Olho por olho, dente por dente?

Passo Fundo viveu uma semana incrível com o caso do pai que matou a facadas o sequestrador da filha que já estava nas mãos da polícia. Desde os tensos anos de 1970 quando a cidade era conhecida como a Chicago dos Pampas não ocorria um fato policial que impactasse tanto a população como este que até fez retornar, sob aplausos gerais, inclusive longe daqui, a lei de talião. Não encontrei quem condenasse a explosão desse pai. O clima de insegurança está tão dramático na vida comunitária local e nacional que um cidadão disse: “isso que aconteceu é horrível, mas não tenho coragem de condenar esse homem”.

Uma jovem lamentou o ocorrido, mas porque “esse pai estragou sua vida matando o marginal”; outro apelou para que a imprensa “que tanto gosta de sangue não badale o caso para que o juiz que for julgá-lo mais adiante não se sinta pressionado pela opinião pública”.

Em algumas rádios as pessoas foram incisivas, se identificavam tranquilamente e aplaudiam ao ato. “Esse homem é herói” disse a dona de casa cansada “das regalias que dão aos bandidos”. Outro foi solidário dizendo que no caso faria o mesmo.

Afinal, o que está posto na prática? Sem meias palavras: olho por olho, dente por dente, sangue por sangue, que vem do Código de Hamurabi (2 mil anos antes de Cristo).

E o que revela? Que estamos fartos da impunidade, amedrontados, sentimo-nos inseguros e deixamos de confiar no Estado como responsável por nossa tranquilidade, a estrutura de segurança faliu e os governos, especialmente o central – nos últimos vinte anos – se mostra inepto, irresponsável e incompetente para administrar nossa segurança.

Segurança é conceito relativo ensinou, nos anos de 1960, um ideólogo de que só a luta armada nos livraria da ditadura. O que o povo precisa, dizia ele, é da sensação de segurança, isso é vital a uma vida normal. Dizia mais, apesar das tolices cometidas na área pela visão tosca da intelectualidade que credita ao sistema todos os males da humanidade (por isso não coloca segurança como prioridade de governo), segurança é mais importante do que educação, saúde, estradas, etc., pois sem ela é o caos e no caos nada se constrói de duradouro.

É o caos reinante hoje que influencia reações como essa do pai que matou quem feriu sua filha e leva a sociedade aplaudir aquilo que deveria estar condenando.

Vejam: as pessoas só sentem a imprescindível sensação de segurança quando enxergam o policial fardado na rua e o plantão da delegacia de policia funciona rápido ao ser acionado; quando, ao invés de medo, temos respeito pelo agente da lei e orgulho pelo que faz, quando os policiais trabalham com equipamentos de última geração para enfrentar a bandidagem, quando o promotor público é tido como rigoroso com os bandidos, quando o juiz que é tido como implacável na correta aplicação da lei, quando os aparatos investigatórios e punitivos dos crimes não fazem distinção de cor, partido, religião e classe social na hora de botar o transgressor em cana; quando cada um sentir que nossos políticos e governos tentam fazer a coisa certa.

Assim, as pessoas se sentirão seguras e confiarão na lei, no aparato policial na estrutura do judiciário quando essa sensação de impunidade que percorre o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste for radicalmente eliminada. Sem isso ficaremos todos nos comportando como agora, ou seja, aplaudindo o cidadão que faz “justiça” com as próprias mãos e ficando cheio de dedos em condená-lo.

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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