Os Discocuecas colocam em curto-circuito o rádio do RS

Em 1977, começa o ciclo daquele que vai se transformar no último programa exclusivamente humorístico do rádio em amplitude modulada do Rio Grande do Sul. Por Luiz Artur Ferraretto

Ocupando o horário das 18 às 19h, na Continental, Julio Fürst, encarnando então o Mestre Julio, coloca no ar, nos últimos 15 minutos do seu programa, paródias de comerciais, músicas satíricas e personagens cômicos. Junto com Beto Roncaferro (Jorge Gilberto Dorsch ), Gilberto “Bagual” Travi e Toninho Badarok (João Antônio Araújo ), cria, assim, os Discocuecas, explorando a paródia e a gozação na abordagem do universo artístico e comunicacional da sua época, a da transição entre a ditadura e a democracia.


Rancheirinho e Ceres Farmacinha (1983).

Referência satírica à moda discothèque, inaugurada um pouco antes com o lançamento de Love to love you baby, de Donna Summer, o trabalho dos Discocuecas ganha corpo, ao longo de 1978, quando o filme Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever), de John Badham, chega aos cinemas brasileiros e a novela Dancin’Days, de Gilberto Braga, faz sucesso na Rede Globo de Televisão. No ritmo mais tocado então pelas rádios, fazem sucesso junto aos ouvintes, no final da década, canções próprias – como É só dançar, lançada em 1978 pela gravadora Isaec – ou paródias – por exemplo, A nonna
 viu, uma versão de In the navy, do grupo nova-iorquino Village People, cantada sobre a base sonora original:

A nonna viu Coro (repete 10 vezes)
Eu e tu, eu e tu, eu e tu,
namorando a fu…
Coro (repete duas vezes)
Sentado no sofá da sala de estar,
só com a luz do corredor,
eu, tentado chegar mais
pra ti beijar,
agressivo e sem pudor,
Tanto tempo ali ficamos numa boa,
curtindo na escuridão,
que eu me esqueci da nonna na cozinha,
preparando macarrão
Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro  
Eu tentando te beijar Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro  
Eu tentando te agarrar Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro  
Eu tentando me passar Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro (repete três vezes)
Tu deixando eu te beijar Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro  
Tu deixando eu te agarrar Gilberto Bagual Travi
A nonna viu… Coro  
Tu deixando eu me passar Gilberto Bagual Travi

No segundo semestre de 1978, Julio Fürst transfere-se para a Rede Brasil Sul, trabalhando no projeto de estruturação da rádio jovem em freqüência modulada da RBS, coordenado por José Pedro Sirotsky e que vai dar origem à Atlântida FM. No ano seguinte, a convite de Ruy Carlos Ostermann, que dirige a Gaúcha, estréia às 13h de domingo o Discocuecas em curto-circuito, antecedendo as jornadas esportivas da emissora. Durante uma hora, a produção, previamente gravada e editada, dedica-se ao deboche sem poupar nem os patrocinadores. A Cerâmica Cordeiro, por exemplo, ganha um slogan – “O barro que não tem cheiro” –, aproveitando a liberalização dos costumes e o fim da censura.


Os Discocuecas (1983).

Na primeira meia hora do programa, o conteúdo assemelha-se ao que era transmitido na Continental. No restante, entretanto, acontece a radionada esportiva, afinal, para os Discocuecas, “jornada tem que ser em jornal”. Forma-se, deste modo, uma equipe de esportes com diversos personagens, alguns deles parodiando, no estilo ou apenas no nome, profissionais de destaque no rádio do Rio Grande do Sul. Na interpretação de Mestre Julio, escandindo vogais e reforçando os erres, o narrador principal é Golomar Ranzinza, brincadeira com o nome de Armindo Antônio Ranzolin:
– Está no aaarrr, a rrraaadionada eeesssporrrtiva. Aqui, Gooolomarrr RRRanzinza…
Acompanhando a partida, estão repórteres como o magro Pelotinha Rick Júnior – “Bah, tu viu cara? Pegou a bola, bah, bate nos peitos e, bah, é gol…” –; o afetado Luís A. de Carmine Sá, que prefere fazer a cobertura dos vestiários, em meio a musculosos jogadores de futebol; e Anacleto Batata, uma das mais populares criações dos Discocuecas. Este último, por sinal, tem algumas de suas intervenções antecedidas por uma irreverente vinheta, cantada com sotaque germânico trocando os bês por pês:
– Quem é o repórter da colônia?/ Quem é o repórter parra limpa?/ Quem é que rima com parata?/ É o alemão Anacleto Batata…
Os Discocuecas criam, ainda, Narrando Bem e Comentarinho, especializados na transmissão de improváveis competições esportivas, como jogos de amarelinha, palitinho ou cinco-marias e corridas de aro de bicicleta.

Principais personagens do programa Discocuecas em Curto-circuito
Anacleto Batata Gilberto Bagual Travi
Golomar Ranzinza Mestre Julio
Luís A. de Carmine Sá Beto Roncaferro
Pelotinha Rick Júnior Toninho Badarok
Comentarinho Toninho Badarok
Narrando Bem Mestre Julio
Johnny Tric-Tric Beto Roncaferro
Ceres Farmacinha Mestre Julio
Rancheirinho Gilberto Bagual Travi

Destaca-se, ainda, Johnny Tric-Tric, um disc-jóquei que chama suas ouvintes de “queridocas”, lança as músicas dos Discocuecas e apresenta traduções muito próprias dos hits internacionais da época. Na parte regionalista, o Teixeirinha amanhece cantando, programa então apresentado por Vitor Mateus Teixeira na Farroupilha, transforma-se em Rancheirinho enriquece cantando, com Mary Terezinha, a parceira do cantor gauchesco, tornando-se Ceres Farmacinha.
Com a saída de Ruy Carlos Ostermann da direção da Gaúcha, o Discocuecas em curto-circuito é cancelado. O grupo passa a se dedicar, então, a shows, gravando também alguns discos. Em meados de 1983, o programa volta ao ar, por um período, na Universal FM, nos sábados, das 19 às 20h. Torna-se, assim, o primeiro humorístico transmitido em freqüência modulada no Rio Grande do Sul. Nos anos seguintes, de modo esporádico, a comicidade dos Discocuecas aparece na forma de quadros em programas como Gaúcha Fim-de-semana e Gaúcha Hoje, na Rádio Gaúcha AM. O grupo despede-se em 1997, com a gravação do CD Metamorfose.
Os dados existentes indicam que o Discocuecas em curto-circuito constitui-se no último programa do gênero, no Rio Grande do Sul, a contar com um trabalho de produção semelhante ao realizado no auge do espetáculo radiofônico: texto cuidadoso, uso adequado da voz e correta utilização de efeitos sonoros. Trabalho de humor meticuloso que, seja pela sua qualidade, seja pelo deboche como crítica, faz falta ao rádio do Rio Grande do Sul e dos demais estados brasileiros.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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3 respostas
  1. Clara e tb "sra.Aldo Jung" says:

    Texto muito bom! Aliás professor, vindo do sr. não poderia ser diferente. O Aldo e o Tonho, são amigos de infância e temos nos encontrado seguido com ele em seu bar, Jonhs Pub. Um dia podemos nos encontrar lá, é só combinar.
    Abraço.

  2. Jorge Alberto Martins Nunes says:

    Só quem viveu esta época sabe o quanto bom era poder ouvir esses caras loucos, que nos davam alegria, hoje algumas rádios até copiam e imitam, mas estes foram os primeiros, tinha música da boa, na velha Rádio Continental AM, que lançou o modo FM de fazer rádio e o Júlio mandava bem com o Mister Lee, com sua chamada tradiconal “é o som que vem de lá é o som que sai daqui”. È pessoal

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