a produção do nosso disco, o que aceitou prontamente. Fizemos o trabalho num final de semana e voltamos com a matriz para Floripa.

Antes de mandá-la para São Paulo para as reproduções, tivemos a notícia que o vinil era raro, que só havia matéria prima para os grandes da MPB que lançavam seus discos no final do ano (Roberto Carlos, Simone, RPM e Xuxa) e que outros famosos adiaram também seu lançamento a espera do CD. A nova mídia sairia três a quatro vezes mais cara, o que nos impediu de dar continuidade ao projeto.

Porém, como cada um de nós vendera antecipadamente os discos para amigos, precisavam ser ressarcidos, mas a maior parte da grana havia sido investida no estúdio.

Combinamos que, ou aguardaríamos a redução dos custos do CD ou cada um arcaria com as obrigações assumidas. Os meus foram todos vendidos para colegas da CEF, que entenderam a situação e perdoaram minha dívida. Mesmo assim, continuei aguardando os acontecimentos para ressarci-los financeiramente, o que mais tarde fiz com alguns menos compreensivos.

Semanas depois, cheguei ao ensaio e me deparei com mais uma música fora do meu tom e o Aldo se habilitou a cantá-la; ora, se eu era apenas o cantor da banda, sem tocar nenhum instrumento, e agora também já não podia cantar, o que ficaria fazendo naquela banda? Depois de Carlão e Ney, Kachias também saíra inconformado com a mudança de estilo. Pedi minha demissão.

Parece que não acreditaram, pois no próximo ensaio, os quatro restantes foram me buscar em casa para ensaiar e reiterei que, ou voltávamos a trabalhar na filosofia Capuchon (músicas de todos, sem arranjos prévios, respeito as tonalidades), ou eu estava fora. Ante o silêncio de Miro, João e Sílvio, mostrando aceitarem a nova forma de trabalhar sob liderança do Aldo, saí definitivamente. E saí acreditando que levariam o trabalho pra frente, torcendo muito por eles.

Semanas depois, soube que já não se encontravam mais e que a coisa acabou por ali. Mais uma vez, o Capuchon chegou perto, muito perto, do sucesso e o deixou escapar entre os dedos.

Naturalmente, cada um de nós tem sua concepção sobre os porquês das coisas sempre acabarem assim, e eu tenho as minhas: o planejamento inicial sempre era corrompido por novas idéias momentâneas e nos desviávamos do curso pré estabelecido. Começamos com uma banda pluralista, com a maioria de compositores participando com suas canções, o que diversificava o repertório tornando-o eclético, angariando admiradores de todas as faixas etárias, classes sociais e gostos musicais.

Não nos importava a moda do momento, nós fazíamos a moda, e fomos induzidos à mídia imediatista e insípida.

E havíamos nos tornado uma banda igual a tantas outras no Brasil, já sem aquele carisma mostrado no show da Blitz e dos eventos capitaneados por Cabrera.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *