O toque de mídias

Dos cinco sentidos humanos, a mídia afeta basicamente dois: a visão e a audição. Esses também são os principais sentidos visados pelos especialistas em marketing político, com alguma concessão para os demais, como: o tato, no “corpo a corpo” das caminhadas públicas; o olfato e o paladar, nos proverbiais pastéis de botecos e, eventualmente, buchadas de bode. Mas é nas imagens, estáticas ou animadas – embora nem sempre… -, e nos sons, que as campanhas eleitorais apostam suas principais fichas, tentando encobrir o pode cheirar mal. Assim distraídos, só percebamos que o prato era indigesto depois que ele já foi, goela abaixo.

Em meio a tantos sorrisos e “photoshops”, até que ponto o que vemos é real? Senão, por que elegemos ou reelegemos indivíduos de conduta pública reprovável, suspeitos de ligação com esquemas de corrupção, contravenção, crime organizado? Por que insistimos em escolher raposas para tomar conta do galinheiro? Será que, de fato, temos os políticos que merecemos? Será que eles são espelhos de nós mesmos? Por que aceitamos isso de forma tão passiva ou crédula?

Não é de hoje, o marketing é um instrumento poderoso e a importância da mídia é tão grande que todas as grandes potências mundiais, mesmo as mais “democráticas” exercem ou já exerceram censura sobre ela, ou então, usaram-na de forma intensa, direcionada, doutrinadora ou alienadora. Ela é tão poderosa que às vezes a ética fica em último plano.

Lembro de uma professora que, cuidadosa ao alertar sobre o poder da mensagem e os aspectos éticos envolvidos em seu uso, para alunos de um curso de propaganda e marketing, ouviu um deles “pragmaticamente” afirmar que, uma vez no mercado, sua única preocupação seria a de vender o produto de seu cliente.

Assim, a mídia é tanto uma ferramenta como uma arma, dependendo de quem a usa. Ela tanto pode auxiliar na construção de um mundo melhor, como pode deixá-lo bem próximo do que escritores como Aldous Huxley e George Orwell profetizaram ou, numa leitura mais recentee, numa Matrix.

O poder de convencimento de uma mensagem midiática pode ser tão intenso, que algumas pessoas conhecem apenas a história contada pelos épicos hollywoodianos, aceitando adaptações romanceadas como verídicas.

Diretores, atores famosos e roteiristas têm credibilidade maior, aos olhos e ouvidos de muitos, do que pesquisadores e historiadores dedicados, comprometidos com a busca de fatos, que nem sempre são agradáveis para o currículo dos pesquisados. Alguns preferem mitos e lendas, a assumirem compromissos pessoais com a vida, própria ou dos outros.

Por conta disso, não é absurdo reputar aos profissionais de mídia uma importância tão grande como a que se dá aos operadores do Direito ou da Medicina, entre outras não menos importantes atividades. Sua atuação pode ser para o bem ou para o mal, dependendo das intenções de quem os contrata, e das propensões de quem as exerce.

Mas, um mundo melhor, mais justo e democrático, nem sempre é um mundo lucrativo, para algumas pessoas.

Não dizem que um mundo em crise é um campo de oportunidades?

Pois é… Já viram como as crises se multiplicam e às vezes surgem do nada?

A posse da informação é fundamental e os poderosos lutam com unhas e dentes para dominá-la, como forma de manter o controle. Por isso existe a informação oficial, o boato e a investigação jornalística: três faces de uma mesma moeda, da qual nem sempre se vê todas.

O domínio da informação é tão importante que, não é à toa, que grande parte dos políticos são detentores de meios de comunicação, alguns deles hegemônicos em suas cidades e estados, transformando-os praticamente numa imprensa oficial. E por mais que as legislações inibam seu uso eleitoreiro, são incontáveis os recursos que podem ser utilizados para burlar essas restrições, bastando lembrar que as leis são feitas também por quem detêm esse poder midiático de massa.

Não se trata de acreditar em teorias de conspiração ou na utopia de uma mídia livre, comprometida com a verdade dos fatos e defensora incondicional de uma sociedade justa e equânime. Mas é fundamental que a ética profissional esteja acima dos interesses pessoais e grupais, que os candidatos não sejam mostrados pelas palavras e mãos de terceiros, maquiados de múltiplas formas, transformados em ídolos “pop” em vez de revelados como manipuladores, que são, ou meros fantoches, que serão.

A mídia pode informar ou deformar, esclarecer ou iludir, estar em cima do fato ou “passar batida”. Ninguém duvida de seu poder transformador, revolucionário, nem de seu potencial doutrinador ou alienante. Com todos os seus meios ela têm um indescritível poder indutor ou inibidor. Ela passa facilmente de heroína à vilã, lembrando que heroína também dopa.

Mas, como toda ferramenta, ela é, em si, inócua: o uso que se faz dela é que a torna um instrumento construtivo ou destrutivo, de coisas, ideais e vidas. Às vezes ela é capaz de provocar destruição maior e mais duradoura do que uma guerra. Ela pode fazer com que consumamos o que é nocivo, descartemos o que é benéfico, desconfiemos de honestos, acreditemos piamente em corruptos. Ela, às vezes, é contraditória, mas é melhor assim do que ser ambígua ou, pior, tendenciosa ou mercenária, oferecendo seus serviços a quem der mais.

Mas, voltando a falar de ferramentas e da ética do operário que as emprega, também é preciso observar quem são os que se servem delas em tempos de eleições: os candidatos.
Quem são eles? Porque buscaram a política? Qual sua história? Quem os cerca e assessora? O que fazem e o que dizem? São pessoas capazes de se comprometer com o povo ou meros representantes de clãs ou “lobbies”?

Uma antiga publicidade jornalística dizia que é possível mentir dizendo apenas a verdade…

Onde está a real visão de nação, sociedade e humanidade nas práticas da maioria dos políticos? Como ter certeza se o discurso ou promessa diante de câmeras e microfones é, de fato, cumprido entre quatro paredes? O quê se esconde na alma, nas roupas íntimas, nas meias, malas ou lá, onde o sol não bate, deles?

O mau uso da mídia, aliado ao mau caráter de certos indivíduos, faz com que nem tudo seja o que parece: propaganda enganosa que, infelizmente, ainda não encontrou um código de defesa do eleitor eficiente. Afinal, mesmo que o voto os tire, eles nunca saem de cena, indicados para cargos de confiança. Confiança de quem?

Esse mundo de fantasia quase sempre se transforma em pesadelo, para nós, pois raramente o melhor ator é um ser humano digno. Ser bom ator, nesse caso, só mostra que ele poderá facilmente interpretar novos papéis, ao sabor das oportunidades; pronto a se “vender” pela melhor oferta; impostor, imposto por uma mentira bem contada, semente de novos impostos e imposturas.

Para não se deixar iludir pelas aparências que a mídia mal empregada pode gerar é preciso aguçar todos os sentidos, inclusive o sexto!

Aí, entra a nossa capacidade de discernir… Mas quantas pessoas têm a sua disposição informação e formação suficientes para tal processo racional?

Para alguns, infelizmente, ainda basta ver para crer. E mesmo depois de tantos séculos, ainda nos convencem com seus toques de mídias, vidros coloridos e quinquilharias, em troca do “ouro” de nossas vidas e esperanças.
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