Os contra-regras

O rádio sempre exigiu de seus profissionais criatividade, sensibilidade e certa habilidade na improvisação, mas uma função pode ser considerada a personificação dessas características: a de contra-regra.

[ Janine Silva ]

Enquanto os sonoplastas rodavam os efeitos gravados em vinis, o contrarregra fazia com que os objetos mais comuns dessem origem a diversos sons. O público, em casa, ouvia o ruído de um cavalo correndo pela estrada; um incêndio a devastar uma casa; o tic-tac de um relógio; enquanto, no estúdio, o contrarregra batia cascas de coco da baía contra uma mesa; esfregava folhas de papel ou plástico entre as mãos; batia em um anel com um lápis…

Para aqueles que ouviam as radionovelas em sua sala de estar, esse profissional passava despercebido. Envolta pela trama, a audiência absorvia os efeitos sonoros com naturalidade, talvez, um sinal da eficiência dos que ocupavam esse cargo. Os ruídos deviam ajudar a construir a atmosfera da trama encaixando-se perfeitamente nela. E isso exigia dedicação. Quando não estavam ao vivo, auxiliando nas transmissões, os contrarregras passavam horas a tentar descobrir novos sons e aprimorar o seu trabalho.

Mas quem preferia acompanhar o espetáculo pessoalmente, com certeza reparava naquela figura, atrás de uma mesa repleta de objetos: sinos, bacias cheias de água, caixinhas de madeira…  Era assim que Manuel Bruno Júnior poderia ser encontrado de segunda a sexta-feira no estúdio de radioteatro da rádio Diário da Manhã, ajudando nas produções dirigidas por Aldo Silva.

Assim como outros tantos profissionais do rádio, os contrarregras migraram para as emissoras de televisão quando as radionovelas, em sua maioria, deixaram de ser transmitidas. As radionovelas marcaram a história radiofônica, não só de Santa Catarina, mas de todo o Brasil ao contribuir para a magia do radioteatro.

* Janine Silva é aluna da 5ª fase do curso de Jornalismo da UFSC e voluntária no projeto de extensão Museu do Rádio de Santa Catarina.

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