Os inesquecíveis

Nada havia sido combinado; eles estavam há muito tempo sem se ver.

Numa bela manhã de outono, na rua Felipe Schmidt, no Centro de Florianópolis, aconteceu o encontro, daqueles que pode-se dizer, que se fosse combinado talvez não daria tão certo.

O sr. Bom Dia caminhava lentamente quando viu dona Esperança saindo do ARS. Antes que ele abrisse a boca para cumprimentá-la ela o viu e disse com alegria:

– Sr. Bom Dia, que prazer encontrá-lo! Como tem passado?

– Bom dia, dona Esperança. Eu estou muito feliz em vê-la. Poxa, fazia tanto tempo que não a via e sem o seu contato, estava quase perdendo as esperanças.

– Ora, não diga isso, não para mim, seu Bom Dia.

– A senhora está certa. Perdoe-me, por favor!

– Sr. Bom Dia, como diz o ditado, esse não morre mais. Veja quem está vindo todo sorridente em nossa direção; o sr. Por Favor.

– Dona Esperança, sr. Bom Dia, que honra encontrá-los, e quantas saudades.

– Pois o amigo não vai acreditar – diz seu Bom Dia – havíamos acabado de falar em, por favor.

– Não?! E eu que pensei estar em extinção.

Dona Esperança sorri e diz com toda sua delicadeza:

– Ora, que bobagem diz o meu grande amigo. A sua essência, a sua elegância, sr. Por Favor, existiria mesmo que só houvesse o vento, até ele sopraria um canto de por favor, só para abrir sua passagem.

– Dona Esperança, seu nome não lhe confere apenas sua beleza, mas o verdadeiro crer do seu nome.

– Pura gentileza sua, sr. Por Favor.

– Olá meus preciosos amigos. Que deliciosa coincidência encontrar vocês juntos – diz dona Gentileza, que acabara de ver os amigos reunidos.

– Dona Gentileza, que prazer em vê-la. Junte-se a nós, por favor – convida gentilmente o seu Bom Dia.

– Bem, que tal caminharmos até a Praça XV? – Pergunta seu Por Favor. Todos concordam e iniciam uma caminhada aparentemente curta, mas com um caminho ainda cheio de surpresas. Quase em frente à livraria Catarinense os amigos avistam o sr. Obrigado.

Seu Bom Dia diz em alta voz:

– Obrigado, meu amigo. Que bom encontrá-lo. Veja quem está comigo – Sr. Obrigado, visivelmente emocionado, diz:

– Dona Esperança, dona Gentileza, seu Bom Dia, seu Por Favor. Poderia dizer que meus olhos estão irritados, mas é emoção de rever os amigos; e assim, todos juntos.

– E não foi nada combinado – diz seu Por Favor. E acrescenta – Estamos indo até a Praça XV, nos dê a honra da sua companhia.

– Seu Por Favor é de tal grandeza o seu convite que soa como uma ordem a ser cumprida com inigualável satisfação. Vamos, por favor!

Bom dia! – ouvem os amigos e olham para trás, é dona Educação.

Os amigos, dona Esperança, dona Gentileza, seu Bom Dia, Seu Por Favor e seu Obrigado, encantados com a amiga a beijam, a abraçam e a convidam a seguir a caminhada. Quando estão prestes a atravessar a rua em direção à praça, ouvem:

– Boa tarde! Por favor, me esperem – É ela, dona Boa Tarde que já vem chegando e se junta a turma de bons amigos. Eles aguardam que o sinal lhes indique o momento de atravessar a rua e fazem uso da faixa de pedestres. Já embaixo da Figueira que ao passar do meio-dia oferece refrescante sombra os amigos, Bom Dia, Por Favor e Obrigado esperam que Gentileza, Educação, Esperança e Boa Tarde se sentem primeiro, primeiro as damas. Nesse momento ouvem um elogio; e é ele mesmo, o sr. Elogio. Ele faz questão de dizer que os velhos amigos que há tempos não via não perderam o seu jeito, que continuam fazendo jus aos seus nomes e lhes derrama elogios. Dona Educação sorri e diz ao amigo recém chegado:

– Ah, sr. Elogio, que falta o senhor nos faz em nosso dia a dia. O senhor expressa de maneira maravilhosa um senso de reconhecimento tão importante que deveria virar um acessório obrigatório.

