Os sonhadores – Fernando Linhares da Silva

Fernando Linhares da Silva, antes mesmo de chegar perto de um microfone, brincava de radialista quando garoto, imitando os locutores de maior sucesso da época.

Mylene Mendonça, filha de Humberto, participa da entrevista. Foto Caros

Mylene Mendonça, filha de Humberto, participa da entrevista. Foto Caros

Torcedor apaixonado do Botafogo de Futebol e Regatas do Rio de Janeiro, é capaz de repetir, hoje com mais de 80 anos (nascido em 30/10/1935), a escalação do time ganhador do campeonato Carioca de Futebol da Guanabara de 1948.

Quando se sentiu mais seguro inscreveu-se no programa Calouros ao Microfone, um sucesso dos programas de auditório comandados por Acy Cabral Teive na Rádio Guarujá. Em pouco tempo destacava-se entre os veteranos Dib Cherem, Acy Cabral Teive, Edgard Bonassis da Silva, Gustavo Neves Filho e Ciro Marques Nunes.

Com graça, ele conta: “O Acy [Cabral Teive] apresentava todo o final de semana o programa Calouros ao Microfone, direto do Teatro Álvaro de Carvalho. E eu fui la cantar no programa dele, só que eu perdi. Eu era o penúltimo candidato – porque naquela época tinha que ir pro trono ‘vai pro trono ou não vai’? O resultado era por palmas. Quando eu cantei, eu cantei aquela música de Vicente Celestino “Porta Aberta”, por sinal eu cantei bem. Mas, aí chegou um cara… Chegou um cidadão com uma dessas folhinhas, desses matinhos que dobra e faz um som que parece que sai pelo nariz e como era por aplauso ele ganhou. Eu recebi um pacote de balas Uva do Norte e balas Beijo… E fiquei com fama…”.

Mais tarde, já trabalhando na Guarujá como redator e comentarista esportivo Fernando teve de enfrentar o microfone como cantor novamente. Foi durante a apresentação de um dos programas da série regional A Voz de Ouro ABC que se realizou em todo o país para eleger o melhor cantor brasileiro. Como a história é bastante engraçada é melhor que você ouça o próprio Fernando contando.

A carreira profissional desde jovem ilhéu nascido na rua Anita Garibaldi, no centro de Florianópolis, em 1935, é bastante parecida com a de outros radialistas. Desde cedo Fernando só queria jogar pelada na rua e disputar campeonato de jogo de botões. De quebra, ele brindava a distinta platéia com minuciosa narração dos campeonatos disputados em sua casa e na casa dos amigos vizinhos, tendo uma caixa de fósforos como microfone. Como se isso não bastasse, vez por outra se atrevia a se aproximar dos locutores de verdade. Chegava na casa onde funcionava a Rádio Guarujá na Praça XV, ia entrando de fininho e daqui a pouco – zum – la estava ele na porta do estúdio com a porta entreaberta bisbilhotando o que fazia o locutor. Mais de uma vez, lembra que o depois colega Ciro Marques Nunes, ralhava com ele: “Fecha essa por aí guri”.

Foi, também, o primeiro diretor de Esportes da TV Cultura, canal 6, de Florianópolis quando levou o colega de rádio Roberto Alves, que posteriormente o substituiu quando teve de se definir entre a comunicação e sua carreira no serviço público – INSS – onde se aposentou na condição de procurador.

Mas as emoções recém estavam começando. Em busca de novos e mais amplos horizontes o garoto transfere-se para a Rádio Guarujá onde encontra as condições para consolidar mais uma etapa de seus sonhos: comentar jogos de futebol.

Faltava, porém, mais um degrau para alcançar o mais alto posto no pódio da carreira de locutor esportivo: a narração de jogos.

É desse tempo a emoção de uma entrevista exclusiva com o maior e mais famoso craque da época: Teixeirinha. O ídolo que jogava por Brusque veio a Capital para um jogo no Estádio Adolfo Konder que também era conhecido pelo apelido carinhoso de Pasto do Bode.

Mas, mesmo a Guarujá – a mais popular, como era conhecida – sendo a mais potente, transmitindo em ondas médias e curtas para Santa Catarina, o Brasil e o Mundo não era bastante para satisfazer os sonhos de Fernando Linhares da Silva. Ele queria conhecer as emoções do radiojornalismo, da locução comercial e da produção radiofônica. Pois foi assim que Fernando acaba se transferindo para a Rádio Nereu Ramos de Blumenau.

Tudo ia muito bem até que a proximidade com o final do ano, a chegada do verão e a distância da praia falaram mais alto. Bate o banzo, Fernando pede demissão e volta ao ninho antigo: a ZYJ-7, Rádio Guarujá de Florianópolis.

Os grandes momentos dos times das emissoras que disputavam a primazia com os times de empresas anunciantes e até amadoras do interior da ilha, sem falar nos grandes “pegas” com as emissoras “rivais”.

Na década de 1960, Fernando resolve diversificar suas atividades. Já era funcionário público concursado e estava de olho na sua carreira. Recomeça a estudar e o rádio passa a ser uma complemento em suas atividades profissionais. Trabalha então em outros prefixos da Capital e ao mesmo tempo atua como correspondente da Revista Placar.

Ao término da entrevista Fernando relembra os tempos dos bailes no Clube Seis de Janeiro no Estreito e fala dos seus imaculadamente brancos ternos de linho e do status de manter as mesas repletas de garrafas de cerveja vazias nos clubes e nos bares da cidade.

Mas, se firmou profissionalmente ao microfone da Rádio Diário da Manhã, onde ingressou em 1955, e fez carreira como repórter, redator, locutor esportivo, narrador e comentarista e até chegou a ser diretor da emissora. Na Diário da Manhã dos tempos da praça XV, foi contemporâneo de Humberto Fernandes Mendonça, Alfredo Silva, Rozendo Vasconcelos Lima e Cláudio Olinger Vieira.

Fernando Linhares poderia ter feito carreira no rádio Rio de Janeiro. Numa das transmissões que fez foi ouvido pelo locutor chefe da Rádio Tupi que o convidou para fazer teste, mas teve que renunciar em função de seu trabalho no INPS, atual Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS.

No arquivo de áudio a seguir, ouça entrevista de Fernando concedida à Antunes Severo em dezembro de 2003:

Depoimentos de Fernando Linhares no Acervo Acaert:

O início:

A Carreira:

O Reconhecimento:

Mais sobre Fernando Linhares da Silva no livro Caros Ouvintes – Os 60 anos do Rádio em Florianópolis, páginas 83, 86, 94, 115 e 120. O livro de autoria de Ricardo Medeiros e Antunes Severo é uma edição da Insular com o apoio a Associação Catarinense de Imprensa – Casa do Jornalista, lançado em 2005.

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