Os sinos da nossa aldeia

Carlos Damião

Pintura Cipriano

Há quem diga que a magia de Florianópolis nos permite aguçar e enriquecer os cinco sentidos, tais as sutilezas inspiradas pela paisagem física e humana da cidade. A visão parece a sensação mais óbvia, a que provoca o primeiro êxtase. Mas conhecer Florianópolis vai muito além de desnudá-la visualmente. A cidade tem seus cheiros característicos, puros ou impuros, naturais ou urbanos, nas praias, no Marcado Público, na Praça XV de Novembro, na Avenida Beira Mar Norte. Tem seus sabores, que fascinam o paladar nos restaurantes praieiros ou na sofisticada gastronomia que se impôs no últimos anos. E o que dizer das texturas que sentimos nas areias das praias, nos troncos das árvores, nos toques sutis dos cenários? Além de tudo isso, e muito particularmente, “ouvir” Florianópolis é qualidade desafiadora, que exige certa atitude transcendental. Não me refiro apenas ao alarido dos pássaros, ou as perturbações urbanas, menos ainda aos poderosos sons humanos das grandes concentrações no calçadão e arredores.

Há um som em particular que evidencia a presença contemporânea da aldeia que já fomos. Vem da sinfonia produzida pelos sete sinos da Catedral Metropolitana, dois deles presenteados por Dom Pedro II, os outros cinco adquiridos na Alemanha, no início do século 20.

Tenho a certeza de que, no cotidiano frenético, ou mesmo nos fins de semana vazios, a presença dos sinos é muito mais do que musical, é espiritual. Tive a prova disso quando ouvi, numa gravação resgatada pelo documentarista Roberto Lacerda Westrupp, o último discurso do governador Jorge Lacerda (1914-1958), no Palácio Rosado, hoje Cruz e Sousa. Quando Lacerda começa a falar, provavelmente ao meio-dia, os sinos invadem o ambiente do palácio e parecem “ilustrar” e imortalizar o tom solene da fala do governador, um notável intelectual e orador, que morreria horas depois do registro sonoro, em 16 de junho de 1958, junto com o senador Nereu Ramos e o deputado Leoberto Leal, num desastre aéreo ocorrido nas proximidades de Curitiba (PR).

Eu incluiria um sexto sentido, que mexe com todos os outros. “Sentir” o vento Sul é uma qualidade que qualquer mortal pode desenvolver, desde que tenha exercitado todos os outros sentidos e tenha vivido Florianópolis em sua gostosa plenitude poética. Mas esse é assunto para uma próxima crônica.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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