Os intelectuais e a espantosa veneração pelo despotismo

Sou de uma geração que foi estimulada (ou treinada?) a curvar-se e reverenciar os ditos intelectuais revolucionários, os de esquerda. Óbvio, pois os de direita eram comprometidos com a sociedade burguesa, capitalista, opressiva, desumana. Quem se debruça sobre o tema do intelectual, como Norberto Bobbio, por exemplo, tem diante de si algo complexo, eu abordo, porém, com a limitação da planície. Nós éramos os ignorantes que esperavam a luz através da sabedoria que viria desses seres iluminados.

Alguém que praticamente competia com os deuses.

Diziam-nos que o intelectual era pessoa que usava o “intelecto” para estudar, refletir ou especular acerca de ideias complexas e, a partir disso, produzir ensinamentos de altíssima relevância social e coletiva de fácil compreensão pelo povo. No caso do intelectual revolucionário fazia isso mirando a plebe ignara. Por que ela? Simples, caberia à plebe ignara o papel de conduzir a revolução redentora do homem novo.

Bobbio, conterrâneo da Fábrica Italiana Automobilística de Turim diz que o termo intelectual costuma ser usado “quando se fala da incidência (ou falta dela) das ideias na conduta dos homens em sociedade, em especial dos governantes atuais e futuros. Mais particularmente quando se fala de um sujeito especifico, ou para ser mais exato, de um conjunto de sujeitos específicos considerados como criadores, portadores e transmissores de ideias.” Ou seja, seriam seres pensantes. E, por isso, especiais. Assim, só para ilustrar, Giovanni Agnelli, criador da FIAT e o neto Gianni que depois assumiu a empresa não podem ser considerados intelectuais. Capisci?

O homem que nasceu dez anos depois da FIAT cutuca a onça e diz que o termo intelectual é axiologicamente ambivalente, algo que ninguém ensinou aos da nossa geração. “Por trás da figura do intelectual-guia sempre aparece a figura oposta, do tentador, do corruptor, do falso pedagogo, do falto profeta, do demagogo; por trás da figura do intelectual-guardião dos valores eternos surge a figura contrária do inepto, do descarado, do decadente, se não até do parasita.” Pode? Claro, somos do mesmo barro!

Como nada é sólido em pântano, George Sorel, contemporâneo da família que fez famoso o automóvel Peugeot põe lenha na fogueira: “eles (os intelectuais) não são, como se diz com frequência, os homens pensantes: são os que fazem do pensamento uma profissão e recebem um salário aristocrático em razão da nobreza dessa profissão.” Pode? Claro, somos todos do mesmo barro.

Pelo sim, pelo não, o estranho é a espantosa veneração religiosa que parcela expressiva dos chamados intelectuais de esquerda devota aos déspotas. Jamie Glazov, o americano cuja família fugiu da tirania de Leni/Stálin diz que isso se dá por absoluta alienação de tais intelectuais da sociedade em que vivem e por isso, defendem explodir tudo, fazer mudanças radicais – como fomos ensinados. Não sei de Glazov está correto, mas é bom apelar aos psiquiatras para entender porque a violência exerce fascínio em gente letrada, porque facínoras de esquerda como Stálin, Lênin, Mao, Ceausescu, Kim Il-Sung, Pol Pot, Hoxha são admirados? (Contraponto: por que facínoras tidos como de direita Hitler, Pinochet, Videla são vilipendiados?). Coisas da vida.

Pois é, com Joãozinho Trinta, um filósofo da vida carnavalesca, os brasileiros já haviam descoberto “que o povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” e que… deixa pra lá

* Membro da Academia Passo-fundense de Letras

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