Os 35 anos da morte de Pedro Carneiro Pereira

Nos Estados Unidos, quem estava vivo em 22 de novembro de 1963 lembra do que fazia e de onde estava quando ficou sabendo do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy abatido por uma – Uma? – bala de trajetória estranha e irregular no desfile em carro aberto nas ruas de Dallas.Uma geração antes, no Brasil, teve efeito semelhante à informação sobre o suicídio de Getúlio Vargas, e, na Argentina, a morte por câncer progressivo e irredutível de Eva Perón. Pois, no Rio Grande do Sul, o ouvinte de rádio do início dos anos 1970 lembra, com certeza, o que fazia, onde estava, com quem conversava, que roupa usava naquele momento dramático e único.

Aquele instante, o da voz embargada de Armindo Antônio Ranzolin, microfone da Guaíba, palmas respeitosas de um Beira-Rio lotado. Um Arnaldo César Coelho parando a partida, gesto inusitado e inédito. Jogadores do Internacional e do São Paulo silenciosos. O estádio inteiro silencioso. A crônica esportiva silenciosa. E a Guaíba tocando música na tarde de domingo, de futebol e de primavera.

A Gaúcha seguindo na irradiação dos jogos do campeonato brasileiro em homenagem ao colega da emissora concorrente. Um Luiz Carlos Prates emocionado na descrição lance a lance de um jogo que já não interessava a ninguém. Tudo, respeitosamente, para marcar a morte e lembrar a vida do maior narrador esportivo do estado na época: Pedro Carneiro Pereira, o Pedrinho, morto naquela tarde de sol, de primavera, dia 21 de outubro de 1973, há três décadas.

Um fanático pelo automobilismo, Pedrinho, correndo com um Opala, número 22, sofrera um acidente, no qual se envolve também o automóvel de Ivan Iglesias. Foi pouco antes do início do jogo. A Guaíba, além de estar presente nos estádios Beira-rio, em Porto Alegre, e Engenheiro Araripe, na cidade de Vitória, no Espírito Santo, mantinha um posto no Autódromo de Tarumã, em Viamão.

De lá, o repórter Clóvis Rezende informara, primeiro, o choque entre os dois carros, chegando a descrever as chamas que tomaram conta dos veículos. Minutos depois, confirmada a morte dos pilotos, Armindo Antônio Ranzolin, após narrar os primeiros 15 minutos de Internacional e São Paulo, interrompe as transmissões esportivas da emissora:

– Bem, este tipo de informação nós não estávamos preparados para receber. O Pedrinho corre há tanto tempo. Morre tanta gente nos autódromos, mas nós sempre imaginamos que, com o Pedrinho, isso não aconteceria. Confesso para os ouvintes da Rádio Guaíba que não há a menor condição para que o nosso trabalho prossiga. A partir deste momento, o Departamento de Esportes da Rádio Guaíba, hoje, vai encerrar as suas atividades. Nós não transmitiremos o jogo do Internacional e São Paulo, nem o jogo do Grêmio contra a Desportiva Ferroviária. Vamos colocar um ponto final na participação do Departamento de Esportes da Rádio Guaíba nesta Jornada Esportiva Ipiranga e nesta transmissão aqui do Beira-Rio.

Em meio ao comunicado, a reação do público, com aplausos que partem de todos os pontos do estádio, atesta o impressionante predomínio da Guaíba no rádio do Rio Grande do Sul. O narrador da descrição precisa, sem bordões ou adjetivos exagerados, morria em uma tarde de céu azul, muito azul, parecendo uma saudação, uma homenagem da primavera acompanhada, assim, pelo reconhecimento do público e de seus colegas.

13 respostas
  1. Paulo Luiz Petry says:

    Eu tinha 16 anos. Lembro-me bem desse dia, da comoção que tomou conta do Rio Grande do Sul. Como era emocionante ouvir a transmissão de um jogo por esse narrador.
    Mas também é interessante ver como as coisas mudaram desde então. Morria-se, naquela época, de causas naturais. De acidente automobilístico era bem mais difícil, lá de vez em quando. De bala perdida, não me lembro de nenhum caso. É, as coisas mudaram.

  2. Maximino Antonio Tasca says:

    Lembro muito daquela tarde de domingo, onde eu e mais alguns amigos saimos da nossa vila Rio dos Índios e rumamos ao estado vizinho, ou seja, SC, mais precisamente, no interior de Caxambú do Sul. La estávamos, após o churrasco, bebericando uma cervejinha, quando ao ligar a Guaíba, a mesma já anunciara a trágica morte do saudoso Pedro Pereira. Para a emissora que tinha um narrador da classe do Pedrinho, ter também a grande voz do Armindo Ranzolin, anunciando naquele timbre nostálgico o infausto acidente, muito nos comoveu. E o povo esportivo brasileiro, mais precisamente o gaúcho, por muito tempo chorou um pouco a cada fim de semana.