– Bondade sua, dona Educação. Mas diante a senhora e aos demais amigos, não há o que me cale.

– Vejam, a dona honestidade vai passando logo ali – diz seu Obrigado. Dona Boa Tarde levante-se e mesmo não querendo falar alto demais para não chamar a atenção, diz em tom levemente mais elevado:

– Oi. Honestidade. Honestidade… – Finalmente ela os vê e se junta ao grupo.

A conversa segue tanto animada quanto saudosista. Vários dos amigos ali reunidos se sentem abandonados, quase que extintos mesmo.

Alguns que passam os reconhecem e se encantam, outros já ouviram falar sobre eles, mas não dão atenção e para outros os inesquecíveis amigos passam totalmente despercebidos.

A conversa segue regada à educação, à gentileza; não faltam – muito obrigado, por favor. O grupo de amigos é mais uma vez surpreendido por mais um companheiro que diz gentilmente:

– Boa noite!

– Sr. Boa Noite – diz cheia de encantos dona Gentileza – estamos há horas conversando, que bom que o amigo apareceu.

E a velha Figueira da Praça XV de Novembro foi testemunha daquela conversa. Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite, Gentileza, Educação, Honestidade e Esperança. Mesmo sem ouvidos a veterana árvore serviu de sombra e abrigo para um encontro muito especial, talvez se a Figueira falasse, diria que foram horas inesquecíveis.

– Ouvimos sobre a falta de educação; que a honestidade ficou famosa, afinal de contas, quem a pratica vira notícia nacional; sobre a raridade do bom dia, boa tarde e boa noite. Ah, que dizer da gentileza, a sublime gentileza. Gestos e atitudes que ficaram no passado – Diz seu Por Favor e em seguida tem receio de ter magoado pelo menos duas amigas. Ele levanta-se e fala:

– Perdão, dona Honestidade e dona Gentileza. Sinto que fui grosseiro em meu comentário.

– Não peça desculpas, sr. Por Favor; não o senhor e nenhum dos amigos aqui – o conforta dona Gentileza e tem o apoio da amiga Honestidade.

– Com licença. Boa noite!

– Boa noite, meu amigo Licença – diz já em pé e com a mão estendida o sr. Por Favor.

Dona Educação conta ao sr. Licença que haviam se encontrado no final da manhã, passou à tarde e chegou à noite e eles não queriam e não conseguiam encerrar a conversa. Nenhum dos amigos queria ser o primeiro a se despedir. Confirmou dona Educação que era um momento tão raro e quase que mágico. Afinal de contas o que havia de incomum entre todos e lhes causava tristeza era o fato de todos se sentirem esquecidos, de que talvez um dos amigos talvez tivesse mesmo razão quando horas antes disse que achava estar em extinção. Por que tantas pessoas esqueceram de nós; e mesmo os que sabem da nossa existência nos evitam; se questionavam os amigos.

– Eu tenho algumas horas até o amanhecer, mas preciso dizer boa noite aos estimados amigos – diz o sr. Boa Noite. Recebe o carinho e abraços de todos os amigos e se afasta.

Em seguida um a um tanto com emoção quanto com carinho se despede e segue seu caminho. O encontro havia começado quase no final da manhã do dia anterior e agora o sol já aparecia e iluminava boa parte da Praça XV de Novembro. O primeiro a encontrar os amigos ainda está ali. É o sr. Bom Dia. Ele se levanta e dá seus primeiros passos e decide apresentar-se a cada pessoa que passar por ele; não importa a idade e se há pressa dos que por ele passarem. Ele simplesmente diz a cada um com iluminado sorriso e especial brilho nos olhos:

– Bom Dia!

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