Os 60 anos das Emissoras Reunidas, de Arnaldo Ballvé

Até a década de 50, em várias cidades do interior, são comuns, na praça principal, os serviços de alto-falantes que, entre reclames do comércio, transmitem músicas e, não raro, dedicatórias a acompanhar os flertes do início de noite, em alguns dias da semana, ou os das tardes de sábado e domingo. Por Luiz Artur Ferraretto

Precedendo a instalação formal de estações, a “voz-do-poste”, na denominação popular, fornece, com freqüência, profissionais para as novas rádios. É, em meados dos anos 40, o caso do Serviço Alto-falante Santa Cruz Estúdio, também conhecido como Som Azul. Quando Santa Cruz do Sul coloca no ar sua primeira emissora, a maioria dos funcionários – inclusive o proprietário Elemar Gruendling – transfere-se para o novo prefixo. Situação semelhante acontece com o jornalista Luiz Napolitano, responsável pelos alto-falantes que irradiam nas proximidades da então Praça Ruy Barbosa, no centro de Caxias do Sul. Não é diferente o que ocorre com a Propaganda Sonora Guarany, de Eleodoro Antunes Fernandes, em Passo Fundo, na qual aparecem Maurício Sirotsky Sobrinho e Lamaison Porto, transformados, respectivamente, em gerente e diretor comercial da primeira rádio do município.


Arnaldo Ballvé

Nestes casos, todos envolvendo o empresário Arnaldo Ballvé, identifica-se uma estratégia comum adotada pelo empresário que, em meados dos anos 40, começa a organizar as Emissoras Reunidas, principal grupo do interior gaúcho, aproveitando o pessoal dos alto-falantes ou, na ausência destes, fornecendo algum treinamento ou orientação a inexperientes candidatos a radialista.


Elemar Gruendling na Rádio Santa Cruz (1946)

Para a administração geral deste empreendimento, o ex-diretor da Farroupilha (1935-1944) e da Gaúcha (1944) cria um staff próprio, utilizando o pessoal que havia trabalhado com ele anteriormente: Adeodato Rodrigues Araújo, Celso Fernandes, Hugo Victor Ferlauto e Paulo Amaro Salgado.
Com a denominação de Emissoras Reunidas Rádio Cultura Ltda., a empresa é registrada em 4 de dezembro de 1944. A expressão “Rádio Cultura”, utilizada na Zona Sul do estado por outro grupo, acaba sendo suprimida. Uma das nove concessões obtidas, de início, pelas Reunidas, a da ZYE-8 – Rádio Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, começa a sair do papel na madrugada de 11 de março de 1946, quando iniciam as transmissões experimentais. No jornal Gazeta de Santa Cruz, o empreendimento de Ballvé é saudado por sua abrangência:


Estúdio da Rádio Caxias (segunda metade anos 40)

“É ela a primeira das estações mandadas construir pelas Emissoras Reunidas Rádio Cultura Limitada a entrar em funcionamento, sendo que a segunda será a estação de Caxias, que tem o prefixo de ZYF-3.
Os prefixos das outras sete estações serão, para a de Alegrete, ZYE-9; Cachoeira do Sul, ZYF-4; Carazinho, ZYE-8; Cruz Alta, ZYF-9; Erechim, ZYF-7, Passo Fundo, ZYF-5; e Santo Ângelo, ZYF-6.”


Arnaldo Ballvé e Maurício Sobrinho

A inauguração da ZYE-8, semanas depois, no dia 7 de abril, confere um ar de modernidade a Santa Cruz do Sul, então com sua atividade econômica já voltada à produção de fumo. A exemplo do que ocorre no município – onde a Gazeta de Santa Cruz chega a qualificar o início das irradiações regulares como o “último laque de civilização” ou uma “inovação há tanto tempo almejada” –, as estações do grupo, por seu pioneirismo e atuação, vão se integrar às comunidades locais, operando, em alguns casos, sem nenhuma concorrência nas três décadas seguintes.


Anúncio das Emissoras Reunidas (1951)

No mesmo mês de abril de 1946, no dia 27, irradiada do clube Recreio Guarany, os ouvintes da Serra gaúcha ouvem pela primeira vez a identificação que, durante anos, vai abrir as transmissões da ZYF-3 – Rádio Caxias do Sul:
– Cobre agora os céus do Nordeste com sua onda alegre e amiga a ZYF-3, Rádio Caxias do Sul, que transmite na freqüência de 1.460 quilociclos, onda de 205,48 metros. ZYF-3 tem seu estúdio e administração à avenida Júlio de Castilhos, 987, e suas torres e transmissor na Rua Pinheiro Machado, 815. Tudo na cidade de Caxias do Sul, Brasil.
Na Rádio Caxias, Ballvé começa um processo que vai se tornar comum em outras estações das Reunidas.
Dá participação no negócio a empresários e pessoal da imprensa local, no caso Joaquim Pedro Lisboa e Luiz Napolitano. Com o tempo, esta prática vai envolver também gerentes das rádios. Em cada município onde instala suas estações, o diretor-gerente das Emissoras Reunidas procura, antes, informações sobre quem pode ser aproveitado no novo empreendimento. Em Passo Fundo, ouve do amigo Túlio Fontoura, liderança local do Partido Social Democrático e diretor do Diário da Manhã, elogios a um jovem locutor do serviço de alto-falantes. Contratado, em seguida, para administrar a Rádio Passo Fundo, Maurício Sirotsky Sobrinho vai estar ligado aos negócios da família Ballvé até a virada para a década de 70. Sob a sua direção, a terceira das Reunidas entra no ar no dia 19 de agosto de 1946.
Nos anos seguintes, o grupo cresce, chegando a contar com duas dezenas de emissoras. Para auxiliar na administração de tantas rádios, Arnaldo Ballvé cria a função de inspetor-chefe, atribuída a Paulo Amaro Salgado, que, junto com outros três funcionários, faz uma espécie de auditoria em cada uma das estações.
Também ocorrem reuniões periódicas com todos os gerentes das emissoras. A situação, no entanto, altera-se com a morte do empresário em 12 de junho de 1958. Um pouco antes, ele participa, como sócio majoritário, da compra da Rádio Gaúcha, que não chega a funcionar de modo coordenado com as Reunidas.
Em 1962, Frederico Arnaldo Ballvé ainda vai lançar a TV Gaúcha, mas, em seguida, repassa as duas para a Rede Excelsior, de São Paulo. O crescimento da concorrência e a falta de modernização técnica e gerencial fazem com que, a partir daí, as Emissoras Reunidas comecem a se desmembrar. No início dos anos 90, Nelson Proença assume o grupo, rebatizado, então, como Rede Comunidade, para, em junho de 2003, adotar a denominação de Rede Tchê.


