Os dinossauros ainda têm muito para ensinar

MARCA-FESTA-OE-3-miniCerta vez me perguntaram por que jovens não leem mais jornais. Respondi que, na minha época, as novas gerações também não tinham muita intimidade com o manuseio de diários impressos.

Ah, mas havia jovens politizados com ideias avançadas. Sim, claro, não temos mais Daniel Cohn-Bendit, da rebeldia de Paris em 1968, e nem os líderes da Primavera de Praga ou os que reagiram ao Massacre de Tlatelolco, no México, contudo, não podemos comungar com a teoria de que as ideologias morreram e os líderes sumiram, até porque enquanto houver pensamento crítico não se poderá proclamar o modelo atual de desenvolvimento social, econômico e político como irreversível, se quase dois terços da população mundial vive entre a miséria e a carência.

Mas, afinal, o que mudou nos últimos 30 anos? A irreflexão contaminou mais o jornalista que o leitor. Antes, a exigência da boa informação era do próprio jornalista. Hoje, o leitor vive, na ciranda de dados, indiferente a informações jornalísticas que visam mais ao espetáculo que a descrição e a opinião sobre fatos, além de não valorizar a história como referência ao presente e sustentação ao futuro.

No sábado, 31/5, os jornalistas que fizeram o jornal O Estado, entre final dos anos 1960 a meados de 1980, se reencontraram em uma feijoada na sede da ACM – Associação Catarinense de Medicina.

Singularizou-se a mesma emoção com que se manufaturava a edição diária do “mais antigo”. As conversas, alegrias e lembranças reacenderam, entre feijão, linguiça, carne e pitéus, a mesma paixão com que há três décadas a ansiedade perseguia o inusitado para surpreender o leitor. Não se expressou desilusão com a mídia social. Nada disso. Os garotos experientes, intitulados dinossauros, têm o vigor e a tenacidade com que venciam, entre o jornal e as fontes de informação, as distâncias hoje equivocadamente anuladas pela fagulha da instantaneidade, que seduz os mancebos na telinha, nulificando a memória, ignorando a razão, comprometendo a história, tesourando a flor sem sentir o perfume, na incapacidade de enxergar um palmo do futuro.

Fico a imaginar esses garotos dinossauros na confluência de ideias e divergências com os virtualmente estressados na avalanche de informações que poluem as pautas e embaralham o fechamento de edições de jornais. Não se trata de arrogância e nem de prepotência desses aguçados e tarimbados jornalistas.

Não, longe disso! Quem sabe as novas gerações descubram a necessidade de fugirem à velocidade da tecnologia em busca de um jornalismo explicativo, profundo, substituindo a avidez do espetáculo pela altivez do texto, da reportagem parida com paixão. Na idade da máquina Olivetti, o texto jornalístico produzia sorrisos ou lágrimas no leitor pela qualidade e força das palavras, que permitiam imaginar um cenário. Escrever não significa apenas narrar o fato, mas expressá-lo na sua intensidade, buscando-se o inusitado. Perguntem aos dinossauros!

Nota do Editor: A ilustração deste artigo é de autoria de Frank Maia, e foi criada para a festa de integração que reuniu profissionais que já trabalharam no extinto Jornal O Estado.

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