  3. Mauro Berres says:

    Eu tinha acabado de completar 13 anos. Estava sentado em frente à minha casa, em Santo Cristo/RS, ouvindo a transmissão do jogo Inter x São Paulo. O Inter, por sinal, perdeu aquela partida. O Antônio Augusto, plantão esportivo da Guaíba, chamou o Ranzolin e, imediatamente, o Clóvis Resende entrou de Tarumã anunciando a morte de Pedro Carneiro Pereira (e também de Ivan Iglesias, com quem houve o choque). Eu era fã do Pedro. Narração objetiva, clara, um vocabulário rico, porém muito fácil de entender. Pedro Carneiro Pereira sempre será, até pela morte precoce, o maior narrador esportivo do RS em todos os tempos. É inesquecível o jargão inicial: “O árbitro olha o seu relógio, nós o nosso, iniciado o cotejo. Pelota com …”. Foi-se o grande narrador. Ficou o mito.

  4. FLÁVIO BASSO says:

    nasci em Arroi do meio Rio G.do Sul em 1952,para mim o Pedro Carneiro Pereira foi um mito, o maior narrador de todos os tempos. quando ele faleceu na morte trágica no automobilismo, chorrei muito.a cabou a emoção dos dias tão esperado nos dias de jogo.
    hoje estou em São paulo. Como tenho saudades de houvir aqueles lindos gool narrados que só ele poderia dar o espetáculo tão emocionante.
    Com a morte do Pedro Carneiro pereira os domingos ficaram por muito tempo cinzetado. f A sua morte foi tão sentida como tivesse morrido um familiar.
    Como gostaria de matar a saudades, se conseguiria um sait dele pelo menos ouvi-lo, e demonstrar uns gools pelo menos ao meu filho já tem 21 anos , ele estuda emgenharia civil. Estou morando em Araraquara Estado de São paulo.
    advogo, somos torcedores fervecentes colorados. Também somos mais gaúcho , principalmente quando apertaq a saudaes.
    abraços!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. FLÁVIO BASSO says:

    Eu sei que é difícil de ter contato com as pessoas sertas sobre esse tema!

  6. Altemir Confortin says:

    Lembro daquela tarde, tinha 10 anos, lembro até das palavras do Ranzolin, sentado debaixo de um cinamomo no interior de Erechim.

  7. Ruben says:

    Até hoje lembro com tristeza e muita saudade. Ouvir transmissão de jogos de futebol nunca mais foi o mesmo. Que pena.

  8. Pedro Abílio says:

    Estava assistindo à um documentário agora e Pedrinho foi citado como o melhor narrador do Brasil de todos os tempos, resolvi procurar, achei muito bacana. Tenho 15 anos e estou começando a ingressar no mundo na narração, este, acaba de se tornar um de meu maiores exemplos. Se puderem enviar-me mais algum material de narração de Pedrinho Pereira por e-mail(abilio_18so@hotmail.com) ficaria muito grato, Obrigado.

  9. Paulo Geraldo Meyer says:

    Eu tinha 18 anos, e tinha ido uma vez no autódromo, levado pelo querido Sr Helmut Luckow, pai de meus amigos Werner e Bruno Luckow, assistir a uma corrida categoria Turismo, onde o Pedro Carneiro Pereira participou, como também o Pedro Vitor Delamare, ambos com opala…Então, acompanhava as corridas pelo rádio, comecei a me interessar cada vez mais pelo automobilismo esportivo… E, neste dia, estava escutando a Guaíba, em minha casa em Porto Alegre, quando as transmissões fora interrompidas, o locutor da rádio com a voz embargada pela emoção, em luto ao falecimento do locutor e desportista… Eu nunca tinha vivido uma emoção destas, lembro que meu pai era ouvinte assíduo da Guaíba, mas neste dia não estava em casa, e eu depois contei pta ele o que havia acontecido…

  10. Bento Matos says:

    Eu estava escutando o jogo Inter x São Paulo, pela Guaíba e nunca vou esquecer. Na época trabalhava na Auxiliadora Predial e, na segunda-feira fui para a frente do predio da Caldas Jr.

  11. FLAVIO BASSO says:

    como fiquei feliz e ao mesmo tempo emocionado,ao receber uma gravação narada pelo inesquecível o Pedro Carneiro Pereira,nunca havia passado pela minha cabeça, que seria atendido esse dífícil pedido quasi impossível. sempre fui e continuo sendo amante dessa extraordinária emissora,que a “Rádio Guaíba” que todos os dias ela me dá o prazer de ouví-la!
    Ela sempre teve proficionais de uma grandeza impar. Programei em meu computador, ouço todos os dias.
    Aqui vai o meu carinho, o meu agradecimento, a todos vocês que são pessoas sóbrias e que possui um trato refinado a todos os ouvintes desse imenso Brasil!
    Que Deus semprevos protejam e que continua a emissora galgando os degraus da última escadaria! MUITO OBRIGADO DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO!

  12. Enezilmo Roque Barbosa says:

    Gostaria de ouvir pelo menos um gool narrado por Pedro Carneiro Pereira para recordar

  13. Luiz Guarani Trindade de Bem says:

    Amo o futebol e, por conseguinte, sou apaixonado por rádio. Escutava a Guaiba direto, pois além de outros bons profissionais, ela tinha o maior de todos em todos os tempos, PEDRO CARNEIRO PEREIRA. Até hoje sinto saudade de suas narrações e de seus comentários diários ao redor do meio dia. Todavia, o que me leva a postar estas linhas, é perguntar a quem interessar possa, onde posso adquirir CD ou algum outro material com narrações do Pedrinho?

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