Os brasileiros e a cultura pela morte

A estatística da mortandade diária é estarrecedora, mas a gente nem se abala! Estamos anestesiados. Estamos morrendo como moscas e nossas atitudes, as nossas e as das nossas autoridades, são apenas pontuais. Nossa crise moral nos impele a varrer para debaixo do tapete as questões relevantes. Nosso jeitinho se torna câncer, com quase 30 partidos políticos. Por exemplo, não conseguimos estabelecer um projeto de Brasil, algo duradouro que fuja do oportunismo eleitoreiro, da demagogia barata de qualquer sigla, que fuja da nossa bazófia provinciana.

Nossas perspectivas de futuro como Nação são pífias e nossas instituições – do futebol ao judiciário – parecem enfermas.

Segundo a administradora do DPVAT – o  seguro obrigatório dos veículos – 160 pessoas morrem por dia no trânsito neste amado Brasil. São 4.800 óbitos por mês, ou a astronômica cifra de 58.400 pessoas por ano, a maioria dos mortos entre 21 e 30 anos. Claro que tal matança não nos impressiona mais, ela é digerida nas refeições na hora do noticiário com ajuda do pantoprazol. Sim, o avião, quando cai em meio às chamas, ainda toca nossos corações, mas essa matança cotidiana equivale à queda de um Boeing lotadinho a cada dois dias.

Concordo, não há estoque de lágrimas para tanto!

De quebra, a Associação Brasileira e de Prevenção dos Acidentes de Transito dá colorido mais sangrento aos dados ao informar que nas estradas e nas ruas das nossas cidades produzimos 500 mil feridos por ano. Quantos ficam inválidos? Quanto dinheiro é gasto para atender essas pessoas?

Por outro lado, um estudo global feito pela ONU revela que em 2010 ocorreram 43.016 homicídios no Brasil. Isto significa, nesta realidade insana, que 120 pessoas são assassinadas a cada 24 horas. Em se tratando de assassinatos nós, aqui na América do Sul, só perdemos para a Venezuela do paranoico Chaves e para a Colômbia, que estão às voltas com uma guerrilha.

Mais, computando-se as diferentes estatísticas relativas aos óbitos pelo consumo de álcool, cigarro, cocaína, maconha, crack e o uso dos diferentes tipos de inalantes, o número de mortes chegaria a 120 mil por ano. São mais de 300 vidas ceifadas por dia. Muito mais, diariamente, do que o número de vítimas produzidas pelos países em conflito no Oriente Médio e que vem assustando a ONU.

São dados doentios e paramos neles, pois a dimensão, quando se trata da nossa relação com a violência, a morte, a crise moral, é assustadora e pode nos tornar ainda mais distantes da realidade. Para nos comover adiantaria citar ainda os milhares de casos de assaltos e roubos, os milhares de roubos de cargas por ano, os milhares de estupros por ano, os milhares de mortos por falta de segurança no trabalho, os casos de violência contra menores, os…?

Friamente os números revelam que há algo de assustador na sociedade brasileira. É um quadro que tende a se agravar pelas terríveis deficiências no nosso ensino fundamental, pelo paternalismo adotado nos programas destinados aos setores sociais carentes, pela insana impunidade que só coloca ladrão de galinha na cadeia, pela ausência de exemplos a serem seguidos, pela crise de valores a serem cultivados, pela balburdia partidária, pela indigência moral de muitas celebridades…  saída para esse caos que tende a se incrementar? Sem novo pacto fica difícil crer que podemos trocar a atual cultura pela morte por uma cultura pela vida…

Ivaldino Tasca | [email protected]

 

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *