Os Sonhadores – Miguel Livramento

“Alôôôôô minha gente amiga. Oi, turma. A nossa carinhosa saudação. Com a responsabilidade técnica de (nome do operador de som), está começando mais um programa (pequena pausa) Miguel Livramento. Hoje é 20 de junho, uma segunda-feira. Santos do dia: (olhe na folhinha). O pensamento do dia (algo na linha ‘não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho’). Vamos falando de música, de bola, de tudo aquilo que acontece nessa terra abençoada por Deus, denominada Florianópolis.”

 

Aldírio Simões, no livro Retratos à Luz da Pomboca coloca Miguel Livramento ao lado de Içuriti Pereira quando se trata de apontar os “mais autênticos manezinhos da Ilha”. E diz por quê: “segundo pesquisas de botequim, e mesmo quando estão alinhados dentro de uma vistosa fatiota, não conseguem alterar a característica do verdadeiro homem ilhéu”.

Alexandre Gonçalves, depois de manifestar suas preferências como torcedor e ouvinte de grandes locutores esportivos das emissoras de São Paulo e Rio, não esconde. “Mas gostava mesmo era de ouvir a Rádio Guarujá. Meu pai sempre fala da programação da Jornal A Verdade, que nos anos 70, tinha uma equipe forte e pelo menos um programa que entrou para a história dos avaianos. Foi no Zero Hora Esportiva, apresentado por Miguel Livramento e Carlos Alberto Campos (se não me engano), que Fernando Bastos, autor da letra, e Luiz Henrique Rosa, autor da música apresentaram pela primeira vez o então recém-composto hino do Avaí. “Na ilha formosa, cheia de graça…”.

Para falar de Miguel Livramento, o “Guelinho”, nesta série de Os Sonhadores, precisa-se, entretanto, e em primeiro lugar fazer uma separação semântica de grande relevo: “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”. Se não, pode haver confusão e as coisas ficarem assim, “sacumé, meio barro, meio tijolo”.
Então, o caminho escolhido foi o de beber-se a água diretamente na fonte: uma entrevista gravada, principalmente para quem não teve o privilégio de nascer aqui, embora tenha assimilado em boa parte este jeito lindo de viver que é o “catarinez”.
Miguel, a palavra é sua.
Eu nasci em Biguaçu, no dia oito de maio de 1942. Eu morei em Biguaçu até meus 13 anos. Eu nasci, fiquei morando com os meus avós, porque naquela época os nascimentos eram feitos por parteira, a mãe da criança ficava na casa da mãe dela.

:: Link Sonoro :: Miguel 01

Eu fui o primeiro filho. E aí eu fiquei na casa da minha avó com a minha mãe. Meu pai era soldado do exército, tava com 18 anos – o que acho que já foi precipitado, né? Quando a minha mãe se recuperou – era quarentena -, a mulher ficava 40 dias tomando sopinha de galinha, aquelas coisas… A minha mãe quis vir para Florianópolis porque o meu pai deu baixa do exército e foi trabalhar na oficina do Hoepcke. Mas, as minhas tias viviam me levando pra lá e pra cá e eu acabei morando com os meus avós.
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E aí surgiu o meu primeiro sonho: eu queria ser alfaiate. A família conseguiu que eu começasse como aprendiz numa alfaiataria de Biguaçu. Eu estudava de manhã e de tarde trabalhava na alfaiataria, isso foi até os 14 anos. Depois eu vim pra Florianópolis pra tentar a carreira aqui, mas aí vieram as roupas feitas, as lojas de roupas, as prestações e eu vi que a coisa ia dar em nada. Depois dessa desilusão, agora com 16 anos, eu estava concluindo o ginásio e queria começar o curso de Contador. Foi aí que surgiu a oportunidade de eu trabalhar como caixa na C. Ramos e começar a ganhar um dinheirinho. Mas, eu sempre gostei de futebol. Cheguei a jogar em time de várzea de Florianópolis.
:: Link Sonoro :: Miguel 03
A festa não durou muito porque eu sofri um acidente – um jogador caiu em cima de mim e quebrou a minha perna, fratura exposta, coisa horrorosa.
:: Link Sonoro :: Miguel 04
Bom, já que eu não posso jogar mais, vou é torcer pelos clubes. E aí, então eu descobri o rádio.

