Os 30 anos do Vivendo a Vida de Lee

Noite de 13 de agosto de 1975, há três décadas, na avenida Benjamin Constant, para os lados do bairro Floresta, em Porto Alegre. Falta pouco para o show começar e as dependências do Cine-teatro Presidente estão lotadas. Por Luiz Artur Ferraretto

Não resta sequer um dos 1.150 lugares na platéia e o público ocupa, inclusive, os corredores entre os blocos de cadeiras. Quem vai se apresentar não é nenhuma estrela da música brasileira ou internacional, até porque nestes tempos a capital gaúcha está completamente fora do circuito de atrações pop da indústria fonográfica. São cantores e grupos locais que atraem a atenção de centenas de jovens para o primeiro Vivendo a Vida de Lee. A repercussão surpreende até mesmo o patrocinador do evento, a indústria gaúcha A. J. Renner & Cia., fabricante no Brasil dos produtos da estado-unidense H. D. Lee Company.


Vivendo a Vida de Lee – Convite para o primeiro Vivendo a Vida de Lee

Desde 1º de abril, a Rádio Continental mantém um programa, de segunda a sexta-feira, das 23h à meia-noite, para valorizar a marca. Já na abertura do programa, o estúdio transforma-se em uma espécie de saloon hertziano. Ao ritmo marcante de um banjo do jingle Living the live of Lee, efeitos sonoros do tropel de cavalos e tiros de Colt 45 indicam a chegada de um tresloucado cowboy de boca-torta direto das pradarias do Kansas, terra da Lee. Quem anuncia, com a voz pausada a destacar o nome do disc-jóquei, é o locutor Marcos Aurélio Wesendonk:
– Com vocês, o enviado da H. D. Lee Company, Misteeerrr Lee [sobe trilha].
– Yahoo! Yahoo! [cantarolando] Olereiii, olereiiiiiii! [falando] Respire fundo, xará! O cowboy da Lee chegou [pausa] cheio de som e comunicação nos cartuchos. Lee, a marca registrada na totalmente transistorizada! Mister Lee, o disc-jóquei batizado pela H. D. Lee Company [sobe trilha], trazendo um mundo novo, todo azul para você!

É a segunda encarnação radiofônica do disc-jóquei Júlio Fürst, que, antes, na Pampa e também na própria Continental, vivia o negão Julius Brown, improvável cruza dele mesmo – descendente de alemães – com o astro da soul music James Brown. A transformação em garoto-propaganda da Lee gera, no entanto, um efeito ainda mais imprevisto.

Quando o programa Mister Lee in concert estréia, a idéia é marcar, com muita country music, a autenticidade das roupas produzidas no Rio Grande do Sul em meio à avalanche de produtos falsificados.


Vivendo a Vida de Lee – Hermes Aquino e Mister Lee (Julio Fürst)

Convidado para integrar o júri do IV Musipuc – Festival Universitário de Música Popular Brasileira, promovido pelo Centro Acadêmico São Tomás de Aquino da PUCRS, Julio Fürst entra em contato com cantores, compositores e grupos como Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson, Gilberto Travi e Cálculo IV, Status 4, Inconsciente Coletivo… Na época, a Continental já roda a música Vento negro, dos Almôndegas, gravada em fita rolo no estúdio auxiliar da emissora e lançada no programa Opinião jovem, apresentado das 7 às 7h57, pelos professores do curso pré-vestibular IPV, Clóvis Duarte e José Fogaça, este último também autor da canção. Fürst convence o patrocinador a permitir a abertura de uma janela dentro do Mister Lee in concert para os vencedores do Musipuc. As gravações realizadas na própria rádio passam, em seguida, a pedido dos ouvintes, a ser executadas também em outros horários. É a repercussão destes registros quase artesanais que garante a realização do Concerto n. 1 – Vivendo a Vida de Lee. Até 1978, quando é suspenso o patrocínio, diversos shows acontecem, na capital e no interior, chegando mesmo a ultrapassar as fronteiras do estado.

Ainda em 1975, incluindo músicos paranaenses, o Mister Lee in concert começa a ser transmitido na Rádio Iguaçu, de Curitiba, com Julio Fürst gravando, na capital gaúcha, abertura, anúncio e desanúncio das canções e encerramento. O comunicador organiza, então, um grande espetáculo no Ginásio Palácio de Cristal, do Círculo Militar do Paraná, onde 6.500 pessoas assistem o que é chamado pela imprensa de Novo Movimento Musical do Sul. De Porto Alegre, viajam 73 músicos em três ônibus fretados por Fürst, já convertido em empresário de alguns destes artistas. Na época, o grupo Almôndegas já havia lançado dois discos, colocando Canção da meia-noite, de Zé Flávio, na trilha sonora da novela Saramandaia, da Rede Globo. O mesmo ocorre com Hermes Aquino, que aparece com Nuvem passageira, de sua autoria, em O casarão, outro sucesso da teledramaturgia brasileira.

Importantes não só por projetarem artistas de sucesso nacional como Almôndegas ou Hermes Aquino, o Mister Lee in concert e o Vivendo a Vida de Lee chamam a atenção, também,  pela abrangência. Já sem os trejeitos de cowboy e transformado, portanto, no mais importante divulgador da música urbana da Região Sul, Fürst abre espaço, assim, para uma variedade de ritmos: folk (Halai Halai, Inconsciente Coletivo…), MPB gaúcha (Fernando Ribeiro, Status 4…), rock gaudério (Bizarro, Bobo da Corte, Mantra…) e rock pesado (Palpos de Aranha), além de outros sons, de difícil enquadramento, como Nelson Coelho de Castro, transitando pelo samba e pela MPB, ou o Utopia, de Bebeto Alves, com seu instrumental de violinos e violas.

Em 1978, com o fim do contrato publicitário, o Mister Lee in concert sai do ar e ocorrem os últimos shows do Vivendo a Vida de Lee. Aqueles três anos com dezenas de programas de rádio e shows ficam, mesmo assim, como um importante momento de redefinição da música urbana do Rio Grande do Sul.


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