O tio que se foi

Não consigo entender os amigos e conhecidos que não cultivam qualquer apreço pelos tios, esta instituição que foi, para muitos de minha geração, o que de mais confortante existia para além da família, como comprovam muitas imagens felizes pregadas nas paredes da memória. Era nesse ambiente parental que se vivia a plenitude da liberdade nem sempre gozada em casa, porque ali havia espaço para a fantasia, os jogos, as pequenas aventuras e o companheirismo dos primos da mesma idade, dos tios e tias que eram os segundos pais, com seu afeto e a certeza que transmitiam de que tudo ficaria bem, de que o mundo podia ser mais que o vale de lágrimas de que fala a oração.

Falo isso porque perdi, na semana passada, um desses tios que era a bondade em pessoa, a integridade na acepção mais pura da palavra, o caráter acima de qualquer outro atributo que se possa nomear. Não era ele o tio que mais visitava, mas não me sai da mente a figura desse homem que labutou a vida inteira para sustentar uma prole numerosa e que passou incólume pelas tentações que dobram a maioria dos mortais.

Ele perdeu dois filhos pequenos para uma doença que as vacinas ainda não haviam conseguido debelar, mas isso fortaleceu a família e a luta por um pedaço de terra, por alguns hectares para cultivar, por um porto seguro na velhice, quando todos estivessem encaminhados na vida.

Esse homem trabalhou até o esgotamento de suas forças, extraindo da terra os grãos milagrosos que redundam em alimentos, em manhãs de geada ou temporal, em tardes de vento e enxurradas, em noites de mormaço ou de frio inclemente.

Lembro dos 180 pés de nozes que se estendiam pela propriedade, a partir do quintal – ele era o único contemplado com esse privilégio na região. Lembro do queijo e do melado que poucos conseguiam produzir tão bem. E, sobretudo, do sujeito de pouco estudo que tinha uma ideologia firme, uma coerência elogiável, convicções e princípios dos quais nunca se afastou.

Havia prometido que esse era o tio a cujo velório não faltaria, porque o considerava modelar, íntegro, exemplar. Rabisco estas linhas frustrado por não ter viajado, porque a notícia chegou tarde e o regime de semi-escravidão que nos impomos na rotina profissional tolhe a concretização do ato trivial que é ir ao enterro de um parente estimado.

Fiquei em dívida com este homem de grande coração, que merecia bem mais do que uma crônica pobre. Contudo, onde estiver, quero que saiba que, na sua imperfeição, ela foi escrita com lágrimas nos olhos.

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