Os lábios do Val Kilmer

Rogério era conhecido como um dos maiores machões do bairro Bela Vista. Para ele um homem deveria se limitar a higiene, tudo mais era “frescura”. Até o primeiro nome do bairro, Bela, o incomodava, achava que podia ser: Boa Vista. No trabalho, como pintor, não dava chance a demonstrações de delicadezas. A maneira de pegar as ferramentas, de falar, de usar as roupas. Ou se comporta como macho ou é “fresco”. Preferia usar o palito de dente a usar o fio dental. Achava coisa feia o uso de fio dental só pelo nome – fio dental – onde já se viu? Dizia o machão. Ele não percebia que ficar com a mão cobrindo a boca enquanto limpava os dentes com o palito não é nada higiênico.

Banho tinha que ser frio. Até sua mulher sofria com seu estilo “machão”. Nada de muitos esmaltes. Sem essa de inventar modas com os cabelos. Um dia um dos filhos chegou em casa usando um anel e já ouviu a bronca do Rogério:

– Que isso, rapaz? Macho que é macho usa no máximo um relógio. E relógio de homem, não essa “frescurada” de reloginho colorido.

O filho tinha feito um furo na orelha, mas guardou o brinco no bolso, pensou em primeiro testar o pai, por isso colocara primeiro o anel.

Quando ia a barbearia todos já sabiam sua frase assim que sentava na cadeira do barbeiro:

– Corte de macho, Zé, corte de macho.

Tentar lhe aparar as sobrancelhas poderia gerar uma briga. Fazer as unhas então seria uma afronta, passar base, seria briga na certa.

Tudo em torno de Rogério lembrava um verdadeiro e típico “machão”. O jeito de bater a porta do carro, a maneira de dirigir, de andar e de cuspir.

Certo dia na barbearia Rogério surpreendeu alguns clientes conversando sobre novela. Disse a eles que novela era coisa de “mulherzinha”, homem fala é de futebol. Encerrou-se a conversa e passaram a prestar atenção ao filme que passava na televisão. O filme – A Sombra e a Escuridão, de 1996, contava a história de dois leões que aterrorizaram certa região da África no final do século XIX. Pensaram que agradariam mais a Rogério vendo junto um filme em que os personagens tinham que ser muito machos para enfrentar aqueles leões. E assim seguiram os comentários:

– Os caras tinham que ser muito machos para encarar aquelas feras – disse Leonardo. Só que Rogério achava que “feras” era linguagem de fresco, o certo seria bichos brabos ou simplesmente leões. Logo alguém começou a tentar acertar os nomes dos atores.

– O mais velho é o Michael Douglas – disse Antonio. Ninguém discordou. Leonardo seguiu:

– Agora esse mais jovem é o…

Todos aproximaram a cabeça em direção a TV e franziram a testa buscando na memória o nome do jovem ator. Não demorou muito e o machão da turma disse com convicção:

– É o Val Kilmer. Ele fez o Batman. Eu o reconheci pelos seus lábios.

O barbeiro quase largou a tesoura. Antonio ficou de boca aberta. Seu João quase deixou cair à dentadura. Leonardo levou a mão à boca. Mas ninguém teve coragem de pedir que ele repetisse a afirmação. Contariam aos amigos, ou guardariam a frase como eterno segredo? Logo o Rogério havia reconhecido o Val Kilmer, e pelos seus lábios.

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