:: Link Sonoro :: Miguel 05
Não dá para não ouvir
Daqui pra frente não dá mais para editar a entrevista do Miguelito. Em 27 minutos e 38 segundos de gravação ele revive um dos períodos de maior transformação do rádio em Florianópolis, com detalhes que dificilmente você vai encontrar em outro lugar. Por isso, ponha-se à vontade. Ajuste o volume e deixe rolar a entrevista na íntegra.

:: Link Sonoro :: Miguel 06
>> Eu telefonei pra Rádio Anita e pedi para falar com o Evaldo Bento: “ô Evaldo você deu uma notícia errada aí”. O Gama que morreu não é o que jogou no Avaí, é o irmão dele. Aí ele botou o telefone do ar e pediu pra eu repetir. Depois, fora do ar ele me agradeceu e convidou para fazer parte da equipe da Rádio Anita Garibaldi. Isso foi em 1971. Assim eu entrei no rádio fazendo parte de uma equipe formada por Fernando Linhares, Brígido Silva, Borges Filho e Evaldo Luiz.
>> Em 1972, com o declínio da Rádio Anita eu fui trabalhar na Rádio Jornal A Verdade que nessa época era do Padre Quinto Baldessar, que havia comprado do Manoel de Menezes. Nesse ano aconteceram duas coisas: a Diário da Manhã e a Guarujá pararam de fazer futebol e o Figueirense foi campeão. A equipe de esportes era assim formada: narradores Adilson Sanches e Murilo José; comentaristas Newton César Viegas e Brígido Silva; repórteres Miguel Livramento e Carlos Alberto Campos.
>> Com a reviravolta do sucesso do Figueirense a Diário da Manhã e a Guarujá voltaram a transmitir futebol, em 1973. Mas, retomada começou com a Rádio Jornal A Verdade. Também nesse ano eu ganhei o primeiro espaço para apresentar um programa não esportivo. Ali eu comecei o Programa Miguel Livramento que ainda continua no ar (agora – outubro de 2005 – na Rádio Bandeirantes890).
>> O primeiro gol que eu narrei na minha vida foi na “marra”, o narrador escalado não apareceu. Eu me lembro, foi um gol do Escurinho, lateral do Figueirense, ele cobrou uma falta e fez o gol no time da Chapecoense. Daí pra frente virei narrador.
>> Em 1978 o doutor Aderbal mandou me contratar para a Rádio Guarujá. No início eu enfrentei “uma geladeira”, mas o pessoal acabou se convencendo de que o tempo dos vozeirões estava mudando. Eu fiquei lá até 1983.
>> Depois eu fui convidado pra trabalhar na TV Catarinense, hoje RBS. E la pelo meio do ano de 1983 fui convidado por Antunes Severo para trabalhar na nova equipe da Rádio Diário da Manhã. O projeto não chegou a vingar. Em 1985, eu fui convidado pelo Wanderley Zenatti para trabalhar na Rádio Cultura que havia sido comprada pela Eldorado de Criciúma e que estava montando a Rádio Guararema, então a Rádio AM mais potente.
>> Aí eu voltei pra Rádio Guarujá em 1996 onde fiquei até outubro de 2003. Em 2004, quando da entrevista Miguel havia recebido convite de Estácio Ramos para participar da equipe esportiva que a Rádio Santa Catarina estava montando. O projeto não vingou e assim continuava a sina: “pô, Antunes, a Rádio Santa Catarina é a única que eu nunca trabalhei”. Agora eu posso informar o contrário: Miguel Livramento trabalha na Rádio Santa Catarina, só que hoje ela opera com o nome consagrado de Rádio Bandeirantes AM890 e integra o Sistema Barriga Verde de Rádio, um projeto comandando por Saul Brandalise Júnior.
Fontes consultadas
Entrevista concedida ao autor em 13/5/2004
http://www.manezinhodailha.com.br/Aluzdapomboca.htm
http://colunaextra.blogspot.com/2004_07_01_colunaextra_archive.html
http://colunaextra.blogspot.com/2005_06_01_colunaextra_archive.html


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