O suicídio. A notícia que fica em silêncio.

Uma cena: “Eu não aguento mais, vou me matar”. Alguém próximo considera a frase pura bobagem, até porque a pessoa já disse isso outras vezes.

selo-cadeira-do-barbeiroAssim como muitos dizem isso num momento de raiva ou desgosto com a vida, não é incomum sabermos de casos em que familiares admitiram após a pessoa ser encontrada morta, “Meu Deus, nunca pensei que fosse capaz. Vivia dizendo, mas achávamos que era da boca pra fora”.

Iniciei esse assunto por entender a importância dele. Já o havia abordado em minhas colunas de jornal e brevemente em meus programas de rádio. Parece assunto indigesto? A OMS – Organização Mundial da Saúde e outros estudiosos do tema o consideram – Uma epidemia silenciosa. Creio que meus amigos leitores (as) já conheceram alguém que cometeu suicídio ou um parente de alguém. Conheci alguns. O último foi um médico. Ótimo médico, além do profissionalismo a atenção com os pacientes, um ser humano maravilhoso.

Em minha última consulta com ele, uns 3 meses antes do ato, ele disse que já havia realizado todos os exames da sua parte, que não nos veríamos mais e escreveu praticamente uma carta para um profissional de outra área que daria continuidade ao meu tratamento. Quem diria?

Os dados apontados no G1 em setembro de 2014 nos mostram que o Brasil é o 8º país com maior número de suicídios. A Índia está à frente.

No mundo a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio. São 804 mil pessoas por ano.

Estima-se que no Brasil em 2012, 11.821 tiraram a própria vida. Desses números, 9198 eram homens e 2623 mulheres.

Especialistas apontam que 90% dos que cometem suicídio já tinham problemas psiquiátricos, e os que não se tratam corretamente acabam usando drogas ou álcool para aliviar o sofrimento.

Estudiosos dizem que praticamente nada é feito na maioria dos países, apenas 28 têm algum tipo de ajuda nessa área.

Não podemos esquecer o CVV – Centro de Valorização da Vida, que há mais de 50 anos fornece de maneira voluntária e benéfica ajuda a pessoas que estão em desespero, inclusive pensando em suicídio. Me pergunto se nós como família e amigos não poderíamos estar mais atentos aos sinais.

Ainda há a questão religiosa. Existem até hoje os que pensam que quem se mata não terá no futuro uma benção de Deus. Como se o suicida fosse um assassino de si mesmo, sem direito a perdão. Só mesmo Deus para entender o que se passa pela cabeça de alguém que chega a esse ponto.

A imprensa de certa maneira e com a melhor das intenções não fala muito do assunto, salvo quando envolve alguém famoso como o ator Robin Williams, que sofria de depressão, fora internado várias vezes e acabou se enforcando com um cinto.

Tenho a visão de que se nós da imprensa tocarmos mais no assunto ele começará a deixar de ser um tabu. Entende-se que a família já está sofrendo, mas não são divulgados crimes horríveis? Ah, claro, existe a preocupação de que se casos de suicídios forem noticiados pode levar outras pessoas que já estão pensando no assunto a cometer suicídio, como se a notícia fosse encorajar um propenso suicida.

A psicóloga Karen Scavacini cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção ao Suicídio diz que as pessoas que estão prestes a cometer suicídio costumam dar alguns sinais.

Falar explicitamente que quer morrer. Mas também costumam dar sinais indiretos. Ela passa a despedir-se de parentes e amigos, ter sentimentos de culpa, irritabilidade, chorar com frequência, colocar suas coisas em ordem. Até mesmo, lembra à psicóloga, a pessoa que sofre de uma depressão grave parece ter uma melhora de uma hora para outra, “uma falsa calmaria”, ou seja, ela já se decidiu pelo suicídio.

Enquanto me preparava para escrever esta coluna conversei com várias pessoas sobre o assunto e é surpreendente quantas já pensaram nisso em algum momento da vida.

Se tiver um amigo ou familiar que está com depressão e, sobretudo já falou em morrer, fique atento, não pense que é “da boca para fora”, que só quer chamar a atenção. Até pode ser, mas e se não for? Lembre-se, em todo o mundo uma pessoa a cada 40 segundos tira a própria vida. Não é para estragar seu dia após essa leitura, mas sim abrir nossos olhos e sermos mais atentos e solidários com os que estão sofrendo e talvez prestes a tomar uma decisão, a que será a última de sua vida e deixará dores e dúvidas nos que ficarem. Uma triste notícia que fica só entre a família e amigos mais achegados. Quando se trata de sentimentos e de saúde emocional ainda temos muito que aprender e já podemos começar.

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