O tiro no pé do Diário Catarinense

Tenho por hábito, todas as manhãs, dar uma passada de olhos nos portais de notícias espalhados pela internet. Dentre as minhas fontes, até o final de maio estava o Diário Catarinense, de Florianópolis. Uso o tempo verbal no passado porque deixei de ser consumidor desse veículo ao ser avisado que havia excedido minha cota mensal de acessos (!). Em outras palavras, eu tinha lido demais, pelo menos aos olhos da rede gaúcha.

O Diário Catarinense, assim como alguns outros meios de comunicação nacionais, passou a usar o modelo chamado “paywall”, importado – tanto a expressão quanto o conceito – do mercado editorial estrangeiro. Basicamente, o leitor tem direito a um determinado número de acessos por mês, devendo pagar o que exceder desse limite determinado pelas empresas.

Uma ideia antipática, implementada de forma ainda mais equivocada. Primeiro, vai contra toda a liberdade pregada na internet e com a qual o público já está habituado; depois, simplesmente copia um modelo aplicado lá fora sem considerar a realidade local; além disso, passa a cobrar pelo conteúdo que era gratuito sem acrescentar nada a ele; e, por fim, não é nem de longe a solução que vai salvar as empresas jornalísticas da bancarrota.

Os defensores do modelo enchem a boca para dizer que “o New York Times e o Wall Street Journal já aplicam o paywall há tempos”, como se essa informação por si só garantisse o sucesso da empreitada por aqui. Não bastasse a falta de modéstia do periódico manezinho nessa comparação, os próprios criadores da ideia alertam sobre os perigos da simples cópia: “é preciso ir devagar, pois nem todos têm a força e o prestígio de um NYT ou do próprio WSJ”, disse Raju Narisetti, ex-editor executivo do WSJ, no ano passado. Parece óbvio pra você, leitor? Para os executivos do Diário Catarinense, nem tanto.

Em janeiro, participei de uma reunião do “conselho de internautas” do DC, onde a ideia foi apresentada e discutida. Na ocasião, argumentei que não me opunha a pagar por acesso, desde que me fosse oferecido conteúdo diferenciado e de qualidade. Sugeri ainda que o modelo de cobrança fosse qualitativo e não quantitativo. Que cobrassem por material exclusivo, reportagens especiais e conteúdo diferenciado, mas não pelas notícias comezinhas – e, em geral, carregadas de incorreções – que são publicadas por dezenas de sites até mesmo antes do Diário Catarinense.

Fui além, indicando ainda um modelo misto, na impossibilidade de aceitarem o pagamento qualitativo. Nessa ideia, as matérias seriam classificadas com um determinado “peso” que ajudaria a determinar quando o leitor atingisse seu limite mensal. Assim, uma reportagem especial e investigativa, por exemplo, teria mais “peso” do que uma notinha corriqueira sobre um gato retirado de uma árvore. Do jeito que foi implementado, as duas matérias tem o mesmo valor. Parece justo?

Cobrando por qualidade e conteúdo diferenciado, o jornal derrubaria até mesmo a inerente antipatia da cobrança, argumentando que possui material que só ele pode oferecer. No entanto, ao invés de primeiro produzir conteúdo que justifique o pagamento para depois cobrar o acesso, a empresa fez o contrário. Ou seja, privilegiou a arrecadação para depois pensar em ofertar qualidade. E não adianta o discurso de que “agora teremos condição de melhorar nosso conteúdo”. Não é assim que funciona. O público precisa sentir a melhora, precisa ser convencido de que o jornal é único e insubstituível. Quando chegar a esse ponto, o leitor estará pronto para pagar pelo acesso, não antes. E nem porque os diretores do jornal assim determinaram, unilateralmente.

Como não encontrei nada que justificasse o pagamento, mesmo que irrisório, tomei minha decisão: tirei o Diário Catarinense de minhas leituras diárias. Não quero mais correr o risco de receber uma “bronca” porque estou lendo demais. Existem dezenas – ou centenas – de fontes de informação que me suprem adequadamente e de graça. Talvez um dia o pessoal do Diário me convença de que possui conteúdo relevante para me atrair como cliente. Até lá, não terão o meu acesso, nem mesmo para a quantidade liberada.

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