Orlando Silva, O Rei das Multidões, ressurge no CIC

Interrompo a série de recordações sobre Mário Lago para falar de Orlando Silva que, magicamente, foi reencarnado pelo talentoso ator Tuca Andrada no espetáculo teatral-musical  Orlando Silva, o  Rei das Multidões, encenado nos dias 28 e 29 de outubro  no CIC – tive o privilégio de assistir a uma das apresentações.
Por Chico Socorro

O espetáculo foi criado com base no livro de Jonas Vieira, fonte principal do artigo de hoje e constitui uma homenagem ao cantor cujo aniversário de 90 anos transcorreu no dia 3 de outubro.
Tuca Andrada incorporou o papel de Orlando de Silva tão profundamente que escreveu, para o programa do espetáculo, um texto comovente e que merece ser transcrito: “No dia 3 de outubro de 1915, Deus acordou de repente de seu sono, olhou para baixo e viu que no subúrbio carioca de Engenho de Dentro nascia às 7 horas da manhã um menino magrinho, mulatinho, feio, filho de pais humildes, igual a tantos que nascem todos os dias nesse país. Sabe Deus por que, Ele Deus tomou-se de amores por aquele menino que se chamava Orlando e resolveu dar-lhe um presente pro resto da vida. Tinha que ser um presente que o menino sempre lembrasse de quem O deu, afinal de contas, Deus é vaidoso com as coisas que cria.

Depois de pensar muito, teve uma idéia divina: daria uma voz para o menino. Mas não era qualquer voz não, era uma Voz com V maiúsculo, dessas que se ouvindo apenas uma vez, fica grudada nos ouvidos da gente, fazendo a gente pensar que é a voz de Deus. Não disse que Deus é vaidoso…”.
Orlando Silva iniciou a sua carreira na  já desaparecida Rádio Cajuti, no centro do Rio de Janeiro. Mas o marco histórico é a sua participação artística no dia em que foi criada a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1936 –o cantor tinha  21 anos de idade. Na Nacional ele foi, durante duas décadas, uma de suas maiores estrelas A   Nacional, é sempre bom relembrar, desempenhou, até o advento da Televisão, o mesmo papel exercido pela TV Globo nas última três décadas. Pode-se afirmar que a Rádio Nacional, ouvida em todo o País, era a voz que unificava o sentimento nacional. E a voz de Orlando Silva, segundo sua própria definição, era a voz de um romântico, um seresteiro que só cantava o amor e a beleza.
Para se ter uma dimensão do maior fenômeno musical do rádio brasileiro, alinhamos a seguir alguns fatos  que explicam o magnetismo de Orlando Silva:
– Primeiro fato digno de registro: Orlando Silva foi lançado pelo cantor Francisco Alves, aquele que ficou conhecido na música brasileira como o Rei da Voz.
– Longevidade: atuou durante 45 anos como cantor.
– Ele é considerado como o primeiro e o maior ídolo de massas do País: consagrado como o Rei do Rádio em 1954.
– Voz de tenor, fenômeno  artístico raro aos 19 anos de idade, quando começou a cantar, sem ter passado por nenhuma escola de música
– Revolucionou a  arte do canto, introduzindo um estilo inédito que serviu de modelo para duas gerações seguidas de cantores: capacidade de domínio da voz que lhe permitia variar, ao longo da mesma canção, dos pianíssimos e agudos com falsetes aos tons graves muito baixos.
– Orlando Silva tinha como princípio do qual não se afastava nunca de que o sentimento deveria predominar  nas músicas que interpretava.
– Interpretou, no mínimo, 50 clássicos da MPB dos mais importantes compositores brasileiros.
– Transitou pelos mais variados gêneros musicais: sambas, sambas-choro, marchas, marchas de rancho, frevos, foxes, canções e valsas
– Único cantor brasileiro que teve dois presidentes da República como fãs: Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. Vargas confessou-lhe que tinha ciúme de sua popularidade pois ele, Orlando, não tinha inimigos.
Orlando Silva, falecido em 1978, será sempre lembrado por músicas como: Lábios que beijei, Jardineira,  o Boêmio, Nada Além, Aos pés da Santa Cruz, Longe dos olhos e, sem dúvida nenhuma, pelo antológico samba Carinhoso, letra de João de Barro e música de Pixinguinha. Em homenagem a todos os três, reproduzimos a letra de Carinhoso, interpretada por Orlando Silva pela primeira vez em 1938.
MEU CORAÇÃO,
NÃO SEI PORQUE,
BATE FELIZ
QUANDO TE VÊ…
E OS MEUS OLHOS FICAM SORRINDO
E PELAS RUAS VÃO TE SEGUINDO
MAS MESMO ASSIM,
FOGES DE MIM!
Ah! Se tu soubesses como eu sou tão carinhoso
E o muito e muito que eu te quero!…
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim!
Vem, vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então,
Serei feliz
Bem Feliz.
 


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