Os protestos & a corrupção

Depois da maratona da sexta-feira 13 e do domingo 15 em que milhares sacudiram a poeira da passividade, algo ficou claro: caso a corrupção não tivesse alcançado o nível estratosférico de hoje ninguém teria saído de casa para protestar. Tanto na peregrinação de sexta, simpática ao governo, quanto na de domingo, áspera ao Palácio do Planalto, os gritos contra a corrupção foram ouvidos em todos os quadrantes.

A pauta de reivindicação foi ampla: segurança, educação, saúde, juros, menos impostos, gasolina mais barata. Os pedidos foram aos extremos, ou seja, do fora PT, impeachment para Dilma e até, pasmem, ao retorno dos militares ao poder. Entre tais motivações nada que não ocorra em qualquer sociedade democrática, mesmo quando se aponte alguns exageros. Ao final e ao cabo ficou, para felicidade geral, tudo dentro do pluralismo cujo limite é o pacto social que mantem a democracia.

Merece destaque quem usa de dois pesos e duas medidas com cara de pau. Logo que o FHC assumiu seu segundo mandato o PT foi às ruas com um “fora FHC”, algo tido como exercício democrático e não golpismo. Por que, então o “fora Dilma” (tão ridículo quanto o outro!) é tido como golpismo? A linguagem da pelegada não é fácil.

Repetimos: nos mar de reivindicações que tirou o brasileiro do comodismo um ponto de convergência esteve presente nas manifestações de rua: a corrupção. Como salientamos, teve de tudo, mas nada que, individualmente tivesse força suficiente por si só para mobilizar quase dois milhões de brasileiros.

A sutileza, nos dias de hoje, quando se fala em corrupção, é se ela seria a maior da história. Perceberam a ironia? Para quem é de direita, para quem se situa no centro, para quem se diz de esquerda a corrupção está nos engolindo. A incógnita é se ela é a maior da história! Dizer que “nunca antes se roubou e se corrompeu tanto neste país” ofende ouvidos mais sensíveis.

Quando alguém ousa dizer que “nunca se roubou tanto” é logo contestado com fúria. Sobre esse tema tão caro para o momento nacional um amigo me remeteu texto do jornalista Juca Kifouri, que, em dado momento afirma categoricamente: “vamos parar com a hipocrisia de dizer que jamais se roubou tanto porque isso simplesmente não é verdade.” Vamos lá, diante de minhas limitações indago, sem querer ofender: corromper menos pode? Roubar menos pode?

Acho isso genial, sim, estamos roubando, mas houve um tempo que roubavam mais! Quem roubou mais? Afirmação dessa natureza torna-se tragicômica quando lembramos que os atuais ocupantes do Palácio do Planalto liderados pelo PT (na sopa de letrinhas tem PMDB, PSD, PP, PR, Pros, PDT, PCdoB e PRB) chegaram ao poder como depositários da ética, da honestidade, da moral. Essa afirmação leva a crer que se o time do PT está roubando menos do que já roubaram então está tudo bem?

Santa ingenuidade de quem acreditou que o pessoal que estava nas ruas nos idos de 1964 berrando contra a corrupção faria diferente ao chegar ao poder! A tal de “esquerda” tem se mostrado mais eficiente do que a direita na hora de botar a mão na grana dos outros.

Membro da Academia Passo-fundense de Letras

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