Óculos

Para meu amigo Ari

Eles estão aí, à mão, dóceis, humildes, com a humildade das coisas simples mas indispensáveis. São os nossos óculos.
Desde priscas eras, provavelmente desde quando algum pedaço de pedra lascada, de vidro, ou uma superfície transparente qualquer foi atravessada pelo olhar do animal humano, ficamos dependentes dessa intermediação para ver o mundo.

Na certa, esses óculos primitivos, e as “cangalhas” rudimentares que foram sendo construídas depois, não eram as maravilhas científicas na utilização das leis da ótica que são hoje. Porém, vieram para ficar, e mudaram para sempre nossa percepção de tudo, clareando o que era escuro ou confuso e aproximando o que era distante.

Basta lembrar das lunetas, dos telescópios e do quanto representaram para os esforços de ver à distância ou de domar a imensidão. Os instrumentos óticos usaram seu poder para encolher o mundo e ampliar o conhecimento humano.

Mas talvez nenhum desses instrumentos tenha ganhado tanta importância e representado ajuda tão magistral quanto os simples óculos pessoais, esses companheiros de metal ou plástico suportando lentes polidas, sem os quais, literalmente, não podemos dar nem um passo.

Quando falo da humildade dos óculos, sei bem o quanto se tornaram cúmplices da vaidade humana. Desde muito, as armações apenas direcionadas para a funcionalidade se transformaram em veículos da exibição da elegância, do charme ou da simples extravagância. Creio que o Narciso que habita em cada um de nós usa óculos…

Óculos, na certa por se associarem ao esforço de ler, de aprender, passaram a identificar inteligência. Daí a significarem também uma fragilidade charmosa foi um passo. No maravilhoso jogo da sedução, os óculos podem quebrar, por exemplo, a possível rudeza associada a um homem musculoso, tornando-o um desejável refém do desejo feminino de amparar.

Por seu turno, uma mulher de óculos geralmente incorpora uma intelectualidade irresistível, que incrementa o desejo por parte dos homens, o que aliás nada tem a ver com a real inteligência, sempre presente nas mulheres, usem óculos ou não.
Óculos também podem ser alvo de preconceito, claro. Talvez muito mais no passado, antes das eficazes técnicas médicas, que generalizaram e estenderam a ação corretiva das lentes a crianças mesmo de tenra idade. Alguns dos leitores, quando pequenos, talvez tenham sido vítimas desse preconceito, que começava pelas denominações “caixa d’óculos” ou “quatro olhos”, chegando ao ponto de condenar a um canto do pátio do recreio, longe das brincadeiras, aquele e aquela coleguinha, coitados, que não poderiam sequer correr, sob pena de quebrar os óculos – pelo menos era essa a desculpa para afastar esse concorrentes nas disputadíssimas brincadeiras.

Nos tempos de antanho, aquele monóculo fixado apenas com o esforço dos músculos em torno do próprio olho, ou o pince-nez, milagrosamente equilibrado por uma presilha sobre o nariz, eram símbolo de austeridade. Se duvidam, observem, ainda hoje, a força com que nossos avôs e bisavôs nos olham de dentro das fotografias.

Será que as lentes de contato aposentarão os óculos? Duvido. Por mais avançadas que sejam, descartáveis ou não, gelatinosas ou não, jamais substituirão por completo, acredito, os práticos e funcionais óculos. Quando se discute isso, me lembro da diferença que existe entre o esforço na busca, de gatinhas, no chão, ou nas bordas de um ralo de pia, da lente que saltou caprichosamente do olho exatamente no momento em que se está atrasado. Isto é simplesmente mais enraivecedor que o equivalente tatear em busca dos óculos na mesinha de cabeceira, ou mesmo da risível situação de os procurarmos quando estão ali mesmo em nossa testa.

Essa indagação vale também para as operações cirúrgicas. Talvez chegue o tempo em que tornem desnecessários o uso dos óculos ou o aborrecimento das lentes. No entanto, esse tempo ainda parece distante, apesar dos céleres avanços na oftalmologia.

Tudo parece indicar que ainda conviveremos com eles, nossos imprescindíveis óculos. Que são fiéis mesmo quando os execramos, achando que enfeiam nossa fisionomia; quando se quebram as armações ou as lentes; ou mesmo nas vezes em que o transtorno é a perda daquele simples parafusinho da armação, que pula fora e solta a lente – isto quase sempre nas situações mais incômodas.

Eu penso que a suprema humildade dos óculos retrata-se na sua necessária invisibilidade. Isto mesmo, prezado leitor ou ouvinte. Para enxergamos bem, não podemos ver os próprios óculos; nem podemos ter consciência da parte da armação que fica no caminho de nosso olhar. Já pensaram nisso? Não concordam que isso é belo, é poético?

Lembremo-nos, caro leitor, em homenagem aos óculos: caso você os use, não poderia ler esta crônica sem eles, e muito menos eu poderia escrevê-la.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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