Os quatro cavaleiros do Infoapocalipse

Reproduzido do suplemento “Sabático” do Estado de S.Paulo, 2/3/2013; intertítulo do OI, 5/3/2013

Caio Túlio Costa

Se você pensa que o negócio de Julian Assange é jornalismo independente, está enganado. É só a aparência. O negócio do líder do WikiLeaks é a criptografia. Está tudo muito claro no livro Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet, no qual Assange dialoga com três “companheiros de armas” com os quais forma a legião dos verdadeiros Quatro Cavaleiros do Infoapocalipse.

Se a palavra-chave do título atropela o leitor tanto na fonética quanto no significado, a primeira página do livro resolve a dúvida. Ela remete a cipher (escrita cifrada) que vem do grego criptografia (escrita secreta). Punk é punk mesmo. Os Cypherpunks dizem defender o uso da criptografia como meio para provocar mudanças políticas e sociais.

Assange e seus três interlocutores Cypherpunks estão absolutamente convencidos de que centenas de milhões de mensagens online são devoradas por órgãos de espionagem norte-americanos e armazenadas em “depósitos do tamanho de cidades”. Assange afirma que o governo norte-americano não só espiona os seus cidadãos como também os estrangeiros.

Mas nem tudo está perdido. A não ser, claro, que você use nas suas comunicações online um sistema de criptografia abençoado por Assange e seus Cypherpunks, construído completamente à parte das empresas tradicionais que comercializam segurança criptográfica, todas muito bem postas no establishment comercial globalizado.

Nesse quesito, Assange sustenta que presidentes e executivos dessas empresas são matemáticos e engenheiros da NSA, a agência de segurança norte-americana. Eles estariam “capitalizando as invenções que criaram para o Estado de vigilância”.

Estes sistemas estão sendo vendidos para os países latino-americanos e de outras regiões do globo desejosos de proteger seus dados e suas comunicações. Na verdade, diz Assange, estes dispositivos constituem uma maneira de “roubar” os segredos dos países que os compram. É aí que entra o negócio de Assange:

“Os governos estariam mais seguros se usassem softwares criptografados feitos por cypherpunks, cujo design é aberto para todos verem que não se trata de uma ferramenta de espionagem, disponibilizados pelo preço de uma conexão com a internet”.

Ou seja, o software abençoado por Assange, além de baratinho, é transparente. Se o uso do design aberto pode facilitar a quebra de seu segredo, Assange não responde. No entanto, o próprio livro registra que, por ocasião da divulgação pelo WikiLeaks de 250 mil documentos diplomáticos norte-americanos, a chave para criptografia dos arquivos que estavam na rede vazou.

Os dialogadores (Jacob Appelbaum, Jérémie Zimmermann e Andy Müller-Maguhn) são especialistas em criptografia, são hackers. E aqui se entenda esta expressão no seu melhor sentido, aquele que define o hacker como um expert em segurança de sistemas.

As conversas ocupam a maior parte da obra. No geral, são técnicas e recheadas de siglas, termos e marcas desconhecidas do grande público, nada que as notas de rodapé não resolvam bem.

O livro revela o quanto Assange tem razão em tentar se esquivar da possibilidade de ser processado nos Estados Unidos ou em qualquer país dele dependente. As perseguições, ameaças e ações contra ele, seus amigos e o WikiLeaks estão muito bem relatadas.

Os diálogos tratam das entranhas das questões da segurança, da militarização do ciberespaço (na imagem de Assange, cada cidadão tem hoje um tanque de guerra dentro do seu próprio quarto), do combate à vigilância total, da espionagem pelo setor privado (o Google sabe mais de você que você mesmo, diz Müller-Maguhn), do combate a esta vigilância, de internet e política, economia e censura, além do bordão de Assange: “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”.

No fundo, os diálogos, por mais que pareçam persecutórios, utópicos ou apocalípticos, exibem um profundo mergulho numa das mais complexas questões da contemporaneidade: como preservar a liberdade e a privacidade num mundo em rede no qual os poderosos – sejam do Estado sejam das corporações empresariais – podem saber tudo de você. Tudo.

 

[Caio Túlio Costa é jornalista, professor de jornalismo e executivo na área de novas mídias]

 

 

 

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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