Os jornais, as primeiras redes e o lugar Florianópolis – Parte 2

Embora tenha se expandido a partir da década de 1960 — na esteira do desenvolvimento econômico iniciado com JK (1955-1960) —, se modernizado tecnicamente nos anos 70, a imprensa catarinense só se profissionalizaria nos anos 80, (PEREIRA, 1992 apud FERNANDES, 2000), com grande influência da entrada do grupo gaúcho RBS – Rede Brasil Sul, com o lançamento da TV Catarinense, em 1979, e com destaque para a publicação do Diário Catarinense, em 1986.

Pouco mais de um século antes, quando os jornais ainda eram ligados direta ou indiretamente ao poder público, operando com finalidades políticas e tendo como público os funcionários do governo e militares — a elite local —, o mesmo poder público motivava a conexão da província e depois do estado de Santa Catarina às primeiras redes de comunicação. A cidade foi a primeira em Santa Catarina na adoção de novas tecnologias da comunicação que influenciaram significativamente a indústria de mídia — como o telégrafo e a internet — e em tempo próximo às principais cidades do país.

A conexão com a rede telegráfica começou em janeiro de 1867, através da ligação de Desterro com Laguna. Quinze anos antes havia sido feita a primeira ligação telegráfica no país, entre a Quinta Imperial e o Quartel do Campo, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi criada uma pequena rede, ainda nos limites do Rio de Janeiro e interligando quartéis militares. Os serviços telegráficos foram franqueados ao público em 1858, na linha Rio – Petrópolis. A primeira linha a sair do estado do Rio de Janeiro foi motivada pela Guerra do Paraguai (1865/1870), a fim de conectar a capital do império com Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre.

“Por uma questão de segurança e estratégia militar” (Fernandes, 2000), a Guerra do Paraguai acelerou a inserção da capital catarinense no sistema de comunicação telegráfica. Depois da ligação com Laguna, ainda em janeiro de 1867 a cidade interligou-se com o Rio Grande do Sul (dia 6/01). A ligação com Itajaí aconteceu no dia 31 do mesmo mês.
A interligação da Ilha de Santa Catarina com outros países começou a ser construída em 1872 pela empresa inglesa Western Telegraph (WT). Dois anos depois, em 1874, cabos submarinos manufaturados pela Siemens colocaram Florianópolis em contato com o Rio Grande (RS) e Santos (SP). Os sinais elétricos do código morse partiam da agência da WT localizada na Praça XV — em 1923 a empresa transferiu-se para a rua João Pinto —, passavam pela Costeira do Pirajubaé, iam até a praia do Campeche, e, a partir daí, se bifurcavam para as duas cidades que eram nós de redes internacionais. De Santos e Rio Grande as mensagens podiam fluir para a América do Norte, Europa e África. Também em 1874 o Brasil inaugurava seu primeiro cabo submarino (produzido e colocado pela Telcon) através do Atlântico, ligando a América do Sul à Europa, saindo do Recife até São Vicente (Cabo Verde), que se ligava a ilha da Madeira e então a Carcavelos, em Portugal.

Até meados da década de 50 o telégrafo era o meio de comunicação mais usado pela população (MENEZES, 2001). Não raro as pessoas ficavam esperando na frente do “Cabo Submarino” — como era chamada na Ilha a agência de telégrafos — por respostas para os telegramas que haviam acabado de mandar. Até 1960, os quatro principais cargos da Western Telegraph em Florianópolis pertenciam à funcionários ingleses. “A partir de um determinado momento, a legislação determinou a implantação de um curso para formar brasileiros para as funções de engenharia”, explicou Ernani Carioni, o primeiro ilhéu a atuar como gerente técnico de comunicações depois de fazer um curso em São Paulo com apenas oito pessoas de todo o Brasil.

Em 1961, a WT chegou a solicitar ao presidente Jânio Quadros a permanência após o fim do seu contrato de concessão, mas o pedido foi negado em função da criação da Embratel, que passou a controlar as comunicações no país em 1963. (checar) A empresa inglesa operou em Florianópolis até 1973, completando cerca de um século de atuação local.

Quatro anos depois dos cabos telegráficos terem conectado Desterro com redes internacionais através de Santos e Rio Grande acontecia a primeira experiência com comunicação telefônica na capital, em 1878, um ano depois da instalação da primeira linha no Brasil e dois anos depois do experimento de Graham Bell, nos Estados Unidos. Este ensaio usou cabos da rede telegráfica que ligava a estação da Ilha (largo do Palácio do governo) com a estação do Estreito (SANTOS, A. 1999). As funções de centro administrativo da província foram fundamentais para a cidade ter condições de realizar tal iniciativa isolada e, em 1884, ver instalada pelos funcionários do Telégrafo do Estado a primeira rede telefônica de Santa Catarina, de uso exclusivo do serviço público. “A configuração inicial da rede também foi forjada pelas ações de planejamento e gestão de governo”, analisa André Santos (1999).

Na época, a imprensa travava debate sobre “as necessidades e possibilidades” da telefonia para o serviço público. (SANTOS, A. 1999: p. 23). Havia os que julgavam melhor para a administração investir o dinheiro dos aparelhos em outras prioridades enquanto o outro lado defendia que o uso do telefone “tornaria mais acelerado” o trabalho nas repartições “pela facilidade de obter informações imediatas”.

De acordo com André Santos (1999, p. 32) “em 1909 a rede de Florianópolis já estava instalada, com poucos assinantes, todos da classe dominante”. No entanto, os assinantes residenciais eram minoria no início da telefonia, usada – além do serviço público – principalmente por empresas comerciais. A entrada das indústrias na rede telefônica ficava prejudicada por sua localização geralmente fora dos núcleos urbanos.

Em 1910, o telefone era usado por menos de 1% da população. Dos 251 usuários da rede telefônica em Florianópolis, 121 eram linhas residenciais, 43 do serviço público, 26 empresas comerciais, 14 fábricas, 14 empresas de serviço, 17 empresas não identificadas e outros (SANTOS, 1999, p. 39). Nesta década, a telefonia possuía pequena abrangência territorial e era pouco difundida em Santa Catarina(e no resto do país?/mundo). Dos 26 municípios catarinenses da época, apenas outros três além da capital tinham telefone: Joinville, Itajaí e Blumenau, sendo que apenas em Florianópolis e Joinville havia serviço telefônico para assinantes, formando uma rede municipal (em 1913, estas duas cidades tinham 220 e 165 assinantes cada uma, respectivamente). Nas demais localidades existiam linhas isoladas ou pequenas redes privadas para uso de empresas.

A rede intermunicipal catarinense começou a ser delineada a partir de 1927. Neste ano, a Companhia Telefônica Catarinense (CTC), de propriedade de Juan Ganzo Fernandes foi a única participante da concorrência que definiu a empresa que instalaria e exploraria a rede telefônica na capital e a rede intermunicipal. Florianópolis foi o principal nó na fase inicial da rede telefônica catarinense, que se desenvolveu a partir da capital para as outras cidades mais importantes do litoral e numa segunda fase expandiu-se para o interior.

A lógica que definiu a configuração espacial da telefonia interurbana em Santa Catarina privilegiava a integração territorial em função da importância econômica dos lugares e da rentabilidade dos investimentos. A expansão da rede entre 1927 e 1940 era exclusiva para os grupos que tinham o poder político e o econômico (SANTOS, 2005, p. 181).

Os comerciantes foram os primeiros a adotar o uso do telefone. Em 1928, dada a importância do capital comercial de Florianópolis no contexto regional, a companhia Hoepcke era e a maior cliente particular da CTC em Florianópolis. Em 1944 a empresa tornou-se o maior cliente estadual em número de linhas. A estratégia de desenvolver a rede primeiro no litoral como “fomento a integração das cidades” (o projeto do governo) também se deve a localização das filiais da Hoepcke (objetivo do capital, da CTC), que dependia do transporte marítimo. “Equipamento usado principalmente para negócios, sua distribuição espacial refletia a organização espacial do comércio e das instituições públicas”, afirma Santos sobre o telefone.

Pelo menos até 1960, Florianópolis ainda concentrava a maior parcela dos usuários de telefonia do estado. Com população urbana de 3,7% da população de Santa Catarina, a capital possuía 28,9% das linhas telefônicas. Blumenau era o segundo município com maior concentração de linhas, 13,5% do total, enquanto a população do município era de 3,1% da população catarinense. A distribuição da rede não refletia a distribuição populacional ou das cidades pelo território.


Este texto faz parte da dissertação de mestrado Implicações da internet nos jornais e a presença da RBS na web. Veja neste link outros trechos publicados no Caros Ouvintes e aqui a íntegra deste trabalho, que busca analisar as implicações do desenvolvimento da internet na mídia, com ênfase nos jornais, partindo de Florianópolis para a abordagem do tema, buscando a manifestação local deste processo mundial. O autor optou pelo estudo de caso da RBS devido à atuação em jornais e internet, além de outras mídias, à posição de referência e líder de mercado na região Sul e ao papel pioneiro da empresa na convergência entre mídia e telecomunicações no Brasil.

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Por Rogério Mosimann

Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1995, ano em que lançou seu primeiro site e abriu sua segunda empresa: Infomídia Comunicação e Marketing, onde atua até hoje com desenvolvimento de sites, marketing digital, assessoria de imprensa e soluções integradas para comunicação de empresas e organizações não-governamentais. Pioneiro da internet brasileira, possui cinco anos de experiência como professor de mídia digital em cursos de jornalismo e publicidade. É mestre pelo departamento de Geociências da UFSC.
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