Os Sonhadores – Lauro Soncini

Lauro Soncini
“Quero ver como vai ficar o negócio. Estou com metade de um livro pronto. Só que é diferente do teu. Estou resgatando as mazelas de algumas figuras do futebol. Eu tenho a metade pronta”.
Por Antunes Severo


Lauro Soncini, de robe de chambre flagrado por Antunes Severo, em julho de 2004.

Este é Lauro Soncini, 74, completados em junho de 2004. Inquieto, agitado, ousado sempre em busca de mais emoções. Nosso encontro, depois de uns 30 anos, tem motivo especial: ele recolhe material para o seu programa na Rádio Santa Catarina / Jovem PanSat. Lauro quer atualizar a audiência da emissora com a história do rádio esportivo em Florianópolis. Faz entrevistas, reúne histórias, relembra passagens curiosas e promove encontros de profissionais da área.

Nosso encontro começa com uma “Hora da Saudade”. Lauro lembra os tempos de Rádio Diário da Manhã. Lá nos conhecemos em 1956 quando aportei por aqui, justo quando ele encerra a carreira de jogador profissional de futebol e dá os primeiros passos no campo da reportagem esportiva. Mal sabia ele que também estava em franca garimpagem, em busca de conteúdo para o livro Caros Ouvintes – Os 60 anos do Rádio em Florianópolis. Desta vez se deu mal o pequeno: de entrevistador, vira entrevistado.

Como é que você chegou ao rádio? Porque o seu trabalho era no serviço público, não é?

Eu trabalhava no Departamento Estadual de Estatística… Eu jogava futebol.

Ah! Sim, você era atleta profissional.
Nesta época eu jogava no Avaí. Estava quase no fim da carreira de jogar de futebol e o Humberto Mendonça era meu vizinho. Morávamos lá no Balneário e um dia ele me chamou.

Você estava com 26 anos; como você estava no fim da carreira?
Mas eu não queria mais jogar bola.

Não era mais o objetivo.
Não era mais o objetivo, ganhava muito mal. Aí um dia, o Humberto chegou e me disse: “Queres dar uma força pra mim lá na rádio?” Aí eu perguntei, mas, o que eu vou fazer? “Vai lá, eu vou te orientando. Depois, mais tarde um pouquinho você pode comentar, porque você conhece futebol”. Foi assim que eu entrei.


Lauro Soncini e Antunes Severo, produzem matéria para os jornais falados da noite, em 1957.

Mas, você começou como repórter, redigindo…
Eu redigia. Aí um dia ele me colocou atrás do microfone e disse “Faz um comentário aí que eu quero ver”. Eu tremia, ele lá na fora na técnica e eu sozinho fechado no estúdio. E foi assim, né? Ali comecei a vida de radialista.

E aí você deslanchou…
É, mas a custa de muita escorregada! Depois da Diário da Manhã eu fui pra Guarujá, mas não era a mesma coisa.

Na Diário da Manhã você não fez só esporte.
Não. Eu era do departamento de Esportes, mas também participava do departamento de radiojornalismo. Assim como você era diretor de esporte, o Zigelli era de jornalismo, mas quando a coisa pegava todo o mundo trabalhava junto.

Você teve funções específicas no departamento de jornalismo.
Sim, eu fazia rádio-escuta e redação para Correspondente Renner. Eu era responsável pelo noticiário esportivo do Renner e também redigia a última notícia da edição do Correspondente Das 13 horas. Eu ficava na escuta do Repórter Esso da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com o gravador ligado. Quando o Eron Domingues anunciava “E atenção para a última notícia”, eu começa a gravar e a escrever ao mesmo tempo. Quando terminava o Repórter Esso eu voltava a fita do gravador e revia para ver se não escapou nada. Era tudo na corrida, sob pressão. Tinha que entregar a notícia na cabine de locução para o Zigelli antes que ele terminasse de ler o comercial das Roupas Renner.

Sempre deu certo, sempre você chegou a tempo?
Raras vezes o Galego teve que “enrolar” para que eu chegasse com a “última”. Ô tempinho danado de bom aquele!


Adolfo Zigelli com Lauro Soncini, na sala de radiojornalismo da Diário da Manhã, em 1958.

Depois de terminado o Correspondente Renner, era descer pro bar do Felinto (Bar Príncipe) tomar uma “abrideira” e sair para o almoço, ali mesmo num dos restaurantes da Praça XV.

Quando estava tudo calmo. Porque tinha aqueles sufocos. Como quando da eleição para presidente dos Estados Unidos… Parece que foi o Kennedy.

Sim, o Kennedy, a gente fez uma cobertura muito grande. Viramos dois dias e duas noites transmitindo direto com a Voz da América enquanto repercutíamos o que a imprensa brasileira estava dizendo.

Pois é, na manhã do segundo dia, aconteceu um fato que eu ri muito, não sei se você lembra… Às seis da manhã começava o programa A Hora do Despertador. Nós estávamos curtinho uma folguinha tomando um chimarrão – era você, o Zigelli, eu e o CDZ…

O CDZ era o rádio-telegrafista, então sargento Vidomar Cardoso. Ele captava as transmissões da UPI – United Press – em código Morse e vertia para o português.

Isso. De repente o Dakir Polidoro, entra com o programa e chama o Quintanilha que se encontra na feira do Mercado Público. O Dakir coloca uma música (cantarola) “ela vai faceira fazer as compras com a cesta na mão” e pergunta: Como é que estão os preços hoje no Mercado, Quinta? E o Quintanilha, por telefone, entra daquele jeito dele, caipirão “olha Dakir, os ovos baixaram e a lingüiça subiu”.  E ele dava cada uma gargalhada, porque ele era uma pessoa muito simples. Sabes por que o nome Quintanilha, né? O nome dele não era Quintanilha.

Era um apelido.
Era um apelido porque tinha um político famoso naquela época. Era deputado federal pela UDN…

Quintanilha Ribeiro. Bom, a esta altura você já dominava o pedaço. Comentarista esportivo, rádio-escuta e redator além de cobrir as faltas não previstas de alguns locutores noticiaristas menos responsáveis…

Fazia umas pontas em novelas com você, o Zigelli, o Alfredo, o Humberto, o Aldo Silva, a dona Cacilda… Nós incomodávamos muito, né? Nós trabalhávamos no segundo andar e o estúdio de radioteatro era lá em baixo, no primeiro. Um dia dona Cacilda me chamou: “Lauro, a novela já está no ar e você entra depois do próximo intervalo”. Eu fazia uma pontinha lá. Eu era um cidadão da cidade de Assis que ia converter um jovem que viria a ser o São Francisco de Assis. Aldo Silva era o Francisco a ser convertido. Eu me atrasei, vim correndo e entrei no estúdio já com a cena correndo, peguei o script e olhei o texto. Eu tinha que dizer aquela frase bíblica “É mais fácil um elefante passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus”. Eu não agüentei e dei uma risada… Foi aquele Deus nos acuda. Levanta a música de fundo, o Aldo – que era o diretor de radioteatro – quase desmaia e todo o mundo querendo comer meu fígado. Além disso, o Victor Márcio Konder, que era o diretor da Rádio, costumava a ouvir as novelas num radinho de pilha e me flagrou. Olha, foi preciso muita lábia, senão eu ia pra rua.

Radioteatro ao vivo era mesmo um grande desafio…
Numa outra novela eu era Marcelo, noivo da mocinha que era a Alda Jacintho. O capítulo se encerrava com Marcelo jogando a noiva num poço cheio dágua e de onde não se podia sair. Pois não é que o contra-regra esquece de colocar água no balde e quando jogou um tijolo para fazer o som do corpo caindo na água foi aquela barulhão de pedra em lata que todo o mundo caiu na gargalhada.  Ah! A rádio era muito mais gostosa.


Antunes Severo, Humberto Mendonça, Lauro Soncini e Adolfo Zigelli, no
auditório da Rádio Diário da Manhã.

O primeiro andar do prédio da rádio era um outro mundo: radioteatro, música, maestros, cantores, cantoras, auditório, humorismo…
O rádio naquela época dava um banho no rádio de hoje. Talvez não tivéssemos as condições técnicas de hoje. Mas era um rádio mais alegre; um rádio com programas de auditório em dias de semana, como o Seqüências A Modelar… A noite vivia cheio aquele auditório com as apresentações do Regional do Zequinha, do Conjunto RDM, das orquestras de cordas e a típica de Carmelo Prisco, a musica popular com o Zininho, a Neide Maria, o Luiz Henrique, o Dino Souza, a Edi Santa, o Dilzo Silveira, o Claudino Silva, aquele povo todo.

Você ficou no rádio até quando Lauro?
Até 1968, 1970, por ai.

E agora estamos em março de 2004 e você está aí de gravador em punho. É o retorno ao rádio, 34 anos depois?

Não, vim dar uma espiada pra vê como é que fica; to começando agora.

Algum projeto especial?
A idéia da gente é daqui a pouco ter um auditório. Então vamos fazer uma experiência para ver como é que fica; como é que o público recebe. Não é coisa para ficar rico… Agora eu estou mexendo com a idéia de um livro. Tenho um parceiro que está me ajudando. Vou arrumar patrocínio. Nós vamos lançar esse livro. Vai ser sucesso. Mas, eu fico pensando como é que vou dizer que um sujeito foi desonesto. Um juiz de futebol, por exemplo. Mesmo que ele tenha morrido, como vão ficar seus familiares? Um dia desses o Roberto Alves falou que eu estava pensando em lançar esse livro.  Um dia depois bate o telefone na minha casa, era uma moça. “Seu Lauro eu sou filha do ‘fulano de tal’, aquele juiz de futebol, eu sou uma universitária. Seja sincero, o meu pai era desonesto como juiz de futebol?”

Notas:
O projeto Rádio Santa Catarina / Jovem Pan Sat, iniciado em fevereiro de 2004, foi desativado em junho de 2005.
Humberto Fernandes Mendonça foi chefe da equipe de esportes da Rádio Diário da Manhã, até se transferir para a Rádio Bandeirantes de São Paulo, em 1965.
Galego era um dos apelidos carinhosos de Adolfo Zigelli.
Quintanilha é o apelido de Domingos Pedro de Oliveira que trabalhou como assistente de produção e repórter por muitos anos com Dakir Polidoro, no programa A Hora do Despertador.
A entrevista que serviu de base para esta matéria foi concedida por Lauro Soncini, em março de 2004.

Links relacionados:
www.an.com.br/ancapital/1999/abr/30/1fal.htm
www.an.com.br/ancapital/1999/jun/01/1fal.htm
www.ufsc.br/~esilva/Mane02.html


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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