Os Sonhadores – José Mauro Gomes de Mattos

José Mauro, jornalista, radialista, professor, poeta e cronista marca com presença forte o mundo da comunicação da Florianópolis dos anos de 1950. Sensível e criativo aparece com destaque entre os criadores de um novo estilo de programação da Rádio Anita Garibaldi.
 Por Antunes Severo

Este registro da estada de José Mauro em Florianópolis, além do reconhecimento ao talento, engenho e arte de um profissional, é uma homenagem a um outro colega: José Emanuel Gomes de Matos. Emanuel, filho de José Mauro é jornalista, fez parte da equipe que implantou o Diário Catarinense em Santa Catarina e hoje em Porto Alegre e não se cansa de buscar lembranças do seu pai que morreu muito jovem – menos de 30 anos – e o deixou com apenas seis anos de idade.
Nós radialistas, de maneira geral, somos pouco atentos ao  que se passa ao nosso redor quando somos jovens e estamos deslumbrados com o trabalho e com o reconhecimento caloroso do público. Talvez por isso, me surpreenda agora com a descoberta das fortes marcas que registram a passagem de José Mauro pelo rádio e pela literatura de Florianópolis.
As lembranças que dele me vêm, passados quase cinqüenta anos, embora superficiais e genéricas, são as de um profissional totalmente entregue ao seu trabalho e sua profissão e uma apaixonante figura humana. Lembro também da maneira carinhosa com que os colegas se referiam a ele e como se preocupavam com os seus excessos boêmios, muitas vezes emendando o dia com a noite e disso resultando a fragilidade de sua saúde física.


Foto do acervo de José Emanuel, filho de José Mauro que aparece de chapéu e roupa clara à direita. Os demais ainda não foram identificados.

Convivendo com boêmios antológicos como Hélio Kersten Silva e Osvaldo Robin, para citar apenas os mais notórios, José Mauro – ou Zé Mauro como era tratado com carinho – só não fez chover quando assumia os microfones da Rádio Anita Garibaldi. A Anitinha, com ainda diz Cyro Barreto, ou a Rádio Anita que na voz impostada e inconfundível de Aibil Barreto era anunciada com este slogan: O coração palpita quando você ouve a Rádio Anita.
José Mauro, durante o curto temo que viveu em Santa Catarina – cerca de três anos – trabalhou na assessoria de imprensa do governador Jorge Lacerda, foi professor de francês no Instituto Estadual de Educação, escreveu e publicou poemas e artigos no jornal O Estado e na Revista Sul e teve destaca participação como um dos responsáveis pela programação que levou a Rádio Anita Garibaldi à condição de emissora mais popular da Capital catarinense.
Cyro Barreto, irmão de JJ Barreto, fundador da emissora, lembra de José Mauro como um dos integrantes do “trio inovador” que levou a Rádio Anita a balançar a hegemonia das poderosas rádios Guarujá e Diário da Manhã que não mediam recursos para se manter na liderança de audiência. Com Hélio Kersten Silva e Osvaldo Robin, inicialmente e depois com João Machado Pacheco e Nilson Mello, José Mauro escrevia, produzia e apresentava desde contundentes comentários políticos a românticas crônicas como Boa Noite para Você, interpretadas ao microfone da Anitinha, por Osvaldo Robin, até peças para radioteatro ou programas de auditório.
José Mauro, inquieto e sedento de novos desafios, no auge do sucesso deixa a Rádio Anita, para junto com a colega Lourdes Silva, montar a Rádio Jurerê. A nova emissora anunciada como a líder da primeira rede de emissoras de Santa Catarina comandaria “uma rede de emissoras do interior” integrada pelas rádios Barriga Verde de Canoinhas, Palhoça e Tubarão e uma emissora em Joaçaba. A Rádio Jurerê também inovaria em potência operando com 10 kWatts enquanto a Rádio Guarujá operava com 5 kWatts e a Diário da Manhã com apenas 1 kWatt em ondas médias. O sonho não chegou durar um ano. A emissora líder fechou e José Mauro e Lourdes Silva voltam para a Rádio Anita Garibaldi. José Mauro adoece e morre de aneurisma cerebral em 1958, conforme depoimento de Cyro Barreto.


Foto do acervo de José Emanuel. Não foi possível identificar José Mauro, mas o próprio José Emanuel é o menino em uniforme de marinheiro, com gola escura que aparece ao lado do irmão mais velho José Ariel vestindo calça e camisa brancas. Em primeiro plano, a partir da direita, o deputado federal Jorge Lacerda (de chapéu), candidato ao governo do Estado e o jornalista Ilmar Carvalho. Balneário de Camboriu, 1956.

Depoimentos
Salim Miguel, escritor: O Zé Mauro era um intelectual refinado e uma figura muito envolvente. Cativante. A revista Sul publicou várias de suas poesias e alguns artigos. Ele também escreveu para o jornal O Estado.
Cyro Barreto, advogado: Além de intensa atividade no rádio ele (José Mauro) foi professor de francês no IEE – Instituto Estadual de Educação. Ele era um professor diferente, se preocupava em cativar o estudante para que se interessasse pela matéria. No rádio era de uma criatividade incrível e fazia de tudo: de escrever a interpretar personagens em programas de radioteatro. Animava programas de auditório com desenvoltura e simplicidade. Gostava de ouvir música e tinha uma coleção de clássicos do jazz.
Nilson Mello, escritor: ele era o mandachuva lá (na Rádio Anita), ele o Hélio Kersten e o Osvaldo Robin. Eles tocavam a programação.
Ilmar Carvalho, crítico musical: O José Mauro Gomes de Mattos foi meu grande amigo e até ele falecer, mantivemos esse laço fortíssimo. Intelectual de elevada estirpe, dono de extraordinário ecletismo cultural e da mais criativa improvisação no rádio e na escrita. José Mauro, uma personalidade, sempre acima, mil doses acima do tempo e da moda. Que imorredoura saudade!
João Décio Machado Pacheco, publicitário: José Mauro era o todo poderoso (o José Mauro liderava o pessoal da área de programação juntamente com Hélio Kersten Silva e Osvaldo Robin). Ele fazia locução, comentário, ele fazia de tudo. (…) Uma coisa que me tocou no Zé Mauro, além da criatividade no ramo, era a capacidade de improvisação. Quando o faturamento caia ele sentava com a gente fazia um plano e eu saia pra rua pra vender. E a coisa funcionava…
 Para ouvir o depoimento completo, clique aqui.
Fontes consultadas:
Revista O Rádio Catarinense. Florianópolis: ano 1 nº 1. 1957 p. 28.
MEDEIROS, Ricardo. VIEIRA, Lúcia Helena. Historia do Rádio em Santa Catarina. Florianópolis: Insular, 1999.
MEDEIROS, Ricardo. SEVERO, Antunes. Caros Ouvintes – Os 60 anos do rádio em Florianópolis. Florianópolis: Insular, 2005.
Depoimentos:
Ilmar Carvalho, por e-mail. Salim Miguel, por telefone, Cyro Barreto, por telefone, Nilson Mello e João Décio Machado Pacheco, gravação em áudio, todos em outubro de 2005.


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