Os sonhadores-Elóy Simões

“Eloy Simões, jurássica e olímpica figura da radiofonia do hinterland paulistano medieval, é um dos mais lídimos representantes de uma espécie em fase de desenvolvimento que vem brotando das caatingas ainda não depredadas deste imenso Brasil”.
Por Antunes Severo

 Nascido no primeiro dia de dezembro de 1935, em Cachoeira Paulista (SP), Elóy Simões vem carimbado: vai viver da comunicação pela comunicação para servir à comunicação. O anjo que no momento passa livre, leve solto e fagueiro diz amém e aí está a fera fazendo exatamente isso neste sexto ano do recém emplacado terceiro milênio.

Calma pessoal, não vos atropeleis. A situação é grave e requer cuidado. As encrencas começam bem cedo. O pimpolho não chora quando quer mamar. Faz uns barulhinhos ininteligíveis, mas insistentemente. A mãe, curiosa, pega o pequeno no colo. Ele, sem cerimônia vai logo direto ao peito da jovem senhora e começa as sugá-la. Satisfeito, dorme. Três horas depois repete a dose. Descaradamente.
Assim fica taludinho, começa a andar, a derrubar as coisas de cima dos móveis, puxa a toalha da mesa para ouvir a música das louças caindo e se multiplicando em mil pedaços. Em fim, é “um anjo”. No bom sentido, claro.
Vem o Jardim da Infância, o prezinho, o primário e o pequeno, curioso, está sempre em busca de novidades. Às vezes até esquece de comer. Com uns dez anos furunga em tudo. Lê gibi, revista ilustrada, jornal, livro… Não escapa nada. Nem as primas.
Ah, sim: comete poemas. Por um tempo anda ocupado em descobrir o que havia de especial com as meninas que o atraiam tanto. Não se sabe se descobriu. Ele, discreto, toda a vez que se toca no assunto, se faz de bobinho e desconversa. Vivo esse safado.

Taludinho, aí entre os treze e os quinze anos, pilota a Escola Normal. E aí, descobre uma nova paixão: o rádio. Foi à loucura. Lê os jornais, as revistas, os anúncios das placas de rua, os textos das aulas de latim, filosofia, sociologia e moral e cívica, tudo em voz alta e empostada. Ele quer ser locutor. Mais louco fica quando ouve a emissora da cidade.
– “Esta é a Rádio Urânio de Cachoeira Paulista, falando para o Vale do Paraíba, Sul de Minas e Baixada Fluminense”.
É mole, torcida brasileira? Essa coisa de saber-se ouvido em tantos lugares ao mesmo tempo não deixa o menino dormir direito. Um dia, resolve:
– Vou falar nesse treco aí.
A frase chula não é de menosprezo, é de gana mesmo de chegar lá. Cria coragem, vai até a emissora, pede para falar com o gerente e se apresenta: sou Elóy Simões e estou preparado para ser locutor de sua emissora.
O gerente mesmo sem conhecer a figura, mas reconhecendo a ousadia, fala com sinceridade: pois então vamos fazer um teste. Venha logo mais na hora do Brasil quando o estúdio estará livre.
Sete da noite lá está o Elóy sentado à mesa de locução, atrás de um microfone “jacaré”, de quase dois palmos de altura quando ouve a voz através do alto-falante interno:
– Quando acender a luz vermelha em cima do vidro, pode começar. Leia três textos de propaganda, dê o prefixo da emissora, leia uma notícia e anuncie a próxima música.
Aprovado. Elóy fez de tudo na rádio: locução comercial, noticiário, comentário esportivo, redação, rádio-escuta, produção, programa de auditório… Teve um programa caipira só seu, com direito a pseudônimo. Era o programa do Nhô Lóy. Apesar dessa avalanche de emoções o garoto nunca deixa de estudar. Aos 18 anos, com o diploma de Normalista (hoje segundo grau) pendurado na parede, está pronto para vôos mais altos.

Cachoeira Paulista, o Vale do Paraíba, o Sul de Minas, a Baixada Fluminense e a Rádio Urânio continuam vivas e atraentes, mas não bastam. São Paulo, a Megalópole, é o desafio. O dia que nunca se acaba, a noite que não tem fim, os teatros, as boates, os bares, as ruas, o trânsito, os jornais às dezenas, as emissoras de rádio quase cem, a televisão chegando alucinante, as agências de propaganda fazendo loucuras… Positivamente, quem resistir há de?
Elóy – cara, coragem e o endereço de um primo – aporta na paulicéia desvairada e rutilante.  Ainda na rodoviária, sobe ao primeiro andar, mira aquela selva imensa de edifícios, respira fundo e murmura:
– Ê Sampaulo! Cheguei e é pra ficar! Te cuida!
Escriturário na Fundação Cásper Líbero – primeira escola de jornalismo do Brasil, noticiarista na Rádio Gazeta, editor do caderno NG da Gazeta Esportiva e redator na CIN – Companhia de Incremento de Negócios. É apenas o começo.

Por fim:
Atônito o redator de plantão, ainda tonto está com tantas e singulares referências ao personagem em foco, disse: “Se Pancrácio, o exegeta, esgrimisse o láscio do verbo em sua plenitude clássico-popularesca, por certo diria que se trata de um caso assás alvissareiro o surgimento de tão escolástica persona nos meios do “sem fio” daquela urbe que se sobressai nas campinas dos desvãos serranos paulistas, mineiros e goianos”.
E depois do fim:
Elóy Simões estudou na Cásper Líbero, onde se formou em jornalismo (Hi! Perdemos o radialista). Ao mesmo tempo que estudava, foi escriturário no DER – Departamento de Estradas de Rodagem de S. Paulo e estagiário no jornal A Gazeta. (Ninguém é perfeito). Depois, contratado, atuou como repórter e noticiarista na Gazeta e na Rádio Gazeta, para a qual escreveu e leu comentário diário sobre Propaganda e Publicidade; foi  editor do NG – Noticiário Geral de A Gazeta Esportiva; diretor de redação da revista S. Paulo na TV e da Revista Propaganda. Fez, na Rádio Eldorado de S. Paulo,  o primeiro programa de rádio, do rádio brasileiro, sobre Propaganda e Publicidade; produziu e apresentou programa sobre o mesmo assunto na TV Gazeta (É isso. Assim perdemos o radialista e o mundo ganhou um dos mais brilhantes profissionais da comunicação que o Século Vinte produziu).


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