Nilson Mello

Os sonhadores: Nilson Mello

Era uma vez um garotinho que já nasce pedindo cuidados especiais. Magrinho, tão magrinho que dá dó de ver. Cuidadosa, a mãe coloca um pano no fundo da bacia metálica que serve de banheira, para o neném não se machucar. Nilson Mello cresce se fortalece e conquista o mundo com inventiva, dedicação e persistência. É um dínamo o pequeno.

E ele está aí. No registro fotográfico que fiz em sua casa no sábado, 15/4/2006, em plena recuperação de um acidente cardíaco, desses que atacam as pessoas mais ousadas na cronologia da vida. Ele agora faz fisioterapia, escreve e se prepara para comemorar os oitenta anos de estrada na terra e os 50 de casamento com a também atriz, radioatriz e comunicadora Santa Mello que conheceu no Teatro da União Operária e com quem casou em 1956.

Voltemos, porém, um pouco no tempo. O magrelo desengonçado dos 14 anos se revela um autêntico pau de encrenca. Ajuda nas tarefas da casa, bisbilhota tudo que lhe passa pela frente, é intrometido, se mete em coisas que não conhece e começa a mostrar que tem jeito para as artes. Mesmo sem freqüentar escola, desenha, lança-se como cronista, poeta e jornalista escrevendo para jornais e revistas locais e nacionais com notícias e comentários sobre a vida artística da cidade de Florianópolis.

Nilson começa desenhando figuras famosas da época usando lápis comum, aos 19 anos. Stalin é de 1946.

Nesse período descobre o teatro. Aproxima-se da União Operária e passa a navegar uma vida de emoção e deslumbramento. A magia do palco tira-lhe o sono. Desenha, escreve, produz, interpreta e dirige espetáculos teatrais. Encontra sua deusa – atriz, linda e inebriada com a beleza de seus versos – era Santa Piccolo, hoje sua esposa Santa Mello. Em 1955 descobre o rádio e vislumbra a possibilidade de ampliar seus horizontes. Mesmo morrendo de ciúmes, convence a namorada a participar da magia que é fluir pelas ondas sonoras do rádio.

Começa pela Rádio Anita Garibaldi onde escreve, interpreta e dirige episódios românticos, crônicas, esquetes humorísticos, programetes de curiosidades ou de variedades. Simultaneamente produz também para as rádios Guarujá e Jurerê onde é conhecido por pseudônimos para evitar o confronto da concorrência entre as emissoras.

Mesmo com toda essa atividade, Nilson investe nas artes plásticas e projeta em aquarelas a visão da Florianópolis em que vive. Este quadro é de junho de 1960.

A febre de criação é contínua, embora o rádio comece a declinar. Cresce, então, a produção literária. O escritor passa a ser conhecido fora da região da capital. Viaja para outras cidades catarinenses, gaúchas e paranaenses levando suas obras para novos públicos. São os anos de 1970 e 1980. É desse período a foto abaixo.

A produção literária aumenta e o escritor passa a ser conhecido fora da região da Grande Florianópolis. Viaja para outras cidades catarinenses, gaúchas e paranaenses levando sua obra para novos públicos. A peça Adorável Gatinha (foto) lançada em 1974 no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis atinge a marca nos anos seguintes de 159 apresentações.

Incansável, Nilson não se contenta em escrever e editar seus livros infantis. Mapeia a localização dos colégios de primeiro e segundo graus da região e passa a visitá-los fazendo palestras, mostrando os livros e vendendo-os ao preço de R$ 3,00. Nessa época, o reconhecimento maior, porém, vem da Academia Catarinense de Letras que lhe presta homenagem por ocasião dos festejos dos 50 anos de fundação da entidade.

Nilson recebe das mãos de Paschoal Pítsicas, presidente da Academia Catarinense de Letras, a homenagem em cerimônia realizada no Lira Tênis Clube, em dezembro de 1995.

Mesmo vendendo seus livros diretamente para os leitores nas escolas, Nilson é reconhecido pela comunidade acadêmica e empresários do setor livreiro. Desta vez o prêmio vem da Editora Papa Livro. É o troféu Boi de Mamão.

Nilson recebe da diretora da Editora Papa Livro, Neide Mendes a premiação que se realiza pelo segundo ano, desta vez durante a 15ª Feira do Livro de Florianópolis, em setembro de 2000.

O garoto franzino, de aparência frágil, além de uma intensa produção radiofônica – chega a ter 12 programas diários no ar em três emissoras – é hoje referência muito especial na literatura de Santa Catarina.

Escritor e teatrólogo tem 63 peças teatrais escritas (50 infantis), das quais 32 foram encenadas em Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Fátima (Portugal), com mais de 540 representações, para aproximadamente 232 mil espectadores; colaborou com 14 jornais e cinco revistas; ganhou Menção Honrosa com as peças infantis “As Formiguinhas Boca-Doce” e “Estrelinha de Cristal”, nos primeiro e terceiro concursos de Dramaturgia da Fundação Catarinense de Cultura; recebeu a Medalha de Mérito do Município de Florianópolis, no 262º aniversário da cidade e Homenagem Especial da Academia Catarinense de Letras. Nilson Mello é membro da Academia São José de Letras e recebeu homenagem do projeto “Santa Catarina – 100 anos de história”. É patrono das bibliotecas das escolas Padre Agostinho, Anísio Teixeira, São Judas Tadeu e Centro Educacional Evolução. Recebeu o Troféu Bastidores nos anos de 1980, 1988 e 1990; O Troféu Boi de Mamão em 2000 e 2001 da Câmara Catarinense de Livros. Foi presidente do Grupo Teatral Nós de 1971 a 1989 e participou do livro Contistas e Cronistas Catarinenses editado pela Lunardelli. Como produtor independente editou 36 livros, sendo 33 infantis, um de poesias [Fragmentos D’Alma], um de crônicas [Magias da Vida] e o autobiográfico A História de um Contador de Histórias. Lançou em 2003 Copiando a Vida e em 2004 No Mundo do Faz-de-Conta, ambos integrantes da Coleção Contos Infantis.

Escrevendo sem parar e cuidando pessoalmente da produção e comercialização de suas obras lança a coleção de Livros Infantis NILSON MELLO – Edições independentes, ao preço de R$ 3,00 o exemplar.

Faleceu no dia 11 de maio de 2016.
Fontes consultadas:

  • Revista O Rádio Catarinense, editada por Nilson Mello em 1957 – disponível aqui no Caros Ouvintes.
  • História do Rádio em Santa Catarina. Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira. Florianópolis: Editora Insular, 1999.
  • A História de Um Contador de Histórias. Nilson Mello. Florianópolis: Editora Papa-Livro, 1999.

Publicado originalmente em: 18 abr, 2006

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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