Os inimigos do rádio – de ontem e de hoje

A necessidade de escolher um tema me leva, muitas vezes, a buscar inspiração na  “bíblia” do rádio catarinense, o livro Caros Ouvintes  de Antunes Severo e  Ricardo Medeiros. Um de seus capítulos foi denominado de Inimigos do Rádio. Vale a pena recordar um pouco o passado e ver o que acontece hoje: quais inimigos foram vencidos e quais ainda jogam contra o rádio contemporâneo.
Por Chico Socorro

Os autores começam o capítulo afirmando que em nosso país o “rádio nasceu pobre e capenga. E, por ironia, no Centenário da Independência, em 7 de setembro de 1922.
Em 1931, o Governo Federal regulamenta o funcionamento de sociedades de radiodifusão e permite que sejam difundidos programas de entretenimento, de música popular e de textos publicitários “.
Como se observa, o rádio mal tinha nascido e   o Estado já o colocou sob as suas asas “protetoras”.
Alguns anos depois, em 1935, seria criado o famigerado programa chapa branca A Hora do Brasil que conseguiu resistir  bravamente até os dias de hoje, apesar de todos os esforços dos radiodifusores visando extingui-lo.
 
O livro já referido nos informa também que em 1939 existiam cerca de 500 aparelhos de rádio espalhados em todo o país e   que, na hora do programa do Governo, a audiência caia a níveis próximos de zero. O que, diga-se, não é muito diferente dos dias atuais.
Nesse mesmo ano de 1939, era criado aquele que foi um dos mais odiados instrumentos de repressão da  Ditadura Getulista, o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda  que, por sua vez, instituiu imediatamente a censura prévia no rádio e em toda a mídia impressa.
 
Resumindo, o Estado tem sido, historicamente, um inimigo do rádio e da imprensa livre em geral.
Desde 1985, com a redemocratização do País, a censura  prévia deixou de existir.
Um aspecto curioso abordado no livro refere-se a dois inimigos do rádio de seus primórdios e que hoje, felizmente, não existem mais: o vizinho e o intelectual – este último entendido como o ideológico, radical.
Vale a pena transcrever uma espécie de código vigente nos Estados Unidos e Europa nos anos 30 e 40 do século passado e que certamente teve os seus defensores entre nós naqueles tempos. Vejamos quais eram as suas regras:
:: Lembre-se que a seu lado vivem pessoas de inclinação [ideológica] diferente;
:: O rádio é seu, mas o som ultrapassa as paredes de sua casa;
:: Um aparelho com tais defeitos precisa ser controlado;
:: Durante o dia, o rádio pode ser apenas uma impertinência; à  noite, com certeza, ele é um objeto de tortura;
:: Nem todos vivem como você, que não trabalha e anda sempre de rádio ligado;
:: Rádio funcionando à noite é um mau hábito que precisa ser corrigido;
:: Se não estiver disposto a sofrer restrições, procure viver numa casa isolada.
O conteúdo como inimigo do rádio
É claro que o conteúdo de muitas rádios ainda deixa a desejar.  No meu entendimento, a  análise feita por Antunes Severo e Ricardo Medeiros no livro que é fonte deste artigo continua válida e, portanto,  justifica-se a transcrição literal deste trecho eloquente:
“ O que não falta nas ondas do rádio da região de Florianópolis é música de todos os estilos, muitos brindes e brincadeiras para entreter os ouvintes. No entanto, quando se fala em um rádio comprometido com a Informação e com a Cultura, a radiodifusão local preenche a sua programação com “silêncios”. Com exceção da CBN Diário, que se dedica 24 horas ao jornalismo, a região carece de outras emissoras do gênero. O abismo é ainda maior quando se fala em rádio engajado culturalmente”.
A Publicidade de baixo nível de qualidade também joga contra o rádio
Um outro inimigo que ainda persiste em parte no  rádio é, em alguns casos, principalmente nas rádios AM, a publicidade de baixo nível de qualidade. Ela é, em geral, produzida diretamente pelas rádios. Esse assunto já foi objeto de comentários do articulista em outro artigo.
Uma pérola do mau gosto publicitário
É claro que hoje estamos muito distantes de barbaridades como a que reproduzimos a seguir, extraída também do livro Caros Ouvintes, um exemplo extremo do mau gosto  publicitário, cometido por um fabricante de  panelas:
“—Minha senhora! Dê um pau na cabeça de seu marido; dê-lhe uma bengalada, um tiro. Se ele não morrer, meta-lhe na cara uma panela da casa tal porque as panelas desta casa são inquebráveis…”.


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