O tamanho da obra de Mandela

Um olhar mais demorado sobre a realidade atual do continente africano ajuda a visualizar melhor o tamanho da obra de Nelson Mandela e entender por que ele foi tão homenageado. Quanto mais conhecemos a realidade africana maior será o respeito e a admiração por ele. Sociólogos, historiadores, antropólogos, políticos se manifestaram com intensidade nos últimos dias e nunca houve antes tanta unanimidade sobre a ação de um homem público em favor de sua Nação.

Com 820 milhões de habitantes o Continente africano tem dois terços dos portadores de HIV do mundo, seus governantes estão entre mais corruptos e cruéis, a fome atinge 30 dos 53 países reconhecidos pela União Africana e ONU. As populações de 44 países estão submetidas a tiranias e regimes que sistematicamente violam direitos humanos e, como decorrência, a liberdade está totalmente condicionada.

Nesse quadro dramático, não causa estranheza que o segundo Relatório Mundial sobre Felicidade, organizado pela Universidade americana de Columbia por solicitação da ONU, coloque 14 países africanos entre os 20 mais tristes do Planeta. Para definir se o povo de um país é triste ou feliz “como critério de avaliação são tidos em contas a capacidade econômica, a família, a educação, a saúde, a esperança de vida, a liberdade de escolha, as relações com a comunidade e com as instituições públicas”.

Repetimos: nos 20 países tidos como mais tristes (os outros seis são da Ásia) todos os direitos humanos são sistematicamente violados. “Os massacres de populações, torturas, censura da imprensa, controle férreo do poder pelos militares são rotineiros. A sua banalização é tal que estes atos deixaram de ser noticia na imprensa internacional”. Em 1994, em 100 dias, Ruanda consumou um dos maiores genocídios da humanidade: os hutus assassinaram mais de 800 mil tutsis a machado e catana. Os hutus chacinaram 10 mil pessoas por dia, ou algo como 10 pessoas por minuto.

O moçambicano Mia Couto diz que tal violência toda foi possível “porque se tinha trabalhado para provar, uma vez mais, que os outros não eram pessoas humanas. O termo escolhido pela propaganda hutu para falar dos tutsis era cockroaches, baratas. A matança estava assim isenta de qualquer objeção moral, estava-se matando insetos e não pessoas humanas, compatriotas falando a mesma língua e vivendo a mesma cultura”.

Como vicejou Mandela num quadro cultural dessa natureza? Não há resposta fácil. Mandela fez diferente. Foi democrata, republicano, estadista. Não cultivou o ódio e provou com muita dor que é possível respeitar e conviver com as diferenças. Mandela pensou num processo e quebrou o paradigma que moveu os hutus (negro assassinando negro), movia o regime racial branco da África do Sul (branco assassinando negro) que moveu Robert Mugabe do Zimbábue (negro assassinando negro) que bradava: “o que odiamos nos brancos não é a sua pele, mas o demônio que emana deles”.

Um detalhe: a África do Sul é dona de um quinto de todo PIB do Continente porque graças a Mandela quebrou paradigma do coitadismo (que assola a América do Sul e impregna o discurso de certa “esquerda”) e foi à luta. Quem mandou às favas a tendência de culpar os outros por suas falhas tem saído do buraco e ali no continente africano os exemplos são riquíssimos para comprovar a assertiva.

Enfim, entender e divulgar Mandela pode ajudar mais do que imaginamos…

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