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10 respostas
  1. roberto antonio zulian says:

    Fui funcionário da zyf3 ( emissoras reunidas ) rádio Caxias do Sul, no periodo de 1969 a 1974, trabalhei como operador de som ( sonoplasta ) e também como redator de noticias, foi um periodo muito bonito em minha vida, na época com pouco mais de 15 anos de idade. Preciso se possível o numero do cgc ( cnpj ) da emissora para poder sacar junto a caixa federal um diferencial de fgts existente. Estive na radio Caxias atual e não souberam me informar tal dado. Ficaria muito grato pela atenção. Um abraço a todos foram muitas amizades construidas naquele período.

  2. roberto antonio zulian says:

    Deixei um email, solicitando o cnpj da emissoras reunidas radio caxias para comprovação junto a caixa economica federal, porém até o momento não obtive nenhum retorno.
    [email protected]

  3. Hugo Ferlauto says:

    Boa noite,

    Sou filho do Hugo Victor Ferlauto, o qual fez parte da história desta grande empresa. Em pesquisa recente sobre a biografia do meu pai, encontrei muitas matérias, porém nenhuma com fotos da época. Seria possível uma pesquisa junto aos arquivos da empresa ou quem sabe já exista algum arquivo eletrônico com tais conteúdos?
    Qualquer registro fotográfico que puderem disponibilizar, serei eternamente grato pela colaboração.

    Abraços,

    Hugo Ferlauto

  4. Luiz Carlos Schneider do Amaral Santos says:

    Comecei nas Reunidas com 10 anos de idade. Sim, na Rádio Erechim. Lá o gerente, Euclides Antônio Fantin Tramontini, abriu as portas para um jovem. Mais tarde, já com 20 anos, fui contratado. Depois segui a Passo Fundo para a melhor emissora do Interior do RS, a Rádio Planalto (na época era uma rádio de qualidade). Hoje, com 54 anos de idade, fiquei sem rumo: as Reunidas foram exterminadas (Balveniznhos e Getúlio), a Planalto foi entregue a um neo-golpista (Daltro) e a Guaíba sucumbiu diante da RBS (incêndios, etc). Ora, porque um radialista com convicção como eu, sequer pode ouvir rádio atualmente? Isso machuca. Ainda mais para quem sempre foi DEDICADO ao rádio e, além disso, sempre viveu rádio intensamente. Há coisas erradas no ar. E nas ondas hertezianas.

  5. Milena says:

    Oi! Sou bisneta de Adeodato Rodrigues de Araújo, e fico muito feliz pelo reconhecimento de meu bisavô. Consigo algumas fotos de família, se puder te ajudar (Hugo).

  6. Erani Cley Coeeêa da Silva says:

    Trabalhei na ZF4 em Cachoeira do Sul, Iniciei junto com o Nilton Fernando, o diretor na época era José Schineider Silva. Tive o prazer de conhecer o inspetor chefe Paulo Salgado, que até jantou algumas vezes na casa de meus pais em Cachoeira do Sul. A única parte “obscura” da história é que quando vice da administração josé Asmuz, o Balvé era vice. colocou dinheiro das Reunidas na montagem daqueles times campeão e vice do Brasil, contra o Cruzeiro em 75 e o Corinthians em 76… Frederico Arnaldo Balvé já estava doente, nesta época começou o fim das Associadas… Vou publicar na linha do tempo, uma foto com meus filhos e o Schneider na frente da Rádio Cachoeira anos 80…

  7. Jeferson Jorge says:

    Ola Hugo. Conheci seu pai porque minha mulher (Leidi Maria JOrge) foi funcionária das Emissoras Reunidas por muitos anos. Era a Gerente Financeira e braço direito do Dr. Frederico Pero Ballvé (filho do fundador Arnaldo Ballvé). Não temos documentos daquela epoca que pudessem te ajudar porque nos mudamos para outro país e muitos documentos foram extraviados. De qualquer maneira eu tenho interesse em falar com alguem das Emissoras que pudesse me dar o nome completo de um advogado que atuava pela companhia e era muito amigo do Dr. Frederico desde o tempo que empresa estava na Travessa Leonardo Truda até que depois se mudou para a Rua André Puente. Creio que o nome era Dr. Jairo Chaves mas gostaria de ver se alguem lembra o nome todo dele. Abraços.

  8. Cristovão says:

    Meu pai trabalhou durante anos na rádio cachoeira,ele gerênciou inclusive,nã sei precisar o ano.Meu pai é Fabio Lacerda Peralta.

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