Os idosos dos Comerciais

Já reparou, prezado leitor ou ouvinte, como aparentam ser saudáveis os idosos dos comerciais? Faces coradas, pele lisinha, olhos brilhantes…

Esses idosos são durinhos na postura, ágeis, transpiram saúde por todos os poros. E exibem um sorriso campeão.

portrait-602974_1280Todos eles ignoram solenemente as doenças, os achaques, as contrariedades, as limitações. Aposentadorias minguadas, contas a pagar, pensões que acabam invariavelmente antes do final do mês? Nada disso parece existir no universo desses idosos, que são símbolos do sucesso, do pensamento positivo – encarnações de felicidade, enfim.

Bem, caro leitor ou ouvinte, essa felicidade dos idosos de comerciais é simbólica, como nós sabemos bem. Mesmo os que consideram toda ânsia por felicidade ilusória, hão de convir que essa felicidade, bem iluminada, bem vestida, bem embalada para vender, fabricada nos estúdios, ultrapassa até os limites do simbolismo e, por vezes ingressa no terreno da empulhação.

Coitados desses idosos dos comerciais! E não me refiro aqui aos atores que os interpretam, mas a esses seus personagens vinculados à manteiga, ao saponáceo, às lojas de departamento e suas mirabolantes ofertas, aos sensacionais e eficientíssimos eletrodomésticos, a tantas outras propagandas.

Coitados. Não podem esses seres, construídos no simbolismo a serviço do consumo, curtir um calo no pé, um reumatismo, uma bronquite, a inevitabilidade das rugas. Não têm dor na coluna, incontinência urinária, varizes, enfraquecimento da memória.Esses pobres idosos jamais padecem de quaisquer males, física, moral ou espiritualmente.

Tais personagens estão acima do bem e do mal, e são muito diferentes dos idosos reais, com suas limitações, sofrimentos, problemas de aparência, de dinheiro, todas essas vicissitudes e mazelas que, enfim, tornam os idosos humanos. Que os fazem frágeis, porém verdadeiros; que os dignificam perante a vida, conferindo a ela sua dimensão de veracidade, sem a qual faltam nuances, falta a profundidade das coisas realmente vividas.

Os idosos dos comerciais quase nunca estão sós. Nos casais, o belo idoso tem a seu lado a igualmente bela idosa; seus gestos de carinho e de afeto denotam um amor profundo e um entendimento completo dificilmente encontráveis na vida real, sobretudo em tempos nos quais as uniões duram cada vez menos e as brigas e separações acontecem cada vez mais.

Esses idosos são avôs irrepreensíveis. A avó que se desvela, e o avô carinhoso, entram em nossa casa quase como se tivessem o direito de nos repreender por dizermos não a netos que desejam o que não podem ter, ou que nos obrigam a reagir, educando-os, quando se revelam malcriados.

Cuidado, pois, prezados leitor e leitora, ou ouvintes: antes de exercer a obrigação amorosa de repreender, contrariar, orientar, educar, enfim, preparando seus netos para a vida, observem se um desses idosos ou idosas de comercial não os está observando, achando sua atitude um absurdo e fuzilando-os com um olhar de esguelha, enquanto abre um sorriso e recita as vantagens imensas de um novo tratamento dentário ou de um remédio infalível contra a prisão de ventre.

Pobres idosos dos comerciais. Daqui, de nosso mundo imperfeito, cheio de sofrimentos, limitações, desorientações, carências, incompreensões, mas igualmente em meio à verdade de nossa vida, da nossa curtição de todas as coisas, boas e más; daqui, com nosso sorriso carregado das rugas, que são as marcas da vida vivida, de nossa experiência; daqui, de nosso cotidiano de verdades, onde podemos até ser abandonados pelos filhos, netos e parentes em geral; daqui, enfim, deste mundo real, duro porém maravilhoso, lamentamos por vocês, pela falsidade que tão bem representam, pelas propagandas enganosas que ajudam a veicular, pelo que contribuem para um mundo sem os valores pelos quais vale a pena viver.

Vocês, infelizes idosos dos comerciais, não nos representam. Absolutamente não. E jamais conseguirão simular fidedignamente nosso vestir desalinhado, nossa pele ressequida, nossos dentes imperfeitos, nosso sorrisos sinceros, nossa alegria genuína, nosso cabelo encanecido pelo banho de neve do sofrimento ou as rugas que formam o mapa de sulcos profundos, apontando o roteiro que seguimos em nossa existência verdadeira.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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