Os olhos

Numa manhã de sexta-feira a turma em peso estava reunida na barbearia do Otávio.

Os olhos de todos voltados para o antigo e charmoso rádio do barbeiro; como se fosse necessário olhar para o rádio para ouvir o radialista. Mas há coisas na vida que dispensam explicações; ora são manias ora tais explicações iriam longe demais.

Talvez os olhares do barbeiro, Otávio e dos clientes amigos, Felisberto, dr. Araújo, Juvenal, Cláudio e seu Victor se desse pelo comentário do também cliente e amigo, o radialista Álvaro Antunes Carriel, que comanda o principal programa das manhãs na rádio Capital de Florianópolis. O amigo radialista falava sobre a copa do mundo:

– É incrível que a mesma população, a mesma sociedade que reclama as injustiças, as misérias, os salários exorbitantes dos políticos e sua corrupção, dos estádios construídos no Brasil para a copa de 2014; que há poucos dias queriam mudanças políticas e sociais esteja agora simplesmente feliz da vida. A copa do mundo vai começar. E a seleção vai até aonde? E se o Brasil for campeão, o que haverá de melhoras para o país, para Santa Catarina, para a Grande Florianópolis? Nada! Só mais algumas semanas de ilusão. Nada além de ilusão.

De repente os olhares se voltam para um duplo, bom dia Trata-se de pai e filho entrando na barbearia. Ainda não eram clientes, mas já se sabia (e o que não se sabe numa barbearia?), que o pai era cego e o filho um grande companheiro. Otávio e todos os clientes devolvem um caloroso bom dia. Por mais duras que as pessoas sejam, por mais durões que alguns pareçam ser; um homem cego acompanhado de um carinhoso e educado filho faz qualquer pessoa com alguma sensibilidade sentir certa emoção, ainda que velada.

O barbeiro inicia seu trabalho perguntando primeiro, como de costume, o nome do cliente. Ele responde que se chama João Rodrigues. Em seguida a costumeira pergunta; como o cliente deseja seu corte de cabelo. A partir daí os olhos e atenção de todos se voltam firmemente as palavras que se seguem. Seu João Rodrigues diz ao filho:

– Bruno, meu filho, por favor, diga ao amigo barbeiro o jeito que eu gosto

Dada a explicação sobre o corte o barbeiro inicia a conversa com uma plateia que já não olha mais para o rádio. Felisberto toma a liberdade de baixar o volume do elegante companheiro.

– Seu João, o senhor me desculpe, mas o que houve com os seus olhos, quero dizer, com a sua visão? – Pergunta o barbeiro.

– Seu Otávio, é esse o seu nome, não é? – o barbeiro responde que sim – então, há 20 anos eu estava como se costuma dizer, na hora errada e no lugar errado. Eu estava em um bar; ainda morava com a minha esposa no interior do Paraná. Fui com meu já falecido sogro a um bar. Logo começou uma briga das feias. Meu sogro era um homem pacificador, e creio que eu também. A briga era entre dois amigos; pelo menos até começarem a briga. Meu sogro e eu pensamos em apartar os dois, em acalmar a situação, mas de repente, um deles puxou uma espingarda e atirou no amigo. No amigo o tiro atingiu o ombro direito, mas eu estava perto o suficiente para ter meus dois olhos atingidos em cheio pelos estilhaços. Só três dias depois fui informado pelo médico de que minha situação era irreversível. Eu perdi ali três coisas que julgava as mais importantes e tinha como pontos altos em minha vida. Primeiro, a perda da visão que traria as outras duas perdas. Perdas de dois sonhos. Minha esposa estava grávida de 5 meses e eu não poderia ver o rosto do meu filho ou filha. E por fim, não poderia mais realizar meu sonho de conhecer o Pantanal. Foi difícil demais.

Vários dos amigos ali reunidos disseram palavras de lamentações. Alguns deixaram que uma lágrima escorresse. Felisberto, o machão da turma fora o primeiro. Quando Juvenal o olhou ele levou a mão à boca, tossiu e disse algo sobre o clima; desculpa esfarrapada.

As atenções se voltam para seu João. Ele surpreende a turma mais uma vez.
Otávio pergunta como ele lidou ou tem lidado com fato do rosto do filho e de não conhecer o Pantanal. Seu João, responde:

– Primeiro, com respeito ao meu filho, Bruno, hoje com quase 20 anos; creio que conheço ele tão bem; a imagem do seu rosto já foi montada em minha mente há muito tempo. No começo não. Nos primeiros dias, semanas e meses eu o pegava no colo e chorava. Pedia a Deus 5 segundos para olhar para o rosto do Bruno. Apenas 5 segundos para olhar nos seus olhos e conhecer seu rosto. Queria um milagre de 5 segundos. As coisas não aconteceram como imaginei. Sempre fomos muito próximos, eu, minha esposa Rosângela e o Bruno. E sem contar que há 3 meses conheci o Pantanal. Então, meu amigo barbeiro e os que estão ouvindo, meus sonhos têm se realizado.

Juvenal se levantou e aproximou-se da cadeira do barbeiro. Comovido com o que tinha ouvido até então e com receio de falar alguma besteira, colocou a mão sobre o ombro direito do homem cego e disse:

– O senhor, por favor, me perdoe, mas por que visitar o Pantanal sem poder enxergar nada?

Seu João sorriu e disse:

– Como o amigo diz que não enxerguei nada? As cores das plantas; de cada árvore, de cada flor; seus aromas. E os animais. Jacarés e até uma onça deu o ar de sua graça. O amigo talvez não tenha entendido, mas explico. Os aromas pude sentir. Consegui até alguns arranhões entre galhos e escorregões. Mas os meus olhos foram os do Bruno. Eu estou com 50 anos de idade, e antes de ficar cego havia visto imagens na TV e em revistas sobre o Pantanal. Daí a minha vontade, meu sonho em conhecer aquele lugar. Por isso posso dizer que conheci o Pantanal há 3 meses. Meu filho me narrava cada detalhe. Sabe quando ouves um bom narrador de futebol pelo rádio? Os olhos do meu filho se tornaram os meus olhos durante a minha vida. Foi então que parei de lamentar. Em especial quando ele me cedeu o vislumbre daquele lugar. Amo o olhar do meu filho!

O barbeiro terminou o corte. Seu João disse ao filho:

-Que tal, Bruno. Como estou?

– A cada dia melhor, pai.

Bruno pagou o corte. Pai e filho se despedem e saem. Otávio e os demais amigos se olham; não dizem uma palavra sequer. Apenas se olham